Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Segunda-feira, Setembro 20, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Não sabemos o que vai acontecer às mulheres jornalistas afegãs? Só se não quisermos saber

Perto da vista, perto do coração – jornalismo por dentro
Os textos desta secção têm um propósito: contar histórias sobre jornalismo. Os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.

- Publicidade -

Esta crónica começa com um erro. Não se devem dar as respostas nos títulos, mas estamos com pressa. Não é uma crónica-poema ou uma crónica-conto, onde os factos são apenas um pretexto para reflexões mais autorais (a ideia é do professor brasileiro José Marques de Melo). Pelo contrário, começamos com factos, aliás históricos: No dia 17 de Agosto de 2021, Beheshta Arghand, jornalista afegã de 23 anos trabalhando para a estação privada de televisão Tolo, a maior do país, fez história ao entrevistar Abdulhaq Hemad, um comandante Talibã. As imagens dos dois, bem distanciados socialmente, um de cada lado da ampla mesa do estúdio, correram mundo.

A jornalista Beheshta Arghand ficará para História como a primeira mulher a entrevistar um responsável Talibã na televisão nacional.

- Publicidade -

Naquele jeitinho afegão, em que uma complexa argumentação se enovela em sussurros inaudíveis para a maioria das traduções, ela fez-lhe perguntas consideradas difíceis. “Porque é que estão a fazer buscas nas casas das pessoas?” e “O que é que vai acontecer às mulheres?”. Fazendo pleno uso das sete vogais e das duas semiconsoantes da língua pastó (que tem vocabulário comum com o persa e se escreve com o alfabeto árabe), Abdulhaq Hemad teve o seu momento Óscar clip para os media ocidentais: respondeu que as mulheres são essenciais na sociedade e serão respeitadas. Pausa entre vogais: dentro dos limites do Islão.

Beheshta Arghand engoliu em seco, e fez uma afirmação, não uma pergunta: “As mulheres afegãs querem estudar e trabalhar. Temos esse direito.” Ela também estava com pressa. Sentiu as sinapses cerebrais a reconectarem e a pulsação cardíaca a normalizar.

Poucos minutos antes, Abdulhaq Hemad tinha entrado na televisão, rodeado de homens armados, e exigiu ser entrevistado. Quem é que estava a apresentar notícias nesse momento? Beheshta Arghand, licenciada pela Universidade de Cabul, jornalistas da estação há apenas um mês e 20 dias. Quais foram as suas primeiras preocupações? Apertar mais o lenço – não o hijab, que entretanto já se tornou obrigatório – para que não deixasse escapar nenhum fio de cabelo, e assegurar-se que, para além do rosto, não tinha nenhum centímetro de pele visível. Depois escapou-se para casa e ligou a uma pessoa que tinha entrevistado 2 dias antes no mesmo estúdio: Yousafzai Malala, a activista paquistanesa baleada na cabeça pelos talibãs em 2012, quando tinha 15 anos. Graças à sua intervenção, embarcou com a família num avião do Qatar, rumo à capital, Doha.

Entre a sua entrada na história dos media, e a sua saída do Afeganistão, decorreram horas frenéticas em que Beheshta Arghand fez o mesmo que milhares de concidadãos: telefonaram desesperadamente a todos os contactos, amigos alguns, conhecidos outros, amigos de conhecidos, grupos de voluntários nas redes sociais, organizações internacionais que tentavam colocar o seu pessoal a salvo, pedindo ajuda, que neste caso significava conseguir colocar o seu nome e o da família na lista para um voo de evacuação. Nenhum deles acreditou nas promessas dos talibãs.

A relação dos talibãs com os media é, digamos, problemática. São ávidos produtores e consumidores de notícias, sobretudo na internet, e estabelecem com a informação relações de grande proximidade. Quando não gostam das notícias, identificam o jornalista e toda a sua família e, magnânimos, concedem uma oportunidade de reconfigurar a narrativa. Mas se o desentendimento epistemológico se mantém – por exemplo, relatar que os frequentes ataques suicidas matam civis quando os talibãs pretendem que os alvos são apenas os inimigos estrangeiros – os jornalistas tornam-se alvos a abater e o seu assassinato é celebrado nas redes sociais como um castigo justo pelo crime de difundirem notícias anti-Talibã.

Em Abril, quando decorriam as conversações de paz promovidas pelos norte-americanos entre o governo afegão e os talibãs, a organização Human Right Watch denunciou dezenas de ataques e intimidações, muitos deles fatais. Uma das vítimas foi a jornalista Mina Khairi, 23 anos, que tinha um programa popular sobre política internacional na estação privada Ariana News TV. Ela, a mãe e a irmã morreram quando uma bomba fez explodir a carrinha onde seguiam em Cabul. O ataque nunca foi reivindicados mas vários jornalistas da estação denunciaram ameaças quase diárias.

A morte de jornalistas influentes é uma das técnicas usadas para silenciar os restantes. Resultou. Segundo um relatório da ONG Repórteres Sem Fronteiras, o número de jornalistas mulheres ativas em Cabul passou de 700, antes da tomada da cidade, em 15 de Agosto, para menos de 100.

Outra táctica é a entrada em bando nos estúdios de televisão, com vários homens armados a rodearem o jornalista de serviço enquanto este informa os telespectadores. A imagem de Mirwais Haidari Haqdoost rodeado por soldados talibãs com as armas apontadas para o chão enquanto este entrevistava o comandante Qari Samiullah na televisão pública afegã é profundamente perturbadora pela dissonância cognitiva que inscreve.

O jornalista Mirwais Haidari Haqdoost lê o noticiário rodeado por soldados talibãs.

Ouvimos a voz de Qari Samiullah apelando aos afegãos para não saírem do país: não há nada a recear, voltem ao trabalho e às vossas vidas, estamos aqui para vos proteger. O jornalista lança uma tímida observação: parece haver alguma discordância entre as palavras e as ações, atreve-se ele a sugerir. Nessa altura, o círculo de AK-47s, as armas mais usadas pelos combatentes, começa a estreitar-se à sua volta, gerando um extraordinário efeito persuasivo pró-Talibã. Um outro grupo entrou na agência de notícias estatal Bakhtar disposto a ter uma conversa amigável sobre as mudanças a introduzir no website e nos conteúdos.

Na primeira entrevista “sentada” dada a um meio de comunicação social ocidental, o New York Times, o comandante Zabihullah Mujahid reiterou a filosofia Talibã em relação aos media: podem ser livres e independentes. Nova pausa para deixar respirar algumas das 7 consoantes da língua pasto. Com algumas restrições.

A pergunta que todos se colocam partilha a natureza agónica que atravessa hoje a informação globalizada: o que é ser livre e independente? As restrições à liberdade de imprensa ou as violações dos direitos humanos e em particular dos direitos das mulheres extravasam o regime Talibã e estão profundamente enraizados na sociedade afegã, exaurida por décadas de guerra, corrupção e pobreza. Será que os media instilados pelos norte-americanos após a invasão de 2001, como a Voz da America, a Rádio Europa Livre e a Rádio Liberdade eram independentes? Será que a televisão pública afegã, instrumentalizada por governo corruptos, era livre?

O Afeganistão é hoje um país profundamente mediatizado, com uma imprensa diversa e sofisticada, 5 agências noticiosas, dezenas de estações de televisão privadas, centenas de rádios e uma população jovem de internautas (22% da população tem acesso à internet). A explosão mediática foi na sua maioria suportada com fundos internacionais após a invasão dos EUA, que através da agência federal Global Media injectou milhões no financiamento de meios de comunicação pró-democracia. A avaliação dessa política está por fazer mas não parece promissora.

Provavelmente, o Afeganistão voltará a ser um país literalmente silencioso – sem música, já proibida em espaços públicos – agora que já foram fixadas pelos media ocidentais as imagem-ícone que nos darão uma falsa ilusão de compreensão da história: afegãos tentando apanhar um avião em descolagem, um pai abraçando o filho bebé à chuva na pista do aeroporto, o último soldado (aliás, major) norte-americano a abandonar o país, o rosto rígido do presidente Joe Biden declamando uma pantomina escrita por dez conselheiros de imagem: Não esqueceremos. Não perdoaremos.

Nada disto nos ajuda a compreender o Afeganistão nem as vidas dos mais de 40 milhões de afegãos, 48% dos quais mulheres. Será que vão continuar a escrever a poesia lírica, profana e terrena, improvisada e cantada, os landay? Dois versos livres que nos dilaceram com a sua denúncia da falta de liberdade para escolher quem se ama: “Meu amor, para lá das montanhas, contempla a lua/ E verás que te espero, de pé, sobre o telhado”.

*A autora não segue as regras do novo acordo ortográfico.

Docente no Departamento de Ciências da Comunicação da NOVA FCSH, investigadora do ICNOVA na área da história dos media e jornalista freelancer, escreve todos os meses no mediotejo.net sobre jornalismo. Porque os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome