Negócios que Reabrem | Livrarias viram a página, mas desfecho da crise ainda é incerto

O alfarrabista D'Outro Tempo, no centro histórico de Torres Novas, reabriu esta segunda-feira, 5 de maio. Foto: DR

Portugal iniciou esta segunda-feira o primeiro “dia útil” da situação de calamidade devido à pandemia de covid-19 com a reabertura condicionada de parte do comércio e serviços públicos, e o uso obrigatório de máscaras. Reabriram serviços públicos com atendimento por marcação prévia, lojas com porta aberta para a rua até 200 m2, livrarias e comércio automóvel. Também os cabeleireiros, por marcação prévia, bibliotecas e arquivos, jardins zoológicos, oceanários e fluviários. É igualmente retomada a prática de desportos individuais ao ar livre, sem utilização de balneários nem piscinas, e a pesca lúdica.

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Nas últimas semanas os amantes da literatura apenas podiam namorar os livros à distância, através dos ecrãs de computador ou dos vidros das montras das livrarias fechadas. Nesta segunda-feira, 4 de maio, os espaços com menos de 200 metros quadrados e porta direta para a rua já tiveram autorização para abrir e muitos puderam, finalmente, matar as saudades do cheiro a papel.

No caso de livrarias como o alfarrabista D’Outro Tempo, no centro histórico de Torres Novas, as pessoas sentiam também saudades do processo de descoberta de obras ímpares, deambulando entre prateleiras, trocando dois dedos de (boa) conversa com o livreiro. Adelino Correia-Pires confirma que todos os clientes que recebeu neste primeiro dia de “desconfinamento” eram já “da casa”, compradores fiéis de sempre.

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O dia decorreu sem sobressaltos e, não fosse o uso máscara, viseira e luvas, e de ter de convidar todos os que iam entrando a usar álcool gel nas mãos, teria sido um dia “normal”. O alfarrabista tem uma porta automática de vidro e, geralmente, já só gosta de ter 2 ou 3 pessoas na sua imensa loja, para poder prestar o atendimento personalizado que o caracteriza. Agora, com as regras impostas pela Direção-Geral de Saúde, tem apenas um cliente de cada vez – no máximo, dois.

“Foi um dia de luz e sombra… Pela alegria do reencontro das pessoas e dos lugares, mas também pela tristeza das ausências”, começa por explicar, notando que o barbeiro e o salão de cabeleireiras da rua reabriram, mas que outros pequenos negócios, como os cafés, permanecem fechados – e outros fecharam de vez.

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Foi um dia marcado pelos “olás” felizes de quem passava e via uma porta aberta, de quem espreitava e atirava um “como vão as coisas?”. Não foi, por isso, propriamente um regresso, “mas um reencontro” de amigos, comerciantes e clientes, pautado pela “nostalgia do bulício, que se julgava pouco e que afinal era tanto”, naquele centro histórico que agora sim, nestas últimas semanas, ficou sem vivalma.

O alfarrabista Adelino Correia-Pires, numa fotografia de arquivo na sua livraria “D’Outro Tempo”, em Torres Novas. Foto: mediotejo.net

Apesar da porta fechada, a D’Outro Tempo manteve-se em funcionamento através da sua loja online, criada há 12 anos e muito apreciada por colecionadores de todo o país. Adelino Correia-Pires notou um aumento nessas vendas, até “porque as pessoas passaram a ter mais tempo livre para ler e para pesquisar”, e acaba por ser muito conveniente receber os livros em casa, pelo correio.

A D’Outro Tempo juntou-se também à Associação RELI – Rede de Livrarias Independentes, nascida no contexto da epidemia de covid-19, para “enfrentar a crise no mercado livreiro, que vem comprometendo, já há vários anos, a existência de pequenas livrarias” e incentivar a compra online. Uma das iniciativas criada foi a “Livraria às cegas”, desafiando o público a escolher um livreiro para que lhe escolhesse livros “de olhos fechados” e, mediante um pagamento igual ou superior a 15 euros, receber um pacote-surpresa em casa.

Ainda não há final à vista para a crise neste setor, que já era ferida profunda antes desta crise de saúde mundial, mas começa a desenhar-se um novo amanhã no horizonte. “Sinto que as pessoas estão esperançosas, e com vontade de tirar lições positivas de tudo isto”, diz Adelino Correia-Pires, um homem reservado mas que se sente realizado sobretudo a receber pessoas na sua “casa” e a unir livros resgatados ao esquecimento a novos leitores.

“Pode não parecer, mas sou mais de sol que de nuvens…”, confessa, num sorriso, como se precisasse de justificar a felicidade que sentiu por abrir a porta novamente, ainda que lá fora não se tenham dissipado totalmente as trevas, e não seja já, como todos queremos, “Outro Tempo”.

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