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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

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“Museu e Património Arqueológico de Mação” por José Martinho Gaspar

A idealização daquilo que viria a ser o atual Museu de Mação surgiu em 1943, na sequência do importante achado arqueológico do Porto do Concelho, iniciativa de João Calado Rodrigues, que contou com o apoio da Câmara Municipal. Em 1967, Maria Amélia Horta Pereira foi convidada a estudar a coleção e estruturar um projeto de Museu, que só viria a ser concretizado em 1986, altura em que abriu ao público (dirigido pela referida conservadora), com coleções de arqueologia, etnografia e arte.

O novo ciclo do Museu iniciou-se em 2000, após a descoberta de gravuras rupestres no vale do Rio Ocreza. Daí em diante, uma nova direção e uma equipa mais alargada, iniciou a reorganização e o inventário. O tema central do museu passou a ser a arte rupestre e as temáticas do simbólico e do sagrado ao longo do tempo, articuladas com a ideia de risco e paisagem.

De agosto de 2003 a março de 2005 todo o edifício foi reestruturado e foi inaugurada a exposição “Um risco na Paisagem – Artefactos, lugares e modos de vida nas origens do agro-pastoralismo”. Este tema foi selecionado porque este é um acervo de importância nacional (Mação situa-se no eixo central de atravessamento do Rio Tejo por comunidades que optam pelo agro-pastoralismo e também porque a agricultura e o trabalho da terra são as bases identitárias das populações, possibilitando um discurso antropológico percetível aos visitantes.

A gravura rupestre do ‘Cavalo’ do Ocreza foi encontrada em 2000 em Mação

No número 6 da revista Zahara, em 2005, um interessante artigo, de Luiz Oosterbeek e Sara Cura, dava uma visão global do que era então o “Património Arqueológico do Concelho de Mação”. Conta-se que os primeiros caçadores-recoletores da zona de Mação terão ocupado a margem Norte do Rio Tejo e as margens dos seus principais afluentes há cerca de 500.000 anos. As principais estações arqueológicas paleolíticas localizam-se nos terraços fluviais ao longo da margem direita do Tejo, no limite sul do concelho, entre a Ortiga e a Ribeira do Coadouro ou das Boas Eiras e o Rio Frio. São desta zona as referências mais antigas a achados Paleolíticos. Do Paleolítico Superior é dado como certo que dos materiais recolhidos no Moinho do Talegre do Casal da Barba Pouca (Penhascoso) se destacava uma raspadeira de grandes dimensões, que G. Zbyszewski classificou como sendo deste período e sem paralelo em Portugal.

Há cerca de 7-8 milénios iniciou-se o chamado processo de Neolitização, que terá durado mais de dois mil anos, o qual marcou definitivamente tanto a paisagem como as identidades das populações. A transformação da paisagem, no caso de Mação, regista-se a três níveis: mudança física, com a desflorestação e a construção de espaços domésticos de habitação sazonal e, mais tarde, permanente; o ordenamento, com a construção de grandes monumentos funerários (antas), congregando esforços da comunidade para as erguer para os seus mortos; a arte rupestre, assinalando determinados espaços e percursos estruturantes do novo modo de vida. Existem, no concelho de Mação, cerca de vinte sítios arqueológicos associados a este processo, sobretudo porque estabelecem o contacto entre as realidades tagana e beirã, de que a arte rupestre e o megalitismo constituem, na pré-história, duas dimensões regionais de importância internacional.

No que diz respeito à Idade do Bronze, o sítio mais referenciado na bibliografia é o Porto do Concelho, situado no vale por onde passa a Ribeira de Eiras, entre as aldeias de Pereiro e Castelo. Em 1943, durante as obras de construção da estrada municipal que ligaria as duas aldeias, foi feita uma enorme descoberta, a que chamaram tesouro as populações locais. O local ficou conhecido como Esconderijo do Fundidor. Aí foram encontrados dois machados de talão ou azelha, duas foices, três lanças de alvado, três espadas curtas ou adagas, três punhais, que podem considerar-se coevos de dois povoados, ambos habitados desde épocas anteriores – O Castelo Velho do Caratão e o Castelo Velho do Vale do Grou.

Desde 2005, outras escavações puseram a descoberto novos sítios arqueológicos. Uma visita ao Museu de Mação permitir-lhe-á atualizar os elementos sobre o património arqueológico de Mação aqui enunciados. Este museu é peça-chave em importantes projetos europeus, na área dos riscos naturais que o património e da relação entre a arte pré-histórica e a arte contemporânea. A dinâmica internacional do museu tem-lhe permitido acolher investigadores residentes oriundos dos cinco continentes.

Até final de 2014 o Museu foi palco de oficinas, exposições, eventos e programas de socialização do conhecimento. Todo este processo inclui uma estreita colaboração com outras entidades maçaenses, como o Agrupamento de Escolas Verde Horizonte, a Biblioteca Municipal ou a Universidade Sénior. Esta rede local reforçada tem-se vindo a articular com a rede nacional e internacional do Museu, que envolve a parceria com o Instituto Politécnico de Tomar e com mais de 50 universidades da Europa, Américas, África e Ásia. Foi este processo de colaboração e convergência que levou ao reconhecimento de Mação, em 2016, como membro da “Rede UNESCO de Cidades da Aprendizagem”.

José Martinho Gaspar nasceu em Água das Casas (Abrantes), na década de 60 do século XX, e vive em Abrantes. É Professor de História e Mestre em História Contemporânea. Desenvolve a sua ação entre aulas, atividades associativas (Palha de Abrantes e CEHLA/Zahara, mas também CSCRD de Água das Casas), leitura e escrita, tanto de História como de ficção, sendo autor de vários artigos e livros. Apaixonado por desporto, já não vai em futebóis, mas continua a dar as suas voltas de bicicleta. Afinal, diz, "viver é como andar de bicicleta: não se pode deixar de pedalar e quando surge um cruzamento escolhe-se o nosso caminho".

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