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Quinta-feira, Outubro 28, 2021

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Novas espécies cavernícolas tornam Portugal referência na biodiversidade subterrânea

Portugal está na lista de ‘hotspots’ mundiais de biodiversidade subterrânea graças ao trabalho liderado pela investigadora Ana Sofia Reboleira, que permitiu descrever mais de 54 espécies novas numa década, triplicando o número de espécies cavernícolas conhecidas no país.

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A investigadora guiou hoje uma dezena de visitas a 47 metros de profundidade, mostrando daí a maior sala subterrânea conhecida no país – o Algar do Pena, na freguesia de Alcanede, concelho de Santarém – à cerca de uma centena de especialistas que participam na 24.ª Conferência Internacional de Biologia Subterrânea, a decorrer em Aveiro desde segunda-feira.

Na plataforma criada no interior desta gruta vertical (que desce até aos 82 metros de profundidade) encontram-se, em pequenas caixas, alguns dos “animais das cavernas” que podem ser vistos por quem visita a gruta e que estão disponíveis para experimentação, sendo a sua manutenção assegurada por alunos do agrupamento de escolas local, no âmbito do projeto “Citizens & Science”, orientados por Ana Sofia Reboleira.

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“Portugal é um dos poucos sítios do planeta em que, numa cavidade, temos mais de 20 espécies adaptadas à vida cavernícola. Isto é muito raro. Há muito poucos locais no planeta com estas características”, afirmou.

O maior encontro internacional de biologia subterrânea encontra-se a decorrer esta semana em Portugal, nomeadamente em Aveiro. Na quarta-feira, 22 de agosto, 88 da mais de uma centena de congressistas de 25 países de todo o mundo viajou até ao Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros (PNSAC) para conhecer a Gruta do Pena, caverna subterrânea descoberta através de um algar na década de 80, na pedreira de Joaquim Pena.

A visita serviu para dar a conhecer o trabalho de investigação dirigido por Ana Sofia Reboleira, que para além das novas espécies identificadas tem estudado o impacto da poluição nos ecossistemas que purificam a água doce. De recordar: 97% da água doce passível de ser utilizada pelo homem encontra-se no subsolo.

Portugal tornou-se nos últimos anos um “hotspot” de biodiversidade. Segundo explicou ao mediotejo.net Fernando Gonçalves, docente de Biologia na Universidade de Aveiro e um dos organizadores da 24ª Conferência Internacional de Biologia Subterrânea, foi este o motivo que trouxe o certame ao país, com a presença de cerca de 1/3 de todos os especialistas mundiais na área, numa conferência que tradicionalmente se situa mais em países como os EUA.

Descendo a gruta é possível observar o espaço e algumas espécies da fauna local Foto: mediotejo.net

A investigação realizada na última década em torno da biologia subterrânea, praticamente inexistente ou escassa até então a nível nacional, tem permitido que os novos desenvolvimentos na área se verifiquem no país.

Fernando Gonçalves reconheceu que há relativamente pouca gente a nível mundial a estudar estas temáticas, razão pela qual facilmente se concentram tantos especialistas num evento.

As grutas eram locais pouco explorados até há poucos anos, pelo que há todo um “potencial científico” a ser desenvolvido, que vai desde a possibilidade de criar novos produtos, com aplicação em áreas como a saúde (através das substâncias produzidas pela fauna subterrânea), ao estudo do risco ecológico da poluição do subsolo para permitir criar legislação.

“Há um potencial enorme que tem sido negligenciado”, constatou, “nos últimos anos descobrimos mais de 30 espécies. Não havia nada feito”.

Cerca de 90 especialistas em biologia subterrânea visitaram a Gruta do Pena Foto: mediotejo.net

Este é o trabalho que Ana Sofia Reboleira, professora na Universidade de Copenhaga, no Museu de História Natural da Dinamarca, tem desenvolvido na Gruta do Pena, em Alcanede (Santarém), em pleno PNSAC.

“Esta gruta é uma estrutura única do ponto de vista mundial”, explicou a investigadora ao mediotejo.net, “de grandes dimensões, muito bem preservada”. No espaço a especialista tem estudado a fauna local, desde os terrários aos aquários.

Para além da nova espécie de escaravelho descoberta há uma década na Gruta, Ana Sofia Reboleira avançou que há novidades, que deverão ser publicadas dentro em breve. Mas a importância da Gruta vai muito além do seu património natural.

A especialista explicou que estes animais aquáticos têm um papel primordial no equilíbrio ecológico, purificando a qualidade da água subterrânea. Cerca de 97% da água doce para consumo humano é subterrânea.

Ana Sofia Reboleira (direita) é a especialista responsável pela investigação científica na Gruta do Pena Foto: mediotejo.net

Neste âmbito, a docente reconheceu que “temos problemas graves de contaminação”, tudo o que fazemos à superfície acaba por ter impacto no subsolo e “ainda estamos numa fase embrionária de perceber os reais impactos no ecossistema”. Um dos seus projetos de investigação incide precisamente nestas questões, através da recolha de organismos vivos e respetiva exposição aos químicos encontrados nas grutas subterrâneas.

“A água subterrânea é um cocktail de químicos”, de pesticidas a compostos farmacêuticos, explicou. Alguns dados preliminares, adiantou, dão conta da maior sensibilidade destes organismos.

“Ainda não estou arrependido de não ter tapado o algar”

Joaquim Pena era o proprietário da pedreira onde foi encontrada a Gruta que recebeu o seu nome. Entusiasta das grutas da serra e tendo já visitado algumas, não teve qualquer receio de explorar o algar que encontrou em 1982. A primeira vez desceu 35 metros com a ajuda de cordas, mas não via nada à sua volta. Acabaria por voltar com mais equipamento, descobrindo todo o complexo da gruta do Pena. Por ali ficou cerca de sete horas.

A história espalhou-se e rapidamente o atual Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) veio bater-lhe à porta, por forma a investigar o lugar. O terreno, que ficava bem próximo da sua moradia, acabaria por passar para a instituição. Mas “ainda não estou arrependido de não ter tapado o algar”, confessa, como muitos empresários das pedreiras faziam na época. Gradualmente o movimento das pedreiras também diminuiu, deixando de haver tanta circulação na serra. “É bom este aproveitamento”.

Entusiasta das grutas, Joaquim Pena descobriu o algar nos anos 80, entrando sozinho e investigando o interior da gruta Foto: mediotejo.net

Joaquim Pena surgiu na quarta-feira para acompanhar a visita dos biólogos à gruta que descobriu há mais de 30 anos. Presente na ocasião estava também Rui Pombo, vogal do conselho diretivo do ICNF, que frisou ao mediotejo.net a importância científica da gruta e o facto de se manter como um espaço sobretudo para investigação, não estando equacionada a sua abertura à via mais comercial. Atualmente quem visita a Gruta do Pena são sobretudo escolas ou por marcação.

“Há uma equipa de espeleólogos permanente que faz a ligação com os vários investigadores”, referiu, além de um vigilante da natureza. O espaço tem-se mantido em permanência desde a abertura em 1997, com vários projetos a decorrerem em colaboração com os meios académicos.

Na plataforma criada no interior desta gruta vertical (que desce até aos 82 metros de profundidade) encontram-se, em pequenas caixas, alguns dos “animais das cavernas” que podem ser vistos por quem visita a gruta e que estão disponíveis para experimentação, sendo a sua manutenção assegurada por alunos do agrupamento de escolas local, no âmbito do projeto “Citizens & Science”, orientados por Ana Sofia Reboleira.

O visitante pode descer até 47 metros, existindo depois uma plataforma que lhe permite ter uma perspetiva da grandiosidade e beleza da gruta Foto: mediotejo.net

Espaço é de grande beleza visual Foto: mediotejo.net

“Portugal é um dos poucos sítios do planeta em que, numa cavidade, temos mais de 20 espécies adaptadas à vida cavernícola. Isto é muito raro. Há muito poucos locais no planeta com estas características”, afirmou a especialista.

O Centro de Interpretação Subterrâneo da Gruta Algar do Pena (CISGAP) situa-se no PNSAC, estrutura do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas que tem instalada, desde 2014, a Estação Subterrânea de Monitorização da Fauna Cavernícola de Portugal Continental (Troglobiário), numa parceria com Ana Sofia Reboleira.

No CISGAP é feita a monitorização em cativeiro das espécies da fauna cavernícola que povoam as grutas de Portugal Continental. A monitorização, alimentação, verificação da evolução e estado de saúde dos organismos é feita por alunos dos 5.º e 6.º anos que frequentam o Clube do Ambiente do Agrupamento de Escolas Afonso Henriques, num projeto que no próximo ano letivo vai abranger os 1.400 alunos dos vários ciclos, no âmbito da flexibilidade curricular.

“A doutora Sofia está na Dinamarca, fala com os alunos por Skype (…). Eles é que estão próximos. É a terra deles e faz todo o sentido”, disse Helena Vieira, diretora do Agrupamento, sublinhando a formação dada pela investigadora e o apoio dos técnicos do PNSAC, bem como da autarquia, que disponibiliza o transporte.

c/LUSA

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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