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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

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“Nós, os outros, que não sabemos do que falamos”, por Hália Santos

Um dos maiores problemas das redes sociais, dos blogues e até dos Media é a forma precipitada como muitos de nós nos pronunciamos sem termos os dados necessários sobre um determinado assunto. Isto é ainda mais verdade quando os assuntos são polémicos ou quando são demasiado sérios. A forma como o assunto “famoso acusado de ser violador” e o assunto “povo pobre preferiu fascista” têm vindo a ser publicamente abordados dá muito que pensar. Se tivermos algum bom senso, o melhor talvez seja não nos pronunciarmos sobre assuntos deste tipo.

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Uma coisa é termos especialistas a comentar casos com base em hipotéticos, mas possíveis, cenários legais; outra coisa é termos extremistas a defender posições sem que os dados sejam todos conhecidos. E uma coisa é termos pessoas que conhecem bem a história, a política e a cultura de um país a procurar razões para os resultados de umas eleições; outra coisa é termos pessoas que nunca estiveram nesse país e que nunca se informaram devidamente sobre esse povo a criticar as suas opções de voto.

Há coisas que não devemos fazer. Não devemos julgar sem estar devidamente informados. Não devemos criticar o que não conhecemos. E há coisas que devemos fazer. Devemos procurar informação credível. Devemos aguardar enquanto os dois lados em conflito esgotam todos os argumentos.

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É difícil de resistir à tentação de se fazer parte de um grupo. Apoiar um herói nacional na alegria e na tristeza parece algo muito natural. Desejar o bem de um povo que tem sofrido demasiado ao longo dos últimos tempos parece algo muito natural. Mas os heróis e os povos também podem ter maus momentos. Mesmo que, em última instância, eles sejam os únicos a sofrer as consequências dos seus atos. Como também pode acontecer o herói estar completamente inocente e o povo ter feito o melhor para si mesmo. A verdade é que, neste momento, não sabemos. Não sabemos nem uma coisa nem outra.

Eu não sei o que se passou naquela suíte de hotel entre um homem e uma mulher. Eu não sei o que se passou na cabeça daquele povo quando votou. Não sei. Nem uma coisa nem outra. Por isso não devo – não posso – julgar quem quer que seja. Fazê-lo seria admitir que qualquer pessoa pode julgar e criticar outra pessoa na praça pública sem todos os dados em cima da mesa. Isso seria injusto e irresponsável. Ninguém deveria sentir-se no direito de o fazer.

Eu sei que todos temos o direito à opinião. Era o que faltava não a podermos dar. E mesmo nos casos de “famoso acusado de ser violador” e do “povo pobre preferiu fascista” é possível dar uma opinião equilibrada, salvaguardando que se baseia apenas nos dados disponíveis e que resulta num conjunto de princípios  de valores próprios de quem emite a opinião. O problema é que a esmagadora maioria das opiniões que se espalharam por aí foram tomadas de posição sem informação, sem enquadramento e, sobretudo, sem bom senso.

O que se ouviu sobre o famoso e sobre a sua alegada vítima obriga-nos a refletir. Até porque um deles está a ser atacado, pelo mundo fora, por supostamente ter tido um comportamento que não corresponde à realidade. Seja um ou seja o outro, as implicações serão sempre dramáticas. E não se trata de dinheiro. Trata-se sobretudo de imagem pública e de mazelas emocionais eventualmente irreversíveis.

O que se ouviu sobre o povo que votou num candidato que supostamente não gosta das pessoas que fazem parte desse povo obriga-nos a pensar. Este povo chegou a ser insultado, como se não tivesse o direito de determinar o seu voto. O povo pode vir a sofrer na pele consequências duras da sua opção, mas quem somos nós para querer ensinar alguém como se vota?…

Sim, eu sei que certas figuras públicas e certos comentadores têm a obrigação de formar quem os ouve. Têm, certamente, a obrigação de condenar com todas as energias qualquer violação, independentemente dos protagonistas. E nós, os outros, quando não sabemos do que falamos, deveríamos limitar as nossas opiniões às nossas esferas privadas.

Sim, eu sei que certos jornalistas e certos especialistas têm a obrigação de informar quem os ouve. Têm, certamente, a obrigação de chamar a atenção para os perigos que corre a democracia perante determinados resultados eleitorais. E nós, os outros, quando nos sentimos ameaçados, deveríamos ficar atentos e vigilantes.

Só isso: nós, os outros, deveríamos estar atentos em relação ao que nos rodeia e deveríamos ser cuidadosos com o que dizemos. Só isso. Mas podemos voltar a falar sobre estes dois assuntos. Daqui a uns anos!

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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