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Trincanela

Sábado, Julho 24, 2021

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“No Fabuloso Lado B: Caçadores-Recolectores de Natal”, por Bruno Neto

A precariedade imaterial da sociedade de consumo torna-nos mais frágeis. O facto de usarmos para ficar bem, o termos de mostrar para podermos pertencer ao grupo, torna-nos dependentes do pensar dos outros, do pensar dos outros sobre nós e do nosso pensar sobre nós mesmos, porque aquele sentimento de culpa judaico-cristã, fica lá a corroer insistindo em decidir por nós.

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O facto de viver num dos lados B do mundo, faz-me constantemente questionar as minhas acções, o meu conforto, a norma de ter e de mostrar. Lembro-me que há alguns anos, sentia-me o rei dos saldos e dos descontos, comprava sempre tudo a preços fabulosos e tudo comprava em quantidade. Acumulavam-se as dezenas de tshirts com mil frases e mil desenhos, as calças com ou sem riscas mas com todas as cores que pudessem conjugar com os imensos sapatos que a maior parte só me serviam como acumuladores de tempo não calçado.

Com o avançar dos anos, com o avançar das perspetivas sobre os lados do mundo que vivia e ainda precisava viver, acabei por aprender da forma mais bruta a ser uma pessoa mais simples e mais responsável. Depois de visitar alguns campos de refugiados Palestinianos, depois de ter estado em tantas aldeias que não têm água ou electricidade, depois de ter estado com pessoas que passam fome, ou morriam simplesmente por não terem acesso a água potável ou por ter partilhado o meu dia-a-dia com pessoas que tinham um par de camisas rotas para vestir no dia-a-dia, percebi que tudo o que tinha sido “gentilmente” pressionado a comprar, a ter, a mostrar, não fazia sentido nenhum.

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Aquela minha camisola favorita da Levis, fora do “meu” mundo, não queria dizer absolutamente nada, aquelas sapatilhas da Nike que tanto me custaram, eram um conforto desconfortável e motivo de me sentir envergonhado, porque tinham custado o salário mensal de um amigo com quem almoçava todos os dias lá no Congo. E claro, percebi também que os preços demasiadamente baixos deveriam ser um indicador de que alguma parte da cadeia que me tinha trazido aquele produto, estaria a ser mal paga, ou escravizada para tal. Percebi que não era a quantidade que me iria fazer mais feliz, e mais tarde descobri que de facto não precisava nem de 50 por cento de tudo o que tinha.. e num vaipe bonito, doei tudo ao Conselho Português para os Refugiados.

A minha questão é: mas porque é que sou tão fútil? Porque é que “sem-saber-ler-nem-escrever” caí naquela esparrela do “maria-vai-com-as-outras”?!

Depois faço outra pergunta: Mas será que só depois de se ver a tristeza e a falta extrema é que nos apercebemos do quão ridículos somos?

Não entendo, e custa-me a entender, como alguém que eu julgava inteligente e em alguns casos, a última-coca-cola-do-deserto do pseudo-intelectualismo (eu mesmo), podia viver como um caçador-recolector-de-saldos?!

Depois de todas aquelas vivências externas ao limiar das desgraças e de todas as peças encaixadas na minha cabeça, pensei mesmo que – não podia ser. Não podia continuar a ser aquele consumista barato.

Claro que não deixei de vestir peças que gosto – podes mudar muita coisa, mas não podes de-repente deixar de ser vaidoso. Aliás, nem o quero. Mas sem dúvida que comecei a comprar diferente. Coisas que teoricamente duram mais tempo, coisas que teoricamente são de qualidade e que não me voltem a empurrar para um ovo de Colombo em tempo-de-rebajas.

Neste Natal, deixei o individualismo e a triste quantidade de presentes e darei amor e algumas peças de artesanato de cooperativas de artesãos Serra Leoneses à minha família. Já fiz várias doações – aqui na Serra Leoa e em Portugal e sei que até ao fim do ano colocarei em saldo mais tempo para os outros e ficará em liquidação-total o amor que tenho a dar a quem está a meu lado e à família e amigos que tanto tenho sentido a falta.

Este natal, ainda vai a tempo. Seja mais responsável com o Mundo, dê mais de si aos outros e aqueça o coração de quem mais precisa. Tenha a solidariedade como principal prenda e a sustentabilidade das suas acções e a dignidade como as estrelas que indicam o caminho.

 

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

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