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Terça-feira, Janeiro 18, 2022
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“Nem Santo António nem o diabo”, por Berta Silva Lopes

Aconteceu aqui há dias, por altura da Páscoa, uma desventura dum raio nesta casa. Ganhou sumiço para parte incerta, sem que ninguém da família saiba como nem quando, o tablet das miúdas. Poupo-vos aos detalhes fastidiosos daqueles dias, passados quase exclusivamente entre a cozinha e a sala, a cozinhar, a fazer bolos e doces, a petiscar e a engordar ou entretidos com séries e filmes, para vos dar conta das buscas épicas, em todas as divisões, arrumação incluída, nos dias seguintes.

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Mal demos pela falta dele, já depois de deitarmos as miúdas, arredámos todas os móveis da sala, desmontámos o sofá (duas vezes só naquela madrugada – e já mais três depois disso), abrimos todas as gavetas e os armários, vasculhámos todos os cantos e rodapés. Nada.

Seguiu-se a cozinha e a despensa. Vistoria feita, inclusive dentro dos eletrodomésticos – sabe-se lá o que este isolamento pode fazer à nossa sanidade mental –, no congelador, debaixo do aspirador, nos sacos para a reciclagem, no lixo orgânico, no meio dos detergentes, atrás dos livros de receitas, e nada, mais uma vez. Ali também não.

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Percorremos depois todas as restantes divisões. Desfizemos as camas, levantámos tapetes, voltámos a organizar as estantes dos livros, os jogos e DVD’s das miúdas, os nossos CD’s, toda a nossa roupa e sapatos. 

Foi depois desta saga, aparentemente inútil, que me lembrei de Santo António. Não é a primeira vez que lhe peço uma pausa nos seus arranjos matrimoniais para dar atenção às minhas preces. Saibam os descrentes e os desconfiados que fui sempre atendida, e nem a oração sei encarreirar direito. 

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Também não sei como é que o santo dá com os objetos perdidos, suponho que sejam créditos acumulados junto do todo-poderoso, e a verdade é que todas as (minhas) dúvidas terrenas costumam dissipar-se perante a alegria de recuperar aquilo que se julgava perdido. Ora, desta vez, por enquanto, Santo António ainda não se dispôs a ajudar-me. 

E agora, pensando bem, acho que até sei porquê. Coisas do diabo é o que é.

Será possível termos sido roubados durante a pandemia, estando em casa a toda a hora, tirando os breves minutos em que vamos à rua levar o lixo ou apanhar sol?  Mas como, se trancamos sempre a porta, se não há sinais de arrombamento e se moramos num andar relativamente alto? Uns dias mais tarde e algumas insónias depois, dizem-nos da aldeia que há outro dito, infalível, e que o experimente eu. 

Mais uma vez, deixo-me fascinar pelo seu pragmatismo, pela forma como aprenderam a relativizar as fintas da vida e sobretudo a não perder tempo que o que não podem mudar. Se o ribeiro leva pouca água é porque o inverno foi seco e se este ano há muitos gatos é porque as gatas os pariram. Ponto. Tão simples como isto, e tão irrefutável. 

Bom, a verdade é que a outra ladainha também não resultou. Metia cornos e o diabo e, muito sinceramente, depressa me cansei das ameaças ao mafarrico. Além disso, há que confessá-lo, sentia uma pontinha de culpa pela desfeita ao Santo António. E o diabo, não sendo burro, não me devolve o tablet. Lá está, quem reza a Deus não pede ao Diabo.

Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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