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Quinta-feira, Julho 29, 2021

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No Fabuloso Lado B: “O Ciclo, o propósito e o legado”, por Bruno Neto

Sou um colecionador de estórias, de momentos, de vivências… e registo-as das mais variadas formas da imensidão da criatividade. Por vezes fotografo, por vezes escrevo, outras faço ambas, outras mesmo guardo nas caves da memória como aprendizagens ou simplesmente estórias que um dia partilharei com os netos e netas. Outras utilizo como práticas do meu trabalho, outras sintetizo em teorias de gestão ou criação ou desenvolvimento de matrizes e quadros de acção. E em estórias e histórias me enrodilho em novelos de nós.

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Saí de Portugal para começar toda esta experiência internacional há quase 12 anos, por entre estórias lindas e retratadas com belas fotografias ou textos, tenho também muitas experiências que trouxeram dor, trouxeram alguns traumas complexos que todos os dias tento desconstruir na minha cabeça.

Já morreu gente nas minhas mãos por mais que tivesse tentado ajudar a reanimar, já ajudei num parto no meio do mato em que a criança alguns dias depois teve complicações e morreu, salvei animais da morte injustificada, já estive em trabalho em campos de refugiados, já trabalhei em tendas, já estive em campos de “displaced” – milhares de pessoas que tiveram de fugir de ataques assassinos com ares pesados de genocídio, já cooperei com a policia secreta de 4 países em planos de protecção a ataques terroristas em projectos em que estive envolvido, já estive em situação considerada ilegal em alguns países para testemunhar crimes contra a humanidade que em alguns casos se chama airosamente e superiormente “politica internacional”, já tive uma arma apontada a cabeça por mais de meia hora por alguém a tripar em drogas e negociei na alucinação da morte.. a minha vida..

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sei lá… estas entre tantas outras coisas que tatuam o coração e fazem peso à alma.

Esse peso tem pesado muito. Sei que esta minha vida afectou pessoas que amo e continua a afectar quem está próximo de mim… peço e tenho pedido paciência, mas nem sempre posso dar o que gostaria. Ainda que hoje não seja assim, foram muitos anos a viver tendencialmente só, viver sem os amigos, a família mais próxima, o cão… viver sem ter um abraço, sem poder fazer daquelas jantaradas de horas à mesa, ou mesmo sair para comer qualquer coisa que nos apeteça… e tudo isto acaba por criar vazios imensos que sempre são difíceis de compensar e que são difíceis de reverter.

Sei que tenho dado o meu melhor e quero continuar a fazê-lo ao melhor nível. Por trabalhar ou ter trabalhado sobre Malária, Nutrição e segurança alimentar, água e doenças hídricas e diarreicas, conflitos armados e paz, violência sobre minorias, violência sobre mulheres, direitos da criança, VIH/Sida, Tuberculose, entre outras áreas de trabalho têm-me inundado de responsabilidades e isso faz-me estar directa e indirectamente responsável por demasiadas vidas e isso também joga no meio de todo este puzzle que incide sobre a minha sanidade elementar.

E vou já chegar a um dos pontos que gostaria de abordar hoje..

muita gente me envia mensagens para eu poder ajudar a fazer voluntariado internacional ou para iniciar uma carreira internacional como a que tenho. Dou todas as ajudas que posso, revejo CVs, cartas de motivação, dou conselhos, passos horas e horas do meu tempo livre a fazer mentoring para algumas dezenas de pessoas, e naturalmente isso faz parte da minha filosofia de filantropia e faço-o com toda a dedicação e espírito de “dar de volta um pouquinho do tanto que tenho recebido”. Mas partilho também algumas destas estórias para que se entenda que o trabalho internacional da cooperação não é ir para África dar comidinha aos meninos pretinhos esfomeados, ou dar uns casaquinhos para os que têm frio.

Todo este trabalho exige sacrifícios, exige muito e por vezes demasiado para o que somos capazes de dar e temos de estar sempre ao melhor nível, porque caso não estejamos, sabemos que o impacte final será sobre a vida ou a morte ou as condições de vida e de sobrevivência de muita gente. Por isso, quando trabalho, trabalho na resiliência das pessoas e das comunidades, mas antes tenho de parar um pouquinho e trabalhar imensamente a minha. Emocionalmente é lixado, perdoem-me o Krio, mas é duro e por vezes dói por demasiados lados.

E capitulando um pouco toda esta soma, decidi começar a planificar a acalmia da minha vida. Preciso de valorizar coisas que até hoje tinha dificuldade em fazê-lo, porque a camisa que tinha vestida pesava demasiado e todos os demais eram mais importantes que eu e que a minha vida… e sinceramente e muito friamente nunca me importei de morrer por causas humanas, sempre quis morrer de consciência tranquila.

Mas hoje quero viver. Hoje quero lutar para viver o mais tempo possível, quero valorizar a vida e quero valorizar o amor que tenho por mim e por quem está a meu lado. Mudou o paradigma e isso agradeço-o à aleatoriedade do universo por me ter feito aparecer alguém especial que me fez querer ver a vida de uma forma muito diferente – positiva e com uma extensão temporal muito diferente do que tinha até então.

Não vou parar de trabalhar e de estar a este nível, porque sei que o conhecimento e a experiência que tenho ainda serão muito importantes para contribuir para termos um mundo um pouquinho mais justo, mas vou estar de forma diferente e os planos de vida que tenho (ainda que os amanhãs sejam tão difíceis de controlar) são de valorização da vida, do amor, da família, do crescimento e sobretudo fortalecer o ciclo, de forma que os meus filhos e filhas entendam o propósito do nosso papel fundamental na sustentabilidade humana e ecológica.

E mesmo estando longe, terei sempre na carteira um bilhete de regresso.

TAMBÉM NÓS AMAMOS A VIDA
Mahmoud Darwish

“Também nós amamos a vida quando podemos.
Dançamos entre dois mártires e no meio deles erguemos um minarete de violetas ou uma palmeira.

Também nós amamos a vida quando podemos.

Ao bicho-da-seda roubamos um fio para tecer o nosso céu e estancar este êxodo.
Abrimos a porta do jardim para que o jasmim saia para a rua como um dia bonito.

Também nós amamos a vida quando podemos.

Na morada que escolhemos, cultivamos plantas vivazes e recolhemos os mortos.
Sopramos na flauta a cor da distância,
desenhamos um relincho no pó do caminho.
E escrevemos os nossos nomes, pedra-a-pedra.

Tu, ó raio, ilumina a nossa noite, ilumina-a um pouco.

Também nós amamos a vida quando podemos.”

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

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