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Domingo, Julho 25, 2021

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“Nunca escrevo para a gaveta” – Nuno Garcia Lopes assinala 20 anos de edição literária

Nuno Garcia Lopes celebrou na sexta-feira, 27 de Novembro, 50 anos. Mas também celebrou 20 anos de edição literária. Tomarense, natural de Linhaceira, casado e pai de duas filhas, o autor conta com 11 livros, alguns dos quais destinados a crianças. “Nunca escrevo para a gaveta”, assume. Porque quer, com a sua escrita, contribuir para a construção de um mundo melhorA entrevista do escritor ao mediotejo.net foi concedida na véspera de aniversário, no emblemático “Café Paraíso”, onde também já se sentou muitas vezes a escrever.

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“Tive sempre a sensação clara que – fosse para onde fosse – teria que ter a ver com a escrita e com a leitura”

Onde estava há 20 anos?
Há 20 anos… a esta hora, não sei. Provavelmente, era capaz de estar por aqui pelo “Café Paraíso” a ler alguma coisa ou a preparar o meu lançamento, nessa noite, do primeiro livro que foi na Casa Vieira Guimarães, em Tomar.

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Foi exactamente em que dia e de que livro estamos a falar?
Foi  no dia 27 de Novembro em 1995, no dia em que eu completei os meus 30 anos de idade. O livro chamava-se “Poemas de constância e desafio”

Quando é que os livros entram na sua vida?
Os livros entraram logo desde quase o meu nascimento. Havia em casa dos meus pais não muitos mas, enfim, um número considerável de livros para a época. O meu pai era um apaixonado por livros e também pela própria escrita e, portanto, isso era sentido lá em casa. Nasci numa aldeia, na Linhaceira e, na altura, ainda não havia Jardim Infantil, portanto eu só fui para a escola aos 6/7 anos. Mas quando fui já sabia ler e escrever. Acabei por aprender sozinho, em casa, sem grandes dificuldades. Depois recordo-me que aos 8 anos – mais ou menos por esta época – terei escrito o primeiro poema, um poema  ao Menino Jesus, que inclui no meu primeiro jornal, que era uma série de folhas dobradas uma dentro das outras que tinham já alguns textos semi-jornalísticos e outros semi-literários.

E as reacções da parte de quem o rodeava…
As reacções foram muito boas. Eu acho que isso foi fundamental para o meu percurso. O meu pai – que trabalhava na Matrena –  ficou tão entusiasmado que levou esse “jornalzinho” para mostrar aos colegas. Esse sentimento deixou-me tão orgulhoso que senti que de facto estava a fazer uma coisa importante. A partir dai continuei e até, pelo menos aos 12 anos eu diariamente fazia o meu jornal diário, que cheguei a levar na escola e havia colegas meus que faziam exemplares para distribuição.

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Nuno Garcia Lopes fotografado pelo mediotejo.net na Praça da República em Tomar

Estamos a falar de poesia e prosa?
Foram sempre as duas coisas em paralelo, prosa e poesia.

Para se escrever bem tem de se ler muito…
Sim, de certa forma a escrita para mim é quase natural. E, da mesma maneira que há pessoas que têm jeito para fazer desenhos, eu com facilidade escrevo. Mas a leitura é, obviamente, fundamental. Quando tinha os meus 16 anos, andava no  10.º ano no liceu … o Colégio Nun’ Álvares Pereira estava a comemorar 50 anos e promoveu um concurso de poesia organizado ao nível concelhio para os alunos do ensino secundário. Eu concorri e ganhei o primeiro prémio, o que foi importante porque até era aluno do 10.º ano. Mais importante que ganhar foi o prémio que ganhei foi importante: era um conjunto de livros que dava para ai um metro de largo. Ou seja, muitos livros e entre os quais havia livros de poesia que eu nunca tinha lido. Estávamos nos anos 80, dávamos apenas os clássicos em Português e encontrei ali uma série de autores recentes que, durante uns meses, dei por mim a escrever compulsivamente. Escrevi e inventava imenso porque me abriram uma série de caminhos. A leitura foi, para mim, crucial.

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Um dos “jornais” da sua infância

Que autores tem como referência?
Tem havido fontes de inspiração ao longo do tempo. E continua a haver. Por exemplo, neste momento ando fascinado com Helberto Hélder – ou melhor  continuou a estar fascinado – com ele. Poucos meses depois de ter ganho este concurso do Colégio Nun’Álvares encontrei um livro de Helder, “O bebedor nocturno“, dos anos 60, que são poemas mudados para português. Este livro foi tão fundamental para mim que, durante dois anos, arranjei todos os subterfúgios possíveis e imaginários para não o entregar na Biblioteca Municipal (risos). Mas é apenas um dos muitos autores que aprecio.

Foi fácil para um adolescente viver com esta vocação literária?
Eu era extremamente tímido. Muito introvertido mesmo. A escrita funcionava, para mim, como “uma válvula de escape”. Como tinha alguma dificuldade em falar directamente com as pessoas, escrevia. Ao escrever expressava com maior facilidade os meus sentimentos. E isso acabava por ser interessante porque junto dos meus colegas da escola ia mostrando aquilo que ia escrevendo e as pessoas gostavam. Acabei por sentir que estava a criar o meu próprio público-leitor. Mais tarde acabei por ultrapassar essa timidez natural que tinha. Foi importante saber, desde cedo, qual era o meu caminho. Tive sempre a sensação clara que – fosse para onde fosse – teria que ter a ver com a escrita e com a leitura, fosse em jornal, fosse em livros.

Ter isso bem definido ajudou-o na hora de escolher um curso superior?
De certa forma. Eu também tive sempre a noção que viver da Escrita não era, propriamente, uma tarefa fácil. Eu tirei o Curso de Línguas e Literatura Modernas porque queria ficar a saber, o mais possível de Literatura mas, confesso, estava à espera de encontrar na Faculdade de Letras um clima de mais tertúlia e menos teórico. Depois acabei por ainda dar aulas  – que era a saída mais natural do meu curso – mas só o fiz depois de ter a certeza que era bom professor (…). Achava que não seria um bom professor. Porque para ser professor tem que se ser muito bom …

… E como é que descobriu isso?
Depois de acabar o curso, tive que ir cumprir o Serviço Militar obrigatório. Algo que não gostava nada e não tinha nada a ver comigo. Acabei por estar a dar recruta (algo inimaginável para mim) só que dei recruta a um grupo de jovens. Tinha 23, 24 anos. Encontrei jovens, uns quatro ou cinco anos mais novos que eu – quase todos com pouca escolaridade – e dei-lhes formação cívica. As coisas resultaram tão bem que chegaram a fazer-me uma grande festa quando me encontravam na rua. Pensei que se isto tinha acontecido quando ensinava algo que não tinha nada a ver comigo, que talvez me saísse bem a ensinar algo que gostava. Foi isso que me levou a concorrer aos mini-concursos. Cheguei a dar aulas de Jornalismo e Português durante cinco ou seis anos. Depois, porque era uma vida incerta, acabei por desistir dos mini-concursos.

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Um dos seus livros, editado pelo “O Contador de Histórias”

Foi quando entrou para o Jornalismo?
Já tinha experimentado antes. Voltando atrás, sempre tive a noção que precisava de trabalhar para ganhar a vida. Na Faculdade tive um part-time. Trabalhava num escritório de Contabilidade para ajudar a pagar os custos mensais e, ainda durante a Faculdade, fiz o meu primeiro trabalho jornalístico. Foi no Diário de Notícias, tendo estado ligado ao Suplemento “DN Jovem”. Neste suplemento, as pessoas colaboravam de forma gratuita mas, na altura, foi feito um convite a mim e ao Fernando Sobral, para escrevermos uma página específica sobre música. Íamos ver concertos e escrevia. Foi o meu primeiro trabalho remunerado. Depois, continuei a fazer jornalismo em paralelo com as aulas.

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Como é que alguém com uma veia literária tão marcada consegue entrar no espartilho da objectividade jornalística?
Eu sempre o tentei fazer mas tive sempre aquele principio que um texto jornalístico – seja uma reportagem, seja uma entrevista – deve reflectir o estilo do seu autor. Acho que consegui, numa série de textos, por um pouco dessa visão. Tentar fazer com que o texto não seja apenas um mero relato dos factos mas que consiga atrair o leitor quase como se for um texto literário.

Porque é que esperou pelos 30 anos para lançar um livro?
Felizmente, só lancei o meu primeiro livro aos trinta anos. Digo felizmente porque, por exemplo, depois de ganhar o prémio do Colégio, aos 16 anos, tive uma professora  – a professora Irma de História – que insistiu bastante para que eu publicasse um livro com a minha poesia nessa altura. E chegou mesmo a mexer uns cordelinhos para isso. Fico-lhe muito agradecido por isso mas, de facto, ainda bem que não aconteceu porque eram poemas de juventude.

Que não tinham maturidade…
Poemas que eu hoje tinha que renegar, de certa forma. Como Eugénio de Andrade o fez com um livro de juventude. Porque em jovens ainda não criámos o nosso estilo próprio. Estamos ainda a aprender. São poemas fundamentais, naquela idade, para nós pormos as coisas cá fora mas, à medida que vamos construindo o nosso trabalho literário, apercebemos-nos que são de uma fase de aprendizagem. Felizmente, tudo se conjugou para que apenas aos 30 anos eu lançasse o meu primeiro livro.

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Nuno Garcia Lopes, 20 anos de edição literária (foto de Celestino Rodrigues)

Como é que surge o “Poemas de constância e desafio”. Porquê este título?
Surgiu numa altura em que já estava de volta a Tomar. Era um livro de poesia e como o próprio diz – numa espécie de subtítulo – são doze poemas por extenso e algumas abreviaturas fotográficas porque tem umas quatro ou cinco fotografias, uma área que também gosto muito. Muitas pessoas me perguntam se tem a ver com a Vila de Constância. Respondo que tem e não tem. Estava lá a dar aulas na Escola Luís de Camões quando escrevi estes poemas mas tem mais a ver com a ideia do ser constante e gostar do desafio. Refere um pouco o que sou eu. Por um lado, gosto de ter o meu espaço e sou fiel às minhas coisas mas, ao mesmo tempo, de ter constantes desafios e olhar para além disso. Não foi por acaso que sugeri o Café Paraíso para fazer esta entrevista…

Ai sim… Porquê?
Há dois cafés fundamentais em Tomar para a minha escrita: o Café Santa Iria e o Café Paraíso. São espaços de tertúlia e em ambos escrevi. No Santa Iria escrevi alguns desses poemas do primeiro livro. E aqui no Paraíso escrevi, praticamente, um livro para crianças quase inteiro. E o primeiro poema de um livro sobre Tomar intitulado “Este pão não é de trigo, é de papoilas”. Por isso, reforço,  por um lado a constância mas ao mesmo tempo sempre querer ir mais além.

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Foi uma edição de autor?
Eu tinha tentado enviar já coisas para duas ou três editoras mas as respostas eram “que até era interessante mas não estavam a editar poesia”. Pensei que podia avançar eu próprio para uma edição. E, nesse momento, estávamos a criar um projecto que era “O Contador de Histórias” que se assumia como um núcleo cultural. Era um grupo de amigos, não organizado oficialmente, que tinha feito algum trabalho e intervenções públicas. E pensamos em avançar com O Contador de Histórias como editora. Lanço eu, com o meu irmão Filipe, essa editora e sim… acabou por ser quase uma edição de autor.

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Uma das suas obras

Há 20 anos… quando teve o seu “primeiro filho” nas mãos, o livro em papel, qual foi o sentimento que se aflorou?
Foi um sentimento muito forte. Já não sei dizer muito bem porque a seguir a essa vieram mais dez (risos). Neste momento são 11 filhos mas ainda gosto de lhe sentir o cheiro. De pegar nos livros e sentir aquele cheiro do “acabado de fazer”. Tenho duas filhas – reais – para além destes filhos literários. Há, de facto, muito no processo de fazer um livro semelhante ao processo de gestação de um filho. É uma ligação muito intima. Ver a primeira ecografia é algo de muito parecido com ver a primeira prova de um livro (risos). Uma das coisas que gosto muito do processo do livro é estar junto dos paginadores e designer’s a criar.

O que é que os seus livros têm em comum? Qual é a marca Nuno Garcia Lopes?
Há uma vontade muito grande de chegar junto dos leitores. Eu digo que nunca escrevo para a gaveta. Embora não seja obcecado pela ideia de publicar, escrevi sempre na perspectiva dos leitores. Não escrevo para mim, escrevo para alguém. Estou a partilhar-me um pouco com os outros. A atitude cívica é, para mim, fundamental. Todos nós temos um papel a cumprir na Sociedade. Ao partilhar as minhas ideias com os outros, através dos meus livros, estou a cumprir esse papel. Daí que não seja um autor azedo. Eu quando escrevo, faço-o sempre com prazer. Para mim a literatura é uma alegria imensa!

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O autor fotografado por Fernando Pena

Como vão ser os próximos 20 anos?
Estes 20 anos servem para eu ganhar um novo impulso e escrever. Quero dedicar-me mais aos livros nos próximos 20 anos. Nunca vou parar de ler ou escrever. No momento em que o fizer, podem considerar que estou morto para o mundo. Estaria apenas a vegetar. Porque, de facto, os livros são a minha vida.

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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