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Sexta-feira, Julho 23, 2021

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Relato de um tomarense em Paris

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“Não podemos aceitar que o medo entre nas nossas vidas”

Joel Anjos ingressou, em setembro de 2014, no curso de cinema da Université Paris-Est Marne-la-Vallée, em França. Uma aposta na formação – com a qual pretende ser projetado para o mundo do cinema – que resulta de uma paixão de há muitos anos. O jovem nasceu na Suíça, país onde viveu até aos sete anos, altura em que se mudou para Tomar, e de onde só sairia para a cidade-luz.

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O mediotejo.net quis saber como é que o jovem, de 21 anos, viveu os atentados de sexta-feira, 13 de novembro, dado que mora no centro da cidade-luz. Para tranquilizar familiares e amigos, marcou-se como “seguro” na sua rede social cerca da 1h20 da madrugada. Questionado sobre onde estava e como viveu essa noite, Joel prefere contar o “filme” que viveu nos dias seguintes ao sangue derramado por 129 pessoas.

“O 13 de novembro será recordado. Uma sexta-feira como tantas outras, com saídas e concertos, com jogos de futebol. Mas com demasiadas idas sem regresso”, relata por e-mail. O “filme” dos acontecimentos tolda-lhe a memória: a imprensa começa por lançar o alarme do Estádio de França, em Saint Denis, e poucos minutos depois tiroteios estavam lançados por outras zonas, fechando o ciclo da tragédia na sala de espectáculos Bataclan. A possibilidade de atentado passa a ser assumida por cada um como uma certeza. Acabaria por ser reivindicada no dia seguinte pelo grupo terrorista Estado Islâmico.

O jovem descreve o “cenário de guerra lançado”, as mensagens e as tentativas de saber se pessoas que lhe eram próximas tinham sido afetadas. “O pânico alastrou-se. Mas não o medo. O choque de demasiadas idas sem regresso, de pessoas que não transgrediram as regras, senão por existir e pela má pontuação do tempo e do espaço”, conta ao mediotejo.net.

Joel Anjos
Contrariamente às indicações dadas, Joel saiu de casa nos dias seguintes aos atentados

Joel refere que os estabelecimentos públicos – escolas, bibliotecas, piscinas e muitas salas de cinema – foram fechadas no fim-de-semana, com o estado de emergência decretado nessa mesma noite. “As pessoas foram alertadas para não sair de casa. Eu saí. Fui trabalhar. E como eu, muitas pessoas saíram. Paris saiu à rua no sábado pós-atentado”, descreve.

Apenas uma coisa mudou, em relação a todos os outros sábados: o silêncio incerto e mortífero que se vivia nas ruas. A melancolia e a incompreensão de um mundo feito de pessoas incapazes de viver juntas – de partilhar o mesmo espaço e a mesma linha do tempo.

“Se existiu alguma diferença entre estes e o os atentados de janeiro [na redação do jornal Charlie Hebdo], foi que se os primeiros se dirigiam à comunicação social, agora a direcção seguia contra a todos os civis, que estavam num momento de lazer ao final de uma semana de trabalho. Este atentado dirigia-se a todos os parisienses”, resume.

Na passada segunda-feira, 16, houve um minuto de silêncio pelas vítimas. Depois de horas de silêncio. E ontem (domingo), nas palavras do jovem tomarense, “Paris era cultura, música, cinema, dança, esplanadas e vinho, e lutas pela liberdade, pela sobriedade, pela educação, um grito de vida em forma de cidade”.

Na segunda-feira, Agnès Varda foi à Potemkine!, loja cinematográfica, para dar uma conferência, as ante-estreias de ‘Game of Thrones’ tiveram lugar, as escolas e universidades abriram e a vida continuou. A vida de Paris é um estado de cultura, um culto de séculos ao pensamento, à educação e à cultura.

E qual realizador de cinema, Joel escreve o epílogo deste capítulo marcante: “Amanhã Paris, que é hoje a minha casa, será tudo o que era ontem. E mais – será uma sobrevivente ao que há de bárbarie e desumano. Porque neste universo que partilhamos, e contra a barbaridade, não podemos aceitar que o medo entre nas nossas vidas. Respondemos juntos, e com uma palavra que consta em todos os relatos dos sobreviventes presentes no Bataclan: Amor! O eco far-se-á ouvir”.

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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