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Sexta-feira, Setembro 24, 2021

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“Noah e a sua família mereciam repórteres mais virtuosos”, por Carla Baptista

Durante 2 dias, as televisões serviram medo, acusação e maldade. Quem as mandatou e como chegámos aqui?

Perto da vista, perto do coração – jornalismo por dentro
Os textos desta secção têm um propósito: contar histórias sobre jornalismo. Os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.

Os jornalistas não costumam ser olhados como sujeitos morais. Nalgumas profissões – na área da Saúde, por exemplo – é natural esperar que, para além da competência técnica, médicos e enfermeiros ajam com sensibilidade, cuidando do bem estar físico e emocional. Os doentes valorizam a proximidade e a empatia de quem os trata em momentos de vulnerabilidade, criando uma atmosfera segura e respeitadora de direitos.

No jornalismo, a ética profissional concentra-se em valores externos à relação interpessoal e à história particular dos envolvidos, embora esta seja uma profissão altamente dependente da qualidade e da intensidade da relação entre pessoas. Os jornalistas, como diria o dramaturgo norte-americano Tennesse Williams, “sempre dependeram da bondade de estranhos”. O jornalismo faz-se com a vida de outros, com os seus sucessos, conquistas, perdas e derrotas. Mas o público não espera bondade dos jornalistas, antes pelo contrário. Os códigos éticos dizem-nos para evitar causar “mal desnecessário”, mas o alinhamento dos jornais televisivos premeia os jornalistas implacáveis, que vivem para perseguir, capturar e servir essas vidas roubadas aos pedaços e temperadas com sangue.

Os códigos éticos dizem-nos para evitar causar “mal desnecessário”, mas o alinhamento dos jornais televisivos premeia os jornalistas implacáveis, que vivem para perseguir, capturar e servir essas vidas roubadas aos pedaços e temperadas com sangue.

Assistimos à construção dessa narrativa no caso do desaparecimento de Noah, 2 anos e meio. O seu destino ocupou a integralidade do tempo das televisões, debatido por psicólogos, pediatras, polícias e vizinhos em programas de entretenimento e de informação. O jornalismo acolheu sem filtro esse fluxo ininterrupto alimentado por especulações (sobre os factos), crenças (sobre estilos parentais e educativos), subjetividade (sobre valores acerca da família, da maternidade e da paternidade), exotismo e alteridade (sobre crianças do campo versus crianças da cidade, população local versus estrangeiros que ajudaram nas operações de busca).

A narrativa visual usada para contar a epopeia de Noah baseou-se em imagens estereotipadas – planos de brinquedos abandonados na casa dos pais, transmitindo desolação e solidão – e imagens de rios e outros perigos na natureza, antecipando um desfecho trágico que felizmente a realidade não confirmou.

Durante 2 dias, as televisões serviram medo, acusação e maldade. Quem as mandatou e como chegámos aqui, de homicídio em inundação em incêndio em violência doméstica em animais maltratados em acidentes de viação em afogamentos em assaltos em rusgas policiais em crianças assassinadas e em crianças salvas? Todos mereciam repórteres mais virtuosos, sujeitos morais mais contidos no zoom, na perseguição do testemunho, na entrevista frívola, na opinião inútil. Mereciam repórteres mais comprometidos com uma ética feminista, cujo foco é “cuidar o sensível”.

Todos mereciam repórteres mais virtuosos, sujeitos morais mais contidos no zoom, na perseguição do testemunho, na entrevista frívola, na opinião inútil.

Os jornalistas procuram ser verdadeiros, rigorosos e imparciais. A interpretação jornalística considera as partes envolvidas numa disputa sem tomar partido. O “direito ao contraditório” é valorizado como sinal de uma cobertura justa. Os jornalistas verificam a veracidade da informação. A isso chamamos uma conduta socialmente responsável.

O “cuidado” exigido não está orientado para o bem estar das pessoas. Tende a concentrar-se na proteção de direitos do coletivo, como o direito das pessoas à informação e o direito dos jornalistas à independência. Define alguns interditos – não fabricar factos, não deturpar opiniões, não descontextualizar declarações – mas, em geral, oferece pouca reflexão sobre o impacto causado pelas representações jornalísticas. Sabemos que são parciais, construídas, contingenciais e poderosas na determinação da forma como as pessoas reagem aos acontecimentos.

A sociedade contemporânea conhece bem os efeitos negativos gerados pelos desvios de uma ética da verdade colocada ao serviço da produção de (des)informação. A praga das fake news valorizou ainda mais a postura ética normativa associada à prática virtuosa: Sê verdadeiro e tudo correrá bem tornou-se o mantra do bom jornalismo contra a má desinformação. É um bom mantra, mas será que chega?

No momento em que os repórteres chegam a um território que não conhecem, assolado por uma tragédia, seja ela “natural” ou causada pelos homens, e vão ao encontro da experiência de desconhecidos para construir as suas interpretações, que valores devem orientar esta busca e que cuidado precisamos de ter com estranhos, muitas vezes em estado de choque, em situações de dor e fragilidade?

Gandhi, um prolixo editorialista e repórter entre 1904 e 1914, escreveu na autobiografia: “Acredito que uma luta que depende sobretudo da força interior não pode ser inteiramente realizada sem um jornal”. Quando Gandhi foi assassinado, em 30 de janeiro de 1948, o então Primeiro-Ministro da Índia, Jawaharlal Nehru, anunciou a sua morte nos seguintes termos: “Foi-se a luz das nossas vidas.” É uma frase simples que metaforiza o poder deliberativo do jornalismo: acende luzes dentro de nós que ajudam a guiar o caminho, mas não se substitui aos indivíduos na tomada de decisões. Não lhes diz o que devem pensar sobre os outros e o mundo, e muito menos o sugerem de forma insistente, redundante e estridente.

Gandhi, um prolixo editorialista e repórter entre 1904 e 1914, escreveu na autobiografia: “Acredito que uma luta que depende sobretudo da força interior não pode ser inteiramente realizada sem um jornal”. 

Existem sérias lacunas sobre como orientar jornalistas no futuro. O jornalismo será mais interpretativo, engajado e abrangente. A democracia ficará em maior perigo. Os públicos serão mais divididos ideologicamente e diversos nas suas identidades. Uma resposta ética é a única capaz de fortalecer o jornalismo. Contribui para afirmar um jornalismo guiado por uma “ética do cuidado” que apreenda, visibilize e traduza com clareza o sensível nas nossas vidas.

O pensamento ético prioriza a relação com o Outro no processo de busca de conhecimento. A ética feminista é uma enorme inspiração para jornalistas. Segundo a “ética do cuidado” proposta pela filósofa e feminista norte-americana Linda Steiner, as histórias são construídas a partir da escuta respeitosa dos sujeitos representados, desconstruindo relações de poder. Os métodos de pesquisa são qualitativos e imersivos. Steiner menciona a necessidade de uma “introspeção” que conduza a um conhecimento nativo, evitando um olhar colonizador que exotiza e avalia. As relações são construídas com tempo, proximidade, colaboração e afeto. Histórias positivas sobre pessoas que cuidam dos outros são encorajadas, porque nos estimulam a respeitar (mais) essas tarefas e promovem um sentimento geral de benevolência (cuidado com os outros) e beneficência (cuidado para os outros).

Alguns dos apelos para trazer os públicos de volta através de um jornalismo mais envolvido em causas cívicas e mais proactivo no desvelar de desigualdade e injustiça, esbarram com dificuldades sérias de integração na rotina dos jornalistas. A consideração do contexto e da particularidade exige um tempo que não existe mais nas redações. A prevalência de noções históricas de confronto e escrutínio das fontes de informação coaduna-se mal com o conceito de “caring”. O desafio da ética feminista é sugerir a inclusão de outros pontos de atenção, insistindo em enquadramentos que resultam da obrigação comum de cuidar – de nós, dos outros, do planeta.

Alguns dos apelos para trazer os públicos de volta através de um jornalismo mais envolvido em causas cívicas e mais proactivo no desvelar de desigualdade e injustiça, esbarram com dificuldades sérias (…) A consideração do contexto e da particularidade exige um tempo que não existe mais nas redações.

Além da (re)consideração da questão dos fins do jornalismo, há ainda a etapa crucial dos meios. A integralidade do processo investigativo deve ser conduzida eticamente, banindo as práticas que podem potenciar os efeitos, mas violentam os sujeitos. A citação instrumental, a ilustração grosseira, a representação estigmatizada, o título deformador, o viés não refletido, a linguagem não inclusiva, são exemplos de práticas contaminadoras da honestidade documental que deve iluminar a reportagem ética.

A ética feminista serve para alguma coisa? Para os jornalistas, existe um precioso ganho de motivação que aumenta a sua felicidade. Segundo Linda Steiner: “Os jornalistas assim inspirados vão reportar sobre assuntos importantes com potencial para terem um impacto transformador.” Os públicos podem participar em histórias com significado. O jornalismo sai robustecido como uma instância credível de mediação. E, sobretudo, um dia Noah vai ser adulto e não devia envergonhar-se do que sobre ele e a sua família se escreveu entre 17 e 19 de junho de 2021.

Docente no Departamento de Ciências da Comunicação da NOVA FCSH, investigadora do ICNOVA na área da história dos media e jornalista freelancer, escreve todos os meses no mediotejo.net sobre jornalismo. Porque os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.

1 COMENTÁRIO

  1. Isto sim é jornalismo na verdadeira acepção do seu significado e da sua função. Parabens Medio Tejo.net. Parabéns Carla Batista

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