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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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No Fabuloso Lado B, por Bruno Neto

Nunca mergulharemos duas vezes no mesmo mar

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Aprender coisas novas é um passatempo que nos permite crescer e maturar. Nem sempre se gosta do que é novo, nem sempre temos vontade de querer fazer algo novo, até porque gostamos de ficar sempre na mesma mesa do café, muitas da vezes na mesma cadeira. Em casa temos o nosso lugar marcado à mesa, na cama, ou mesmo no sofá que já recorda os detalhes do nosso formato. Quando estudava no Liceu e apanhava todos os dias a camioneta para lá, lembro-me de ficar chateado quando entrava e alguém já estava no mesmo assento (que estava marcado, pois o cinzeiro já tinha a minha inicial lindamente e atabalhoadamente desenhada por uma moeda de dois e quinhentos) mas que me permitia lá do cimo de todas a curvas, ver o fabuloso Tejo lá em baixo.

Recordo-me também que quando trabalhava em Lisboa, e mesmo no meio de todo o caos, apanhava matematicamente quase sempre o mesmo metro, conseguia quase sempre sentar-me no mesmo banco e lembro-me de ficar contente por ver tantas caras conhecidas (que nunca soubemos quem éramos) mas que por termos os passos a bater nos mesmos ponteiros do relógio, sabíamos que fazíamos parte da mesma família, da mesma classe que não desistia de lutar. E era estranho quando alguém que víamos todos os dias deixava de aparecer… havia um vazio estranho daquela mudança que nunca dava para entender. Será que tinha mudado de emprego? Será que estava doente? Será que tinha morrido? Questionar a mudança dos outros que nunca conhecemos, que nunca soubemos nada, é o cúmulo do nosso tão confortável ser e estar.

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Então com o crescimento, o novo confortável, passou a adaptar-se ao novo um pouco menos confortável (por termos de mudar de assento, de trabalho, de cidade ou mesmo de país) e inconscientemente acabamos por alargar imenso a nossa zona de conforto e as nossas concepções das vivências que conscientemente achávamos impossíveis. Mas quando este processo se torna consciente, ficamos num docemente perigoso limbo em que queremos colecionar mais e mais experiências, beber de diferentes fontes, ter mais e outros novos que nos encham os buracos deixados pelo que já conhecemos e já deixou de nos chegar.

Eu sou um desses, dos que ganhou consciência que preciso de ter mais para ficar satisfeito para logo depois já procurar algo novo mais que me deixe insatisfeitamente satisfeito.

Mas nós somos diferentes, apesar das mesmas raízes os frutos que gostamos são tendencialmente diferentes. Não temos de mudar só por mudar, não temos de ser inconstantes só porque outros o são, isso torna-nos inconsequentes naquela que é a nossa essência. Podemo-nos sentar a vida toda na mesma cadeira da mesma mesa do café, mas o jornal que lemos será diferente todos os dias.

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

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