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“O Alambique”, por Armando Fernandes

Há dias, ao folhear um livro contendo gravuras e desenhos de utensílios e aparelhos dedicados à destilação de bebidas, surgiram-me alambiques reluzentes, de cobre como é costume, de vários tamanhos, reluzentes e com sinais indicativos de serem muito antigos. Guardei o livro, não sem antes ter fixado os volumes das caldeiras «onde se coloca a mistura a destilar, de capitéis que recebem os vapores e neles se concentram esvaindo-se por um tubo de forma helicoidal que os conduz até às serpentinas. As serpentinas estão mergulhadas num refrigerante que os recebe e estes se condensam».

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Este tipo de alambique no qual o álcool passa duas vezes é aquele que a maioria das pessoas conhece, e neles se destilam aguardentes famosas, de custo elevado, e as vulgares, populares, porque o preço incita a bebê-las para aquecer os corpos nos dias e noites na época invernal e nas noites de canícula estival, a fim de refrescarem as gargantas. Assim o ouvi a um carioca num boteco situado numa esquina da Rua Visconde de Pirajá, Rio de Janeiro, famoso pela clientela hedonista, artística e literária. Segundo afirmava com detalhes, as artistas das telenovelas apreciavam tomarem ali um porre dada a invulgar qualidade da cachaça.

Ao ver os alambiques a memória recordou-me os efeitos de uma bebedeira que apanhei na minha aldeia de afectos, afinidades electivas e algumas desilusões, aldeia de Lagarelhos, no concelho de Vinhais.

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Estava de férias nos finais de Setembro, fim das vindimas, com onze anos, os heróis dos livros de aventuras e viagens povoavam e provocavam sonhos afins, porém naquela tarde, nas repetidas deambulações aldeãs, num pequeno largo lobriguei um alambique em plena funcionalidade. Pertencia ao meu tio João Francisco, logo me ofereceram figo secos e nozes, a aguardente brotava quentinha, mal se notava a aspereza, bonita que nem uma prima minha que eu requestava (recebi esplendorosa tampa), fui bebendo copinho atrás de copinho até ficar em estado lastimável.

No regresso a casa da minha avó materna bati com a cabeça não sei bem onde, sei, isso sim ter averbado vermelho hematoma no rosto. No regresso à casa paterna inventei uma caridosa mentira justificativa da buba furtando-me a mais que certa punição paterna. Isso julgava eu. Tramei-me. Passados dias recebi sonoras bofetadas porque uma bondosa tia paterna informou o meu progenitor do sucedido.

A chocalheira já morreu, eu ainda sinto os ardores das estaladas, por isso quando vejo alambiques acelero o passo, no entanto, quando bebia destilados dedicava tempo à consumição de aguardentes de boa estirpe.

O leitor amigo e amante de aguardentes tenha cuidado com os postes e, sobretudo com as tias que lavam os dentes com a língua!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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