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Sexta-feira, Dezembro 3, 2021
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Negócios que Reabrem | Cabeleireiros obrigados a cortes radicais no número de clientes e despesas extra com desinfeções

Portugal iniciou esta segunda-feira o primeiro “dia útil” da situação de calamidade devido à pandemia de covid-19 com a reabertura condicionada de parte do comércio e serviços públicos, e o uso obrigatório de máscaras. Reabrem serviços públicos com atendimento por marcação prévia, lojas com porta aberta para a rua até 200 m2, livrarias e comércio automóvel. Também reabrem cabeleireiros, por marcação prévia, bibliotecas e arquivos, jardins zoológicos, oceanários e fluviários. É igualmente retomada a prática de desportos individuais ao ar livre, sem utilização de balneários nem piscinas, e a pesca lúdica.

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Estima-se que em Portugal existam 38 mil espaços comerciais de cabeleireiro e estética envolvendo 50 mil profissionais. Esta segunda-feira regressaram ao trabalho, depois de um período de encerramento forçado, que iniciou no dia 16 de março, devido à pandemia de covid-19.

O salão ‘Cristina & Rebeca’ em Tramagal, Abrantes, voltou a receber clientes esta terça-feira, 5 de maio (a segunda-feira é o dia de encerramento do espaço), mas Cristina Matos, cabeleireira de senhoras que partilha o espaço com o barbeiro Zeca e com a esteticista Ana, acredita que os próximos tempos serão muito difíceis, quer pelas medidas e restrições de segurança que obrigam a uma constante desinfeção, quer pelo medo de contrair a doença. Contudo, “ficar em casa não era opção”, diz.

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As regras a cumprir são mais que muitas e nem todas estão claramente definidas pela Direção Geral da Saúde, como por exemplo as depilações a buço ou o corte da barba dos homens, serviço para o qual é necessário que o cliente retire a máscara.

“Não há uma proibição”, assegura, mas a questão prende-se com o uso obrigatório de máscara e “como a boca e o nariz são zonas de contágio… não sabemos! As regras estão por definir”, diz, apesar da cera, das espátulas e demais materiais serem descartáveis, e os profissionais usarem viseira e máscara.

Atestam que até novas orientações prevalecerá o bom senso. Isto porque os profissionais, e no caso deste salão em Tramagal falamos de três – cabeleireira, esteticista e barbeiro –, conhecem as medidas de segurança. Estas passam pela marcação prévia, uso da já familiar máscara e da cada vez mais familiar viseira, um único cliente no espaço por profissional presente, o distanciamento das cadeiras para o corte de cabelo masculino e feminino, das mesas de manicura e de outros equipamentos de trabalho e ainda a desinfeção obrigatória de todos os utensílios entre cada cliente “incluindo a viseira de cada profissional”, bem como do espaço, explica Cristina Matos ao mediotejo.net.

A esteticista Ana, no salão de cabeleireiro e estética ‘Cristina & Rebeca’, em Tramagal. Créditos: mediotejo.net

A partir de hoje os clientes têm de entrar de máscara, calçar uns pézinhos à entrada, não podem usar telemóvel. Além disso, à entrada o cliente coloca os pertences num saco descartável, que é pendurado no bengaleiro. “Não pode também usar bijutaria (colares, pulseiras, brincos, anéis) e nós temos de trabalhar de máscara e viseira, colocar manguitos ou trabalhar de manga comprida, um par de luvas por cada cliente, avental descartável e o calçado que usamos dentro do salão não pode ser usado na rua”, enumera Cristina Matos.

Além disso, o estabelecimento irá funcionar pelo menos até “final de junho” com horários reduzidos, com abertura (em dias úteis) às 15h00 e fecho às 20h00, abrindo ao sábado pelas 10h00 para encerrar às 18h00. Cristina tem dois filhos, um com 13 e outro com 9 anos e, com ensino à distância, necessita das manhãs para acompanhar o filho mais novo nos estudos.

A cabeleireira sabe que “não vai ser fácil”. Devido ao tempo da prestação de cada serviço e o cumprimento rigoroso das medidas de segurança no contexto da pandemia, no primeiro dia de reabertura do seu salão decidiu receber apenas três clientes. Duas para pintura e uma para corte de cabelo, atendendo uma às 15h00, outra às 17h00 e outra às 19h00. “Trabalho cinco horas mas como tenho de fazer desinfeções e não posso ter clientes em espera – porque dantes enquanto uma senhora estava com a tinta eu poderia fazer um corte de cabelo a outra, agora não compensa porque tenho de tirar as luvas, o avental, os manguitos e desinfetar tudo” –, optou por receber menos clientes por dia.

Esta gradual abertura não resolve, no entanto, os problemas financeiros. Cristina Matos desconhece neste momento a rentabilidade do modelo. “Não sei. Mas ficar em casa e não trabalhar também não era solução porque o espaço é arrendado e não ganho para estar em casa – o que o Estado paga para apoiar os meus filhos não chega”, desabafa.

Depois de um mês e meio de encerramento forçado, Cristina Matos abriu hoje o seu salão novamente ao público. Créditos: mediotejo.net

O regresso à atividade apresenta-se, também, como um teste. “Vamos ver como reagem ao acréscimo de 2 euros por cliente”, um valor que Cristina definiu no sentido de poder suportar “os custos acrescidos” com os produtos de desinfeção e com os equipamentos de proteção individual. “Além de atender menos pessoas existe esta questão de comprar tudo o que é descartável e dos desinfetantes”.

Para terem acesso a estes produtos os três profissionais do salão ‘Cristina & Rebeca’ encomendaram logo tudo quando encerraram, a 16 de março. “Por exemplo os aventais descartáveis e os pézinhos, veio metade da encomenda na semana passada e ainda falta o resto… Quanto aos desinfetantes, conseguimos e garantimos que no regresso ao trabalho a encomenda estava cá, já máscaras cirúrgicas não conseguimos, usamos o stock que já tínhamos comprado antes. Há produtos de difícil acesso… além de estarem caríssimos. Um garrafão de desinfetante para higienizar materiais e cadeiras custa no mínimo 50 euros, mais o desinfetante de mãos, que no nosso salão são 5 embalagens”, espalhadas pelos espaço, vinca.

Incertezas e acréscimos de despesas à parte, o maior receio de Cristina prende-se com a doença covid-19. “Tenho um filho doente cardíaco, operado à válvula aórtica há dois anos, com prótese mecânica, e o outro tem bronquite asmática. Qualquer um está no grupo de risco. Para mim o mais importante é não levar o vírus para casa”, confessa.

No final das contas, Cristina Matos, cabeleireira há 30 anos, sabe que do seu trabalho resultará provavelmente o suficiente para pagar as contas do salão: a renda, a água e a luz. “Até conseguirmos repor isto tudo… além do que ficou para trás, porque enquanto o salão esteve fechado continuei a pagar as contas. Sei que com três clientes por dia garantidamente não terei o rendimento que tinha”.

Manter o espaço encerrado não foi opção, também para manter os clientes. “Preciso de garantir que, quando a pandemia passar, ou aligeirar, ou até chegar a vacina, poderemos trabalhar normalmente e ter clientes.”

Zeca e Cristina, no salão de cabeleireiro e estética ‘Cristina & Rebeca’, em Tramagal. Créditos: mediotejo.net

Cristina Matos admite ter vivido na sua atividade profissional “algumas crises”, mas “nada idêntico”. Durante o período de confinamento preocupava-a o futuro. “Como seria a seguir? Como iria voltar ao trabalho…? Dizem que o contágio é tão fácil de acontecer que tive dúvidas se conseguiríamos”, afirma, lembrando que a sua profissão obriga a um trabalho direto e de proximidade. “Não estou atrás de um balcão, tenho de tocar no cliente.”

Conta que habitualmente encerrava uma semana por ano, para férias, e agora teve de fechar um mês e meio, obrigatoriamente. “Nem todos fornecedores deram mais tempo para pagar os compromisso assumidos… Foram dias difíceis!”

Quanto ao futuro, Cristina Matos espera por melhores tempos, num cenário de normalidade –incluindo em contexto laboral –, mas tem consciência de que está bem longe o regresso à vida tal como a conhecíamos anteriormente. “Sei que a minha vida até final de junho vai ser assim, como está agora. Depois logo se vê.”

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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