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Sábado, Outubro 23, 2021

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“Nada pode continuar a ser como dantes”, por Helena Jorge

A mudança inevitável, perante um inimigo invisível, virou a nossa vida do avesso. Fomos obrigados a mudar a forma como nos relacionamos connosco e com os outros. Somos humanos e reagimos ao desconhecido e à incerteza, com o medo.

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Para o combate a este inimigo, todos são necessários e são chamados a adoptarem comportamentos responsáveis. A responsabilidade das autoridades de saúde, das instituições, dos profissionais que estão numa primeira linha, e de todos os cidadãos é interactiva.

Às autoridades de saúde e instituições é exigido que adoptem formas de organização que dêem as respostas necessárias mas também é imperativo que salvaguardem os profissionais. A adopção de horários de 12 horas nos hospitais, também nas instituições do distrito de Santarém, e sendo justificados com a necessidade de diminuir a rotatividade dos profissionais de saúde durante o surto pandémico, releva a importância de não esquecer que estes turnos longos, ainda mais num contexto como o actual, são mais duros a nível psicológico e físico.

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Aliás, num contexto normal, os turnos de 12 horas são ilegais. A conquista das 35 horas semanais e das 8 horas de trabalho diário veio na sequência de uma Orientação da Organização Mundial do Trabalho (OIT) precisamente para salvaguardar os profissionais de saúde do risco e penosidade associado às prestações de cuidados.

Todos sabemos que as administrações nunca contrataram o número de enfermeiros que necessitavam. Seja por imposição do Ministério das Finanças seja pela sua própria vontade. São estas instituições, com uma crónica falta de profissionais, que agora têm que dar respostas que ninguém esperava. Como tudo seria menos difícil se assim não fosse mas, quando a visão é curta, todos pagamos.

A nossa exigência continuada de admissão de mais enfermeiros mantém-se e, naturalmente, aumenta no contexto actual. Não só pelo aumento das necessidades dos cidadãos mas também porque, infelizmente, muitos enfermeiros serão infectados.

O governo, finalmente, na senda de uma outra exigência nossa, delegou nas instituições a possibilidade de contratar enfermeiros mas, mais uma vez, demonstrou uma falta de visão estratégica e de futuro. O que está a ser oferecido a estes profissionais são contratos por 4 meses passíveis de ser renovados por mais 4 meses.

A pergunta é inevitável: quem aceita ir trabalhar por 4 meses sabendo que durante esse tempo pode ficar infectado? Que pode ficar com sequelas respiratórias para o resto da vida? Que durante esse tempo dificilmente poderá conviver com os seus filhos? Que poderá morrer?

A outra pergunta é: que governos têm sido estes que se permitem brincar assim com a vida daqueles que tem a obrigação também de proteger?

Os dados mais recentes apontam para cerca de 800 profissionais de saúde infectados. São menos de 800 profissionais na linha da frente no combate. Muitos deles terão sido infectados por inexistência de equipamentos individuais de protecção. Esperamos a reposição rápida de equipamentos de protecção.

Os governantes anunciam as “idas aos mercados” para comprar estes equipamentos mas, o que esta pandemia nos está a demonstrar é que na sua maioria eles poderiam ser fabricados em Portugal.

E também sobre isto o que todos esperamos é que nada volte a ser igual. Ficou agora mais claro que esta politica de deslocalizar empresas para países em que a mão-de-obra é mais barata tem custos muito altos, nomeadamente de vidas humanas.

Na verdade, o nosso país (e outros) padece de um outro vírus que há anos anda a “passear-se” por cá e que levou ao fim da nossa capacidade produtiva de alguns bens. Um outro exemplo é a opção de encerrar o nosso Laboratório Militar. Quando comecei a trabalhar todos os medicamentos que utilizávamos nos hospitais eram provenientes do laboratório Militar. Eram medicamentos genéricos, mais baratos mas eficazes. Sucumbimos aos grandes grupos económicos farmacêuticos e hoje uma grande fatia do Orçamento da Saúde é para pagar a estes senhores. Mais uma vez, e por causa do Covid-19, o Laboratório Militar foi chamado a produzir.

Este é o momento do combate e todos temos que estar unidos nessa frente. Mas, quando ganharmos esta guerra vamos ser chamados para a reconstrução do país, para a nossa reconstrução nas relações interpessoais e com as estruturas de poder, porque na verdade, nós somos o poder.

Teremos que ser mais intervenientes e mais exigentes relativamente às decisões que os nossos governantes tomam, ou seja, termos que aprofundar os nossos direitos de cidadania.

Quase a terminar, e voltando aos horários de trabalho dos enfermeiros, esperamos que as criatividades dos nossos administradores hospitais também cessem quando diminuir este surto.

E mesmo para terminar, uma palavra para todos os enfermeiros. O reconhecimento do que antecipadamente sabia: estamos lá, estamos sempre lá, ainda que com salários de 1000 euros, ainda que com anos de trabalho que não nos contabilizaram para efeitos de progressão, ainda que com dificuldade em gozar direitos adquiridos, ainda que sejamos poucos para as necessidades, ainda que com uma Carreira de Enfermagem que o governo nos impôs e que não reconhece o valor do nosso trabalho, as nossas competências e as nossas responsabilidades.

O que estamos a fazer neste momento é dar uma bofetada de luva branca a estes senhores e o tempo virá em que voltaremos a lutar pelo que é justo!

Por nós, por vós e pelo Serviço Nacional de Saúde, cumpram as orientações e fiquem em casa.

Coordenadora do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) do Distrito de Santarém

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