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Sábado, Novembro 27, 2021

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“Nellie Bly, jornalista e aventureira”, por Carla Baptista

Perto da vista, perto do coração – jornalismo por dentro
Os textos desta secção têm um propósito: contar histórias sobre jornalismo. Os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.

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Qual é a motivação para ser jornalista? Pode ser uma raiva súbita quando lemos um texto que nos indigna. Aconteceu a Elizabeth Cochran, nascida em 1864 na Pennsylvania. A família tinha uma propriedade rural com um moinho que garantia o sustento. A alcunha da pequena Elizabeth era “pink” e ela brincava com um macaquinho amestrado. Aos 6 anos, o pai morreu e a vida mudou.

A mãe não conseguiu pagar os encargos da propriedade e mudou-se com os 5 filhos. Voltou a casar com um homem abusador, de quem se divorciou após vários episódios de violência. Elizabeth queria ser professora primária, mas as dificuldades financeiras forçaram-na a abandonar a escola para ajudar a mãe a gerir uma pensão familiar.

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Aos 18 anos, numa pausa do pesado trabalho doméstico, pegou no jornal mais influente do estado, o Pittsburgh Dispatch, para ler as notícias do dia e as histórias de crime e tribunal que o tornaram popular após um imigrante irlandês, Daniel O’ Neill, se ter tornado o seu marcante diretor, a partir de 1851. Os olhos caíram no título da coluna numa das páginas interiores: “Para que servem as raparigas?”.

O autor, Erasmus Wilson, escrevia crónicas provocadoras sob o pseudónimo Q.O. (Quiet Observer) e, nesse texto, respondia a um “pai ansioso” com o futuro de 5 filhas solteiras. Wilson culpou o pai por não ter cuidado da educação doméstica das filhas, advertindo: a América ainda se arrisca a adotar a política chinesa de matar bebés do sexo feminino à nascença, pois nenhum país pode suportar o peso de tantas mulheres inúteis.

Elizabeth Cochran, mais conhecida por Nellie Bly, uma das mais famosas repórteres pioneiras nos Estados Unidos, sentiu o sangue ferver e escreveu uma carta com sentimento intitulada: “de uma órfã solitária”. Poucos dias depois, leu no Pittsburgh Dispatch que Wilson e o editor George Madden queriam conhecer a “órfã” e a convidavam a visitar o jornal. Ela foi e, segundo a biógrafa Kate Braithwaite, encontrou dois homens curiosos e afáveis que a convidaram a responder formalmente numa coluna. Madden escreveu mais tarde que Bly (um nome de guerra que ele próprio escolheu) não tinha estilo e sabia pouco de pontuação, mas ia direita ao assunto com uma precisão invejável.

Nellie Bly, em 1890. Créditos: DR

Esse primeiro encontro marcou os três de forma diferente. Wilson lembra-se de uma rapariga tímida com dentes bonitos. Bly reparou que havia baratas a passear na secretária dele. Madden acertou apenas parcialmente no juízo das capacidades literárias de Bly, pois não há nada de errado com a pontuação da primeira crónica intitulada “O puzzle das raparigas”. A interpelação, realmente, é contundente: “O que é que havemos de fazer com as nossas raparigas? Não as bonitas e as herdeiras, mas as que não têm talento, nem beleza, nem dinheiro. O que é que vamos fazer com elas?” Foi o seu primeiro trabalho como jornalista, mas acabou por se fartar de escrever sobre o “gueto cor de rosa”, ou seja, assuntos de mulheres, e decidiu ir para Nova Iorque tentar a sorte.

Bly fez a segunda entrada no escritório de um diretor de jornal em 1887, no World, de Joseph Pulitzer, que este comprara em 1883, depois de ter iniciado a carreira jornalística no Saint Louis Post-Dispatch. O jornal tinha uma circulação de 11 mil exemplares e uma inclinação democrata e religiosa. Pulitzer revolucionou-o com a mistura explosiva dos jornais de um cêntimo (penny press) que tanto irritava os jornais de 6 cêntimos, ao ponto do historiador dos media Michael Shudson ter chamado a essa disputa “a guerra moral”: um jornalismo popular, centrado em causas e cruzadas, escrito de forma apelativa e sem medo de provocar “muito barulho por nada”.

Passados 3 anos, o World vendia 250 mil exemplares e foi para lá que Bly se dirigiu, dizendo que era capaz de fazer reportagens sobre pessoas comuns que interessavam tanto a mulheres como a homens. O editor-chefe era Colonel John Cockeril, amigo pessoal de Pulitzer, e que viera com ele do Saint-Louis Post-Dispatch. Segundo a historiadora brasileira Natália Queiroz, foi a sexta tentativa para arranjar emprego. Antes, já fizera propostas semelhantes a Charles Dana, publisher do Sun; George Hepworth, do Herald; Foster Coates, do Mail and Express; Robert G. Morris, do Telegram e Charles Ransom Miller, do Times.

Cockeril não aprovou a ideia – viajar para a Europa e voltar na terceira classe de um navio cheio de imigrantes em busca do sonho americano – mas compreendeu a urgência na voz de uma rapariga de 23 anos, sozinha em Nova Iorque e a quem tinham roubado a carteira com o último dinheiro. Emprestou-lhe 25 dólares e disse-lhe para voltar daí a uns dias, depois de discutir o caso com Pulitzer.

Os dois lançaram a Bly o típico desafio que constituía o ritual de iniciação de intrépidos jornalistas: devia assumir uma identidade falsa, entrar num lugar proibido e voltar com uma história transformadora. Destino: a ala feminina do “hospício para lunáticos” instalado na ilha de Blackwell (atual ilha Roosevelt), em frente a Nova Iorque. Como entrar: não tinham qualquer ideia. Como sair, caso conseguisse ser internada: primeiro entrasse, depois logo se via.

Nellie Bly alugou um quarto numa pensão para mulheres e começou a treinar olhar fixos e atemorizadores, suficientemente convincentes para que a polícia fosse chamada e ela acabasse sendo internada em Blackwell, o hospital psiquiátrico destinado aos pobres da cidade, onde durante 10 dias recebeu o tratamento em voga: frio, fome, ameaças físicas e banhos gelados em banheiras comuns.

As duas reportagens foram publicadas na primeira página em 9 e 16 de outubro de 1887 e provocaram o desejável estrondo: as tiragens aumentaram, o governo investigou, a vida dos doentes melhorou, Pulitzer ficou satisfeito e ofereceu-lhe um contrato permanente. Bly ficou 3 anos no jornal, testando cada vez mais limites no “jornalismo de disfarce”: entrou em fábricas para denunciar condições de trabalho escravas para mulheres, tentou comprar um bebé para acusar uma rede de tráfico de crianças, fingiu-se doente para expor um médico charlatão que dizia curar sem medicamentos, deixou-se hipnotizar para contar a experiência aos leitores.

Em 1888, numa noite de insónias em que se revirava na cama sem conseguir dormir, desejou estar do outro lado da Terra e no dia seguinte fez a Pulitzer a proposta que a tornou uma celebridade global: queria dar a volta ao mundo em menos de 80 dias, para ganhar ao herói Phileas Fogg, do romance de Jules Verne. Segundo outra das suas biógrafas, Brooke Kroeger, o recorde foi batido em 72 dias, 6 horas, 11 minutos e 14 segundos. Bly fez uma entrada triunfal em Nova Iorque em 25 de janeiro de 1889, a bordo de um comboio especial que Pulitzer fretou para a trazer de São Francisco, onde tinha chegado de barco, depois de uma circum-navegação aventurosa, que incluiu uma visita ao próprio Jules Verne em França.

Os académicos atuais debatem se o jornalismo praticado nestas condições pode considerar-se investigativo. A resposta mais provável é não, porque lhe falta contexto e suporte factual, e abunda um tom autocentrado onde a maior glória era a máxima simples: ver para crer. Viver para contar.

Nellie Bly fotografada pelo jornal New York World, para promover a sua volta ao mundo em menos de 80 dias. Créditos: DR

No “Museu das Notícias” (Newseum) de Washington é possível recriar em realidade virtual a viagem de Bly, refazendo os seus passos no Egipto, no Sri Lanka, em Hong Kong (onde descobriu que outra jornalista, Elizabeth Bisland, da revista Cosmopolitan, do grupo rival de William Hearst, estava atrás dela), em Singapura, onde comprou um macaquinho amestrado, lembrando-se da infância feliz antes da morte do pai e pensando na resposta que daria aos senhores da revista O Jornalista, fundada em 1884 por Allan Forman, a publicação que estabelecia o cânone do métier, que sobre ela escreveu: “uma rapariga enviada pelo mundo sem qualquer propósito prático consegue fazer mais pelo seu jornal do que uma dúzia de homens que perseguem os factos” (citado por Kroeger, 1994).

Aos visitantes do Newseum é perguntado, num jogo que estimula a consciência ética: o que faria, se estivesse nesta posição? Teria simulado a loucura? Seria capaz de mentir para expor os maus tratos, a injustiça, a desigualdade e o sofrimento humanos? A resposta reflete a pessoa que somos e a época em que vivemos.

Em 1914, um filósofo espanhol progressista, filho da herdeira do jornal El Imparcial, Dolores Gasset, escreveu no seu primeiro livro (Memórias do Quixote) uma das frases mais memoráveis da história: “eu sou eu e a minha circunstância”, e o resultado dessa relação é a vida na sua crueza.

Se a fotografia de Nellie Bly com a sua pequena e elegante mala de cabedal onde ela transportou tudo o que precisava para a longa viagem (inaugurando também a moda travel light) não chegar para nos dizer que a sua vida foi a superação da sua circunstância, podemos recorrer a uma frase da primeira reportagem “stunt” (experiência imersiva sob disfarce) escrita por uma mulher, “Dez dias numa casa de doidos”: “um cérebro em boas condições precisa de um estômago bem tratado.”

Docente no Departamento de Ciências da Comunicação da NOVA FCSH, investigadora do ICNOVA na área da história dos media e jornalista freelancer, escreve todos os meses no mediotejo.net sobre jornalismo. Porque os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.

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