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Sábado, Julho 24, 2021

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No Fabuloso Lado B, por Bruno Neto

Um Aerograma de amor

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Não escrevia desde dezembro. Primeiro porque tinha férias e precisava de sair daquelas rotinas que perfazem os minutos contados dos minutos por viver. Mas depois veio o sentido da obrigação. Sentava-me e olhava para o plano ecrã, para o branco que contrastava com a minha capacidade para lhe meter o preto das letras que juntas contavam estórias que ganham vida. Ali jazia o nada… que de quando em vez era trocado por frases que não tinham a emoção e o fogo que merecessem substituir esse nada. Passou uma semana, duas… e a Patrícia e o Mário perguntavam-me se eu estava bem, se tinha ideia quando iria escrever novamente… e a minha resposta era pejada com a mais pura sinceridade de não conseguir escrever, de não conseguir contar, de não meter ninguém a sonhar. Certamente não era por falta de assunto, ou por falta de estórias.

A vida (e a morte) aqui na Serra Leoa continuam ao rubro. Se tinha fechado o ano de 2015 com a certeza que, num par de meses, havia criado uma equipa fantástica, com um espírito e uma coesão que muito me orgulhavam, 2016 começou da pior forma. Um dos nossos médicos Ugandês rescindiu o contrato com a minha organização – Solthis, porque o seu pai teve um AVC fortíssimo e ele, como filho único, tinha de ficar a cuidar da saúde do pai. Morreram as mães de dois colegas de trabalho, morreu uma filha recém-nascida de um desses dois rapazes, morreu um amigo meu que era um dos nossos motoristas – que me tinha dado a conhecer Freetown, o melhor local para comprar peixe, o Souk do artesanato, ou mesmo com quem ainda vi alguns jogos de futebol em cinemas locais. Para não parar por aqui, estão neste preciso momento dois dos meus colegas Serra Leoneses internados, um com febre tifóide aguda e outro com hepatite B.

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E para não pensarmos que as desgraças eram só essas, então partilho que a Clínica de VIH/SIDA de um dos Hospitais onde trabalhamos ardeu de cima a baixo, destruindo as fichas clínicas de 1245 pacientes, a farmácia com todas as drogas, o ar condicionado que tínhamos acabado de instalar e todo o material de escritório que tínhamos acabado de “inaugurar”… podia também falar que o ébola, que já tinha sido celebrado o seu fim, acabou por “regressar” à Serra Leoa, que voltámos a implementar as medidas de segurança de controlo da temperatura e lavagem de mãos e tantos outros eteceteras que seriam motivo de crónicas, estórias, textos informativos, sei lá, uma panóplia de assuntos que podiam aparecer como mais uma das minhas contribuições para o Médio Tejo. Mas não. Nada preenchia aquelas linhas invisíveis que descrevem quadros animados pela imaginação de cada um de vós. Mas então hoje voltei a sentar-me no computador, voltei a ver aquele branco horrível que polui a já tão pouca inspiração e pensei e tentei analisar ao máximo o porquê de não conseguir escrever. Se por um lado tinha tantas coisas para partilhar,  por outro tantas vivências e emoções fortes entre a minha visita a Portugal e o regresso à Serra Leoa, mas acabei por entender que era todo esse caos que não me deixava escrever, não era a falta de imaginação, de contextualização, não era o sonho que não estava lá. Era simplesmente o caos do tanto que respiro, a imensidão do tanto que vivo, de tanta decisão por tomar, de tanta responsabilidade, que acabava por não ser capaz de processar tudo, de conseguir arrumar todas essas coisas em caixas e organizar o consciente que nos faz viver.

Regresso então a vós, com o mesmo caos, mas com mais organização mental, imbuído neste maralhal de tantos poucos que afinal são os tantos muitos que me faziam ter tantas saudades de vos escrever.

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

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1 COMENTÁRIO

  1. Um grande bem haja ao autor, que não escreve do acaso, da imaginação ou do que ouviu falar por aí. Entendo a dificuldade em processar tanto acontecimento. Quem não entenderia…?

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