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Trincanela

Sábado, Julho 24, 2021

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“No Entrudo come-se tudo”, por Armando Fernandes

Nas inquerições realizadas no ano passado sobre os hábitos alimentares de algumas comunidades rurais, ao perguntar sobre os comeres consumidos no Carnaval, a resposta está dada no título desta crónica.

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A quadra festiva carnavalesca inspira e inspirou os povos desde a Antiguidade, a dita inspiração não podia esquecer a fonte de energias – a comida – daí as centenas de milhares de composições consoante cada País, região, cidade, vila, aldeia, lugarejo, sendo tais preparos culinários impregnados de ritos, rituais, manifestações religiosas e pagãs, singulares e de multidões, obscuras e às claras, ridentes e tenebrosas, sempre acompanhadas de muita comida, mais e mais bebidas de todos os géneros e expressões.

É absolutamente impossível registar uma ínfima parte das ditas representações numa crónica deste género, por essa razão limito-me a alertar o leitor para o interesse em pensarmos um pouco sobre o tema no intuito de melhor o compreendermos e entendermos.

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O Carnaval é o marco finalizador de um período temporal caracterizado pelo grande bródio, segue-se o tempo da morigeração, todos os povos têm o seu ponto alto de actos deste género, o grande poeta brasileiro Manuel Bandeira escreveu um magnífico poema onde manifestava o seu desejo em emigrar para a Pasárgada onde «há Carnaval todo o ano».

No respeitante a comeres de Entrudo em Portugal o porco é o grande sacrificado, em enchidos de vários géneros, orelheiras se possível fumadas, pés também preparados do mesmo modo, cachaço, vísceras, tudo, pois o benfazejo animal come-se da ponta do focinho à ponta do rabo, debaixo das várias cozeduras em uso.

Se a carne é a vitualha mais desejada, dando vazão ao dito – come-se tudo – assim é, ovos em variadas preparações salgadas e doces, cogumelos onde os há, doces e lambiscos de diferentes urdiduras, sendo de destacar os de cunho rural contendo alusões eróticas. É que no Carnaval pecava-se muito, como sabemos já não existem pecados, no entanto os doces continuam a agradar aos palatos, sendo extremamente benéficos para os idosos, dos pecados só já possuem a ideia, as doçuras suavizam a saudade o que é grandiosa obra de misericórdia.

Antes a expiação dos excessos cometidos no Entrudo começava na quarta-feira de cinzas, extirpada a pena, os novos pensam na continuidade da festança pelo ano fora, os carregadores de anos a fio, atacados pelas maleitas esquecem-nas no dia de Entrudo, porque no Carnaval nada faz mal, nada fica mal. Fazer mal faz, mas que se lixe, nada fica mal porque já nada fazem.

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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