“No coração da EN2”, por José Martinho Gaspar

A nossa região assumia-se, e assume-se, como espaço central desta via estruturante, sendo um pouco a sul de Vila de Rei, a seguir ao Vale do Grou, que encontramos o marco do quilómetro 369, exatamente o meio do caminho entre Chaves e Faro.

A Estrada Nacional 2, muitas vezes referenciada como EN 2, ou simplesmente N2, é uma via que integra a rede nacional de estradas de Portugal, ligando Faro a Chaves e que hoje assinala 75 anos. Em Portugal, a Estrada Nacional 2 é a que tem maior extensão, 738,5 kms (originalmente eram 739,260 kms), num trajeto que nos leva do norte ao sul do país, com passagem por 11 distritos: Vila Real, Viseu, Coimbra, Leiria, Castelo Branco, Santarém, Portalegre, Évora, Setúbal, Beja e Faro.

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Uma política harmoniosa de ordenamento do território tem, enquanto fator estrutural de referência, a organização da rede viária, em particular no que diz respeito às estradas nacionais. Até 1985, em Portugal, as grandes diretrizes da política rodoviária estavam assentes no plano rodoviário de 1945, oficializado pelo Decreto-lei n.º 34.593, que definiu, entre outras, a Nacional 2.

Assinado pelo então Ministro das Obras Públicas e Comunicações Augusto Cancela de Abreu, este plano, todavia, deve ser visto como herança do Ministro Duarte Pacheco, seu antecessor, um homem à frente do seu tempo que, ironicamente, faleceu em 1943, na sequência de um grave acidente de automóvel, quando circulava a alta velocidade na EN 4.

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Excerto do Plano Rodoviário de 1945

Um dos grandes projetos do Estado Novo era a criação de uma estrada que ligasse o país de lés-a-lés pelo interior, pelo que desde a década de 30 começaram a ser alcatroados troços de terra e pedra, construindo-se as ligações necessárias e, a pouco e pouco, até meados dos anos 40, definiu-se o traçado e classificou-se a via como Estrada Nacional 2.

De acordo com o novo plano rodoviário, as estradas nacionais de 1.ª classe, ou itinerários principais, eram identificados com números de 1 a 100 e se a Nacional 1 estabelecia a ligação Lisboa – Porto, a Nacional 2 ligava Chaves a Faro, com passagem por Vila Real, Lamego, Viseu, Santa Comba Dão, Góis, Sertã, Abrantes, Mora, Montemor-o-Novo, Torrão e Castro Verde.

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Além de outras características, o plano rodoviário definia os perfis transversais das estradas de diferentes categorias, que no caso das de 1.ª classe iam do tipo A, com largura de 21 a 25m e com separação das duas faixas de circulação, até às de categoria D, com 8m de largura, para terreno difícil.

Está bom de ver, chegados ao século XXI, como estas eram propostas ambiciosas e que, em alguns terrenos, mesmo sem especial dificuldade, tais dimensões continuam por atingir.

Perfis transversais da EN2, 1945

Ora, a nossa região assumia-se, e assume-se, como espaço central desta via estruturante, sendo um pouco a sul de Vila de Rei, a seguir ao Vale do Grou, que encontramos o marco do quilómetro 369, exatamente o meio do caminho entre Chaves e Faro. Já a localização de Abrantes dá-lhe o estatuto de cidade central da Estrada Nacional 2.

Na década de 40 do século XX, ainda se vivia um tempo em que homens e mulheres, chegados do concelho de Vila de Rei, exclamavam, embasbacados, ao avistar Abrantes com o seu castelo altaneiro, “Eia, que o mundo é tão grande!”.

Com Abrantes a assumir-se, à época, como ponto central, para aqui se dirigiam camionetas de carreira, provenientes de Vila de Rei, com passagem, pelo Milreu, S. Domingos, Andreus, Sardoal e Alferrarede, que traziam gente que seguia para Lisboa ou para tratar de assuntos comerciais, médicos, militares e outros na cidade, pela manhã, regressando às 16h10 pelo mesmo trajeto.

Mas, com a Nacional 2 oficializada, a empresa João Clara e C.ª suspendeu a carreira em causa. O mesmo aconteceu no caso da proveniente de Mação, mas se esta suspensão foi pontual, a 22 de julho de 1945, no Jornal de Abrantes, lamentava-se que na EN 2 a mesma perdurasse. O mesmo periódico, em agosto, dava indicação de que o Governador Civil do Distrito de Castelo Branco, quando esteve em Vila de Rei, intercedeu pelo conserto da estrada de Vila de Rei a Alferrarede, solicitando-se que também o Governador Civil de Santarém interviesse nesse sentido.

Nos anos que se seguiram à aprovação do novo plano rodoviário, a EN 2 continuava a evidenciar problemas de monta na região. Em novembro de 1947, o Jornal de Abrantes, apesar de elogiar a obra notável da Junta Autónoma de Estradas, qualificava a via entre Bemposta e Ponte de Sor como “francamente má”.

Dois anos depois, o mesmo periódico chamava a atenção da Junta Autónoma de Estrada, ao mesmo tempo que dava eco de como o seu colega A Comarca da Sertã se referia à via nos concelhos a norte do de Abrantes: “A estrada já classificada N.º 2, a que nos une a Alferrarede, no troço compreendido entre esta Vila e a Ponte de Codes, encontra-se no mais lastimável estado”.

E a Nacional 2 foi-se definindo, face ao seu traçado inicial, adaptando-se às transformações, em particular à construção de algumas infraestruturas. Em 1954, entre Pedrógão Grande e Pedrógão Pequeno, o troço deixou de descer o vale profundo do Zêzere, para passar a atravessar o paredão da Barragem do Cabril; a construção da Barragem da Aguieira, em 1981, fez alterar a trajetória da antiga via, submergindo a Ponte Salazar, que ligava o concelho de Santa Comba Dão ao de Penacova; próximo de nós, nos anos 90, a construção da variante à EN 2, entre Vila de Rei e Alferrarede, fez com que o troço do Sardoal para Alferrarede sofresse um ligeiro desvio pela zona industrial sardoalense.

Ponte Salazar/DR

Em tempos fiz, para a revista Zahara, um trabalho sobre a edificação da capela da Matagosa, inaugurada em 1951, e deparei-me com um texto em que um dos elementos da família Prior augurava um futuro particularmente risonho para o norte do concelho de Abrantes, porque ali acabava de chegar o grande lago que é a albufeira de Castelo do Bode e por ser um território cruzado pela EN 2. É verdade que as potencialidades de uma e de outra estão lá há cerca de sete décadas, mas só agora começamos verdadeiramente a descobri-las.

A Nacional 2 é uma das estradas mais extensas do mundo, a exemplo das famosas Route 66, nos Estados Unidos, e Ruta 40, na Argentina. Em 2016, foi criada a Associação de Municípios da Rota da Estrada Nacional 2, que engloba os mais de 30 municípios que eram atravessados pela EN 2 no seu traçado original e que tem como objetivo dinamizar o turismo ao longo do itinerário.

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