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Domingo, Agosto 1, 2021

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No Fabuloso Lado B – “A cor do Vento”, por Bruno Neto

Já aqui falei várias vezes do meu encanto e constante busca pelo diferente, pelo que não conheço, e pela espontânea alternância do desconhecido. É nessa diferença que sais da zona do conforto geográfico, ou aqueles contextos que mais profundidade dão à experiência, aos 5 sentidos e que tanto sentido dão à tua existência.

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Se ao início possa parecer algo estranho, depois e com alguma facilidade te prendes ou te perdes nos cheiros indecifráveis e apaixonáveis de um souk árabe, do caos de uma 5ª dimensão de uma rua de Manhattan onde na cor da fotografia ouves o som de um saxofone que ruge pelo meio das buzinas de um caos que consegues imaginar.

Há tanto por viver, tanto por conseguir e por vezes não precisamos de ir longe, não precisamos de vender o ouro para comprar a prata da casa. Numa das minhas viagens ao profundo, imenso, intenso e cru Alentejo, parei em Selmes para beber um café, estava um calor que se quantificava pela inexistência de almas vivas na rua, com a excepção de um senhor sentado num banco corrido numa sombra que já pendia pelo telheiro da casa ao lado, decidi sentar-me a seu lado e falámos um pouco de quem é quem e quem é filho de alguém.

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Contou-me que se chamava Alberto e insistia em cada pausa da pausada conversa em olhar para um horizonte que creio que só ele veria. Alberto tinha 74 anos, uma vida de jornas incontáveis de quase escravidão, de abusos, de uma pobreza poeticamente rica de rugas e estórias para guardar. Alberto estava só, já não tinha mulher e apenas lhe restavam os dias por viver e aquele horizonte que só ele conseguia ver. No meio da conversa perguntei-lhe: Alberto e que está aqui a fazer? (com aquele calor, com aquela sequidão do tempo que teima em não passar) ele respondeu-me com o mais filosófico, e humanamente trágico gerúndio de alma: Estou à espera de me ir embora.

Aqui peço-vos para parar.

Paramos porque temos de parar, porque vos peço para olhar para o mesmo horizonte que fazia do Alberto um homem que se alimentava pelos dias que contava para partir. Para chegar ao fim, para chegar o sim de todos os nãos que sempre teve de ver.

Toquei-lhe no ombro e parti com a certeza que o mundo entre Selmes e Moura, era o fim dos tempos e o início da vida.

Na noite do mesmo dia, sentado no carro escrevi uma carta em forma de poema para que o Alberto pudesse ler no horizonte que o amparava.

à espera de ir-me embora…

dissipei-me entre Selmes e Moura
dissipei-me entre flores e terra,
onde tudo está tão dourado e
mostra demasiadas cores para o que tenho por ti.
O Alentejo é mulher, é paz e pão.

os teus veios frescos fazem-me encontrar-me
fazem-me buscar-me, silenciar-me, não amar-me, matar-me assim.

risco as cordas já gastas cantando,
canto o cante, cansado cantando
e fico matando-me em ti.

Transporto até hoje o peso da resposta do Alberto e com ele sempre tocarei a escala da estória da sua vida.

Neste vaguear das respostas claras, passaram-me tantas coisas pelas mãos, tanta terra que toquei, tantos sorrisos que colecionei, ou mortes de pessoas que mesmo tentando, não salvei.

Em todas estas vidas, perdi, tal como contei na semana passada, a noção dos mapas, tornei-me acromático, deixei de ver a cor nas pessoas, passei a não entender o que isso quererá dizer em termos comportamentais ou em que é que isso poderá ajudar-me a viver. A cor das pessoas diz nada. Rigorosamente nada e ao mesmo tempo diz tudo.

Podemos bater nos clichés, podemos ressonar todos os catecismos do medo da ignorância, mas nada mais ignorante é o pretexto da cor para julgar, apontar ou reforçar as nossas atitudes perante o que não conhecemos ou os tantos nadas que julgamos conhecer.

Desde pequenos que enfardamos divisórias mentais. Ensinam-nos conhecimentos universais como os direitos humanos. Ou desde pequeno que ouvia a voz de uma qualquer razão dizer: Bruno, o respeitinho é muito bonito e a tua liberdade acaba onde começa a do outro.

Mas depois de tantos anos vividos pela sede de viver, entendo que tudo tem de ser questionado, que tudo tem de ser personalizado de forma a podermos entender o que nos é comum, porque o que é individual é produto da nossa isolada insignificância.

Os Direitos Humanos surgem num momento histórico em que o individualismo é o principal motor do (chamado) “desenvolvimento”, surgem como a mais alta expressão da defesa do indivíduo. Até aqui tudo pareceria razoável… mas não é. Em todos os 30 direitos apenas e uma só vez aparece a palavra comunidade, e é só mesmo no artigo 29. Já quase no fim, já quase onde as ideias acabam, onde o círculo se fecha. Em todos os outros 29 artigos o centro é a promoção e a defesa do individual imperialismo e no portal em que entramos na expressão do respeitinho em que a minha ou a tua liberdade termina quando começa a do outro. Mas será mesmo assim? Será que vivemos em bolhas? Será que o desenvolvimento da humanidade é centrada na unidade de não sabermos quem é o outro porque isso poderá afectar a nossa liberdade?

A minha liberdade começa e termina onde a liberdade do outro (ou da outra) começa e termina também. Nada mais. Não vivemos em redomas, não ocupamos espaços quadrados numa terra tão circular, não somos mais nem menos que quaisquer outros… e o espaço (este ponto azul no universo) deve ser um lugar de partilha – de direitos e deveres humanos, animais e ecológicos. Tudo o resto se resume ao dia-a-dia que continuamos a lutar para metermos pão na mesa.

A cor é a grade que cobre a liberdade individual que não existe, enquanto a diversidade é o pincel que dá sentido ao horizonte da vida que o Alberto um dia imaginou.

Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um colecionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em 4 continentes tendo estado envolvido em projectos em mais de 25 países. Hoje chefia uma missão médica humanitária na Serra Leoa. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade. Escreve mensalmente no mediotejo.net

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