Sábado, Fevereiro 27, 2021
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“No Fabuloso Lado B”, por Bruno Neto

Nos dias em que os sorrisos salvam a nossa vida

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Hoje revisito uma das tardes de trabalho mais fabulosas que tive até hoje. Estava no interior de Angola, mais uma entre muitas tardes duras com calor excessivo, bafo quente com cheiro a capim seco, mas que te inspira para seguires com o trabalho.

Nesta altura (2011) trabalhava num projeto para a melhoria da saúde sexual e reprodutiva e redução da mortalidade materno-infantil. Todo o trabalho de entidades internacionais deve sempre seguir os padrões culturais de onde se está, ou seja, por mais que se pense que o politicamente correto dos nossos países é o melhor ou o mais acertado, fará sempre que sejamos falaciosos e acabaremos sempre por não aprender na diversidade. O euro-centrismo tira todas as possibilidades de nos desconstruirmos e de nos tornarmos mais globais, mais humanos. É então fundamental que se aceite que se está noutra cultura, com outras referências, com outras formas de pensar e de agir.

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Um excelente exemplo é o processo de chegada a uma comunidade nova. Para seres bem recebido e seres aceite nas comunidades tens sempre de falar com os líderes comunitários, para te darem a “bênção” sobre a tua intervenção ou propósito de ali estar, mas também para começarem logo ali todas as dinâmicas sociais e de advocacia para haver uma mobilização de toda a comunidade na prevenção e nos cuidados básicos de saúde materno-infantil. Tinha já visitado algumas populações durante aquele dia e esta era a última. Estava já um pouco cansado mas com toda a motivação para, além de fazer mais um diagnostico rápido, aproveitar a luz de fim de tarde para poder tirar umas fotografias e coleccionar mais umas estórias de vida.
Seguindo então na busca do tal líder comunitário, nesta pequena população rural angolana, ao sair do carro, vejo um jovem que me sorri de imediato e me saúda com um forte “Bem-vindo a Lucala”. Ele estava visivelmente cansado, com as mãos sujas de óleo, roupa repleta de marcas de um dia forte de trabalho mas, mesmo assim, aquele sorriso e aquela recepção fez-me ter vontade de, antes de começar com as formalidades, falar um pouco com ele, falar da sua vida, da sua família, da saúde e também falar um pouco de mim – naturalmente.

Falámos um pouco, ele explanou-me as suas preocupações, os seus hábitos e como a comunidade estava. Inteligente, astuto, humilde e pessoa intensa que, mesmo com menos de 30 anos, falava de família, das responsabilidades e da vida com uma maturidade e uma esperança impressionante. Agradeci, reforcei o meu propósito de estar ali e disse para ele me indicar o Soba (líder comunitário) e desculpei-me por lhe dar mais trabalho, ao que ele me respondeu que seria esse o seu trabalho mais fácil do dia… porque ele era o Soba. Fiquei irremediavelmente rendido a este rapaz. Jovem, trabalhador, responsável, inteligente, humilde e com um sorriso que fez sorrir. Ele convidou-me para ir até sua casa para podermos recolher os dados com mais “conforto” e, depois da parte mais formal, fiquei até ao por do sol com ele e com a sua família, que ainda que sem grandes recursos financeiros, foram das famílias mais felizes que conheci até hoje. Crianças com sorrisos sinceros de quem mesmo com tantas adversidades, agarra a vida com uma atitude que inspira e que me traz de volta as boas memórias e sobretudo estes sorrisos e estes sentimentos. Há dias em que os sorrisos dão sentido à vida, e há dias que os sorrisos salvam a nossa vida e nos dão alento para continuar.

Sorriam também para a vida e continuemos a lutar e a ter esperança que ela nos sorria de volta também!

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

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