No Fabuloso Lado B, por Bruno Neto

Os nomes que nunca teremos

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Quando cheguei ao Médio Oriente, tudo era novo para mim, tudo me fazia questionar tudo, mas uma das maiores complexidades era o diálogo em torno do nome: “Olá, como te chamas?” Naturalmente eu respondia “Bruno” e depois vinha quase sempre o desconcerto. “Bruno?” É um nome bonito, mas quer dizer o quê? E eu com algum embaraço explicava que numa revista tinha visto que queria dizer “Castanho”, “Moreno”, ou mesmo que havia o “São Bruno”. E sempre havia a insistência: “Mas Bruno, e como é que os pais escolhem o nome dos bebés?” E aqui explicava que era porque ser consideraria um nome bonito, porque estaria ou não na moda, porque havia cantores ou actores de novela com os mesmos nomes, ou mesmo seria o mesmo nome de um familiar importante na família e que assim era que em Portugal. O espanto sobre o início da minha explicação (ou tentativa de) rapidamente se transformava em expressão de pena, em expressões faciais que nitidamente tu lês: “ohhh coitadinho…”

E então sempre me explicavam que o nome deles ou delas era dado de forma poética, com significados profundos, que estariam ligados à natureza, aos estados de alma, à religião, e que o nome escolhido para dar aos bebés seria aquilo que a família queria que eles trouxessem ao mundo, luz, doçura, religiosidade, amabilidade, etc, etc.

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Havia de facto ali uma profundidade fantástica que quando eu depois olhava para a casualidade do meu nome, enfim… dava de facto alguma pena.

Quando depois comecei a trabalhar em África, comecei no interior de Angola. Trabalhava na Província do Kwanza Norte e neste interessante interior também aprendi muito sobre costumes, cultura, comida e aprendi também que os nomes dos bebés não eram os normais nomes de bebé que eu estava habituado em Portugal e também não tinha os mesmos contornos do médio oriente. E como seria de esperar, aprendi docemente à bruta.. e não foi numa aula de identidade e cultura Angolana na Universidade do Kwanza Norte, passo a contar.

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O meu amigo Suor, nome de um dos motoristas da organização onde trabalhava, numa manhã de Fevereiro entrou no escritório numa correria e com um sorriso de orelha a orelha e disse: “Bruno fui pai de uma menina!!!” Abraçou-me forte, sorrimos os dois, demos mais um abraço, mais umas palmadas fortes nas costas e mais alguns parabéns. Antes de chegarem o resto dos colegas, eu perguntei: “E como se chama a tua filha?” Ele, ainda com um grande sorriso e olhos molhados, exclamou: “Não sei!!!”

Nisto chegam os outros colegas e enquanto a celebração é partilhada eu penso: Bem… para ele não saber o nome da pequenota, possivelmente engravidou alguém que só hoje mesmo lhe disse que ele tinha sido pai. Pensei também que possivelmente podia haver um desacordo com a mãe, ou mesmo entre os familiares quanto aos nomes. Mas então quando tudo acalmou um pouco eu perguntei ao Suor porque é que a menina não tinha nome. E faço uns parêntesis. O Suor era um rapaz simples, um rapaz que nasceu no isolado Samba-Lucala e tinha uma reflexões filosóficas bonitas e simples sobre a vida. E então, já sentados, ele pergunta-me: “Mas Bruno, como poderia eu dar o nome à minha filha se eu ainda não a conheço?” Incrivelmente relutante que sou, perguntei: “Mas não foste à maternidade?” Ele sorriu, abanou a cabeça e disse: “Claro que fui!! Mas eu não a conheço, não sei que personalidade tem, como reage a nós (pais), como se expressa nos primeiros contactos com o mundo?! Como posso dar um nome à minha filha se ainda não sei qual a sua relação com o mundo? Ohhh Bruno, tens de ter calma.”

Naquele momento fiquei apaixonado com aquela filosofia, com aquela forma tão bonita de atribuir o nome ao bebé. Ainda repleto da maior ignorância (mas agora mais contente) perguntei (na minha pequena mentalidade maquinista): “E no máximo são quantos dias até definirem o nome?” E ele acalmou-me dizendo que isso dependeria de tanta coisa, que por vezes pode ser mesmo 2 ou 3 semanas até se chegar ao nome que “ela” própria escolheria (através da sua personalidade) para si.

Uma semana e meia depois, fui visitar o Suor e a sua namorada (era a sua 2ª mulher) e eles com um grande sorriso na cara disseram-me: “Bruno, apresentamos-te a Kiesa.” Fiquei com um sorriso bem grande também e já depois de a ter no meu colo perguntei: “E porquê Kiesa?” Então esta menina que estava sempre a sorrir, sempre alegre e raramente chorava chamava-se Kiesa porque em Kikongo quer dizer “Alegria”.

Alegria é a minha de tanto aprender, de tanto descobrir e desconstruir. Se quando era mais novo pensava em nomes para os meus futuros filhos e filhas, hoje penso diferente, não sei que nomes terão, tudo dependerá do país onde nascerem, do mix de culturas que experienciarão e claro, da vontade da mãe.

Aqui na Serra Leoa a filosofia é a mesma e por isso deixo-vos uma foto com a filha de uma colega minha que, 3 semanas depois de ter nascido, ainda não tinha nome.

Aproveito e deixo também este link, Portal da Província do Uíge e da cultura Kongoonde podem descobrir os nomes e os seus significados da cultura Kikongo.

É tão bom aprender, não é?

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