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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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No Fabuloso Lado B, por Bruno Neto

Quando Jesus falou comigo 

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A minha relação com a fé sempre foi complexa. Os meus pais decidiram não me baptizar para que eu um dia escolhesse a minha religião ou decidisse que relação quereria ter com o mundo. Sempre acreditei que os meus pais eram os pais mais democráticos do planeta por não me terem colocado rótulos ou etiquetas à nascença e dessa forma ser livre de ter a minha relação com religiões, crenças, diferentes visões do mundo mais ou menos filosóficas sobre a nossa origem.

Durante toda a minha vida tenho vivido com imensas pessoas de todas as crenças, religiões, ou visões mais ou menos objectivas e sempre essas vivências me ajudaram a ver o mundo de outras perspectivas que só me enriqueceram.

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Em 2007, nas Honduras, a meio de um trabalho de construção da estrada V-318 e de um embarcadouro entre Manglares e antigos vulcões (que felizmente hoje podemos ver pelo GoogleMaps o resultado final desse fantástico projecto que tive o prazer de chefiar), aproveitei a visita da minha irmã para ir à Ilha do Tigre que fica no Golfo de Fonseca onde iria passar uns dias de descanso em Amapala e arredores (vídeo – ainda que na altura não houvesse quase nenhum turismo e todas as infraestruturas fossem tremendamente básicas. Lembro-me que os únicos companheiros de praia eram: um burro, uma família de porcos pretos e muitos pelicanos).

Depois de umas horas de estrada na pick-up, chegámos ao Coiyolito, pequena cidade onde fica o pequeno porto onde se apanha o barco para a pequena Ilha do Oceano Pacífico, tivemos de esperar um par de horas para que o Pescador que nos iria passar para o outro lado terminasse as suas vendas no mercado local. Nessas horas em vez de estar sentado como toda a gente, peguei no meu sombrero e fui dar uma volta por ali. Foi aí que apareceu o pequeno Jesus. Chegou-se a mim olhou-me nos olhos, estendeu a mão e pediu-me dinheiro. (Salvo muito raras excepções) nunca dou dinheiro a crianças, não é por aí que as podemos ajudar, a menos que seja uma situação muito extrema, como já encontrei. Claro que disse que não lhe ia dar dinheiro mas continuámos a falar. Falámos imenso e ainda que na foto eu apareça de pé, pouco depois encostei-me à pedra para ficar ao mesmo nível que ele e deixá-lo estar mais à vontade comigo. Perguntei-lhe porque não estava ele na escola àquela hora do dia, ele respondeu-me que o professor tinha adoecido e que ainda não tinham um novo, mas logo me disse também que em breve iria deixar a escola. Perguntei-lhe porquê ao que ele me respondeu que queria ir muito para Tegucigalpa (Capital das Honduras). Não conseguia entender a relação da desistência da escola com o facto de ir para a cidade até que ele me explicou que com 9 anos já poderia começar a trabalhar numa fábrica de produção de roupa. Ele queria aproveitar o facto de ter um primo que já lá estava há um ano e assim também aproveitava para ir viver para Tegucigalpa porque esse era o sonho dele. Ainda que já tivesse tido contacto com trabalho infantil esta situação chocava-me mais que nunca, então quis saber mais detalhes. Perguntei-lhe como é que era possível ele trabalhar numa fábrica, porque eu sabia que havia fiscais de trabalho. Ele explicou-me de forma quase técnica que isso não era preocupação, porque as crianças só trabalhavam à noite. Os horários das fábricas oficiais eram das 8 às 20 mas as crianças só entravam às 22 e saiam às 6. Eu dou-vos um pouco mais do contexto para entenderem o absurdo da terra (planeta) onde vivemos. Na Europa e Estados Unidos e todas as zonas do mundo ditas ocidentais, as empresas continuam a apostar cada vez mais nas políticas verdes e sociais. As nossas leis em termos de lixo, substâncias tóxicas, direitos laborais, etc., etc., são muito rígidas e obrigam a todas as empresas produtoras a rigor que sai “demasiadamente” caro para o lucro que se quer fazer. Então na maior parte das vezes, estas empresas mantém as suas sedes nas grandes cidades e centros financeiros, mas decentralizam a sua produção para países onde é fácil comprar leis, processos, sindicatos, direitos e tudo o mais que se consiga pensar. Quem não conhece uma empresa que tenha fechado portas e tenha mudado a produção para um outro país ainda mais desgraçado que o nosso? Pois, são mesmo demasiados os exemplos. Então o Jesus ia trabalhar numa Maquila. Ele ia para uma linha de fabricação de roupa para várias marcas dos Estados Unidos e Europa para que nós depois possamos comprar a preço de saldo os produtos envenenados de um capitalismo injusto e nefasto.

Depois de fazer uma investigação mais cuidada, encontrei a organização Red de Solidaridad de la Maquila e num dos seus relatórios entendi que nas Maquilas, trabalhadores e trabalhadoras não têm qualquer tipo de direitos, os seus salários são contados ao milésimo de segundo – estão camaras instaladas que monitorizam todos os movimentos dos trabalhadores, caso estes levantem a cabeça da área de trabalho, começa a descontar do seu já triste salário. (ver pequeno vídeo). Segundo um dos relatórios, o preço final de produção no Bangladesh de uma tshirt é de 1.5 cêntimos e é vendida na Europa a 20 Euros.

Voltando ao Jesus, tudo naquele me dia me fez pensar no consumo, me fez pensar que tudo o que é demasiadamente barato será certamente fruto da exploração de alguém. A melhor solução para nós – caçadores recolectores de saldos, é a de termos cuidado com o que compramos, tentar ao máximo comprar localmente, tentar perceber se as marcas estão ou não a abusar de trabalho escravo, abuso sobre crianças ou animais. Chocolates, café, roupa, brinquedos ou tecnologias são mundos que tendem a usar o fácil e a escolher as vias mais humanamente caras para ter os seus produtos mais baratos.

O Jesus vivia numa pequena aldeia de pescadores, tinha tudo – escola, comida e uma vida saudável, mas tanto ele como a família foram seduzidos pelos dólares fáceis com um resultado provavelmente de desgraça.

Podemo-nos sempre informar sobre produtos e marcas internacionais que utilizamos todos os dias. Passem por estes Websites:

http://www.free2work.org/

 http://www.ethicalconsumer.org/

 www.greenpeace.org

Este miúdo é apenas um entre tantos milhões que vivem na pobreza. A conversa com Jesus mudou a minha vida e a minha atitude de mundo, posso contar também com a vossa?

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

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