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Terça-feira, Outubro 19, 2021

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“O Alentejo nunca saiu de mim”, por Adelino Correia-Pires

E lá ia ela, como fazia todos os dias, subindo a rua empedrada, amparada na fé e na bengala. Tinha descido os degraus de pedra daquela casa, bela casa, deixado os recados à Joaquina, pequena e leal Joaquina, o guardanapo em cima do jarro da água, que lhe haveria almofadar a sesta depois do almoço. E depois subia, direito à Sé. E rezava direito a Deus. E olhava, direito a mim. E eu, que não tinha bengala, nem fé, nem jarro para dormitar, olhava para ela, para a avó Aurora e gostava daquela casa, daquela rua e daquela igreja grande, onde marquei os primeiros golos da minha vida.

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Naquele largo, de um lado, o Bispo. Do outro, os homens de amianto. Dizia-se que eram os mais prontos quando chamados. Estou a vê-los entre o esvoaçar dos pombos, confusos, eles (os homens, os pombos) e a paz do senhor, em sobressalto pela sirene da Sé até à serra. E o bispo, paredes meias com aquelas vinte e oito janelas e pilastras, lá ia rodando os polegares, desfiando o latinório, baixinho, pianinho, apagando o fogo de outras almas. Depois, mais tarde, os homens regressariam exaustos. E a sé voltaria a ter seus os pombos. E os pombos as suas vinte e oito janelas. E o bispo continuaria na sua sempre eterna e divinal inspiração, paredes meias com o cheiro e fumo de terra queimada.

Enquanto isto, na outra rua, a do comércio, mercava-se de tudo um pouco. E o avô Correia cumpria o ritual de todos os dias, de todos os anos, desfazendo-se na fazenda a metro, no comprimento do fato ou do vestido, no cumprimento educado do dever cumprido. E no deve e haver da manuscrita diária, com letra desenhada a rigor de caneta de tinta permanentemente imaculada, as contas dariam resto zero, noves fora nada, mas sempre certas e aprumadas, que isto de educar quatro filhos, com instrução qb e mais que muita, formação e formatura incluídas, não seria assim para qualquer um. Como o brio e o brilho daqueles botões de punho, forrados a rigor na velha máquina de fazer novo o que velho fôra.

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E agora, o primeiro e mais velho dos muitos netos, bisnetos e de toda a prole (ao que dizem nascido encostado ao poeta), aqui fica relembrando a avó Aurora e o avô Correia. E apetece-lhe subir o empedrado da rua, olhando a igreja grande e também os pombos, encostar-se à esquina da velha loja de fazendas e espreguiçar-se à espera da feira das cebolas lá para Setembro. Porque o alentejo nunca saiu de mim…

Nasceu em Portalegre, em 1956, em dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Mais monge que missionário, é alfarrabista no centro histórico de Torres Novas. Vai escrevinhando por aí, nomeadamente no blogue "o tom da escrita" e é seu o livro “Crónicas Com Preguiça”. E continua a pensar que “não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer...”

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