Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Trincanela

Quarta-feira, Julho 28, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Trincanela

No Fabuloso Lado B: “O peso do canto da dignidade”, por Bruno Neto

O Cante e a cultura comunitária da valorização do comum.

- Publicidade -

Primeiro que tudo – não somos ocidentais. Não sabemos o que é isso de separar as águas se todos sempre molhámos a broa no azeite no mesmo prato. Não somos produtos, não fomos normalizados nem retratados pelo António Ferro nem nos conseguiram fazer parar de cantar tudo aquilo que nos vai no âmago.

Tentaram evangelizar-nos pela política mas no fundo todos sabemos que nos estamos a cagar para os partidos, os partidos partem e não é isso que nos interessa, queremos é ter trabalho, ver comida na mesa e que os nossos filhos e filhas sejam homens e mulheres honestos e atinados para a vida. A nossa base é o comum, e mesmo que seja a nossa vez de cantarmos sozinhos, sabemos que pouco depois temos um coro de vontades para nos lembrarmos que nunca estaremos sós.

- Publicidade -

Há um ano atrás por esta altura o Cante foi reconhecido como património imaterial da humanidade, mas a gente já o sabia, não era preciso dizerem-nos lá de Paris, a gente sempre o cantou e a gente sempre o sentiu, e quando a gente sente a gente canta.

Falou-se então muito no Cante de Serpa, mas a gente sabe que o cante não é só de Serpa, o cante é de todos os homens e mulheres que cantam o que lhes vai na alma. O cante é diferente como as gentes o são, ouvir os Ganhões de Castro Verde do meu amigo Filipe Pratas com o brutal e profundo é tão grande o Alentejo, o cante de Moura, ouvir o cante em Cuba ou em Pias, ou mesmo ouvir o Castelo de Beja cantado numa escola por uma centena ou duas de miúdos ou simplesmente numa tasca qualquer entre o cheiro a dia longo, a vinho antigo entranhado nas rachas dos bancos de madeira estando encostado a um balcão de mármore polido por tantos cotovelos de estórias duras de profundo caminho entre o eu e o nós – onde todos estamos.

O cante deve ser valorizado pela sua individualidade existencial para que todos os cantes sobrevivam e não sejam “normalizados” pela pressão dos otários que dizem qual a moda que devemos usar. O cante é sentimento, é dor, é vida dura, é paixão e é amor pelo que nos liga e nos une para sermos mais puros, mais verdadeiros. E juro que depois de ouvirem o Hino dos Mineiros de Aljustrel, verão em cada rasgo de boca, toda a dor e resistência dos heróis das classes trabalhadoras e garanto-vos que depois deste vídeo, não serão as mesmas pessoas.

Que o cante nos inspire a nos procurarmos a nós e a nos acharmos no meio dos outros.

O cante não começou ontem, nem nunca terminará enquanto houver gentes que continuem a acreditar que este mundo é de todos e todos temos de aprender a partilhar, a esperança resistirá e o amor pela terra perdurará.

Só assim sobreviveremos como espécie, só assim evitaremos o suicídio cultural e existencial, só assim seremos homens e mulheres responsáveis e atinados para a vida, tal como os nossos pais e avós nos ensinaram.

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here