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Sexta-feira, Julho 23, 2021

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“MUNDOS”, por Nelson de Carvalho

Eu sou de uma história e de um “mundo” que se construiu durante mais de um par de milénios assente em alguns pilares estruturantes:

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– a racionalidade grega.

– a narrativa judaico-cristã.

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– o direito romano.

É assim a cultura europeia. E a Europa como projeto.

Sobre ela construimos uma linguagem, uma cultura, um modo de vida.

Foi longo, foi difícil, foi penoso.

A racionalidade grega formatou-nos para o debate racional, lógico e argumentativo … e o pensamento científico.

A narrativa judaico-cristã alimentou a ideia de uma finalidade para a vida e, com o Novo Testamento, um conjunto de valores e uma ética fundamental baseada na igualdade.

O direito romano estabeleceu o imperativo e a base da regulação jurídica como fundamento da organização e da relação social.

Passámos por muitos momentos críticos.

A Igreja Católica, durante séculos, quis e sobrepôs o seu poder (espiritual) aos poderes políticos (temporais) e quis estabelecer e estabeleceu as normas que fundamentavam a regulação da vida social. Inventou mesmo a Inquisição para vigiar, controlar e punir qualquer ato que entendesse ser desvio.

Mas travámos uma batalha contra essa sobreposição do poder espiritual ao poder temporal no sentido de repôr a sentença inaugural e estruturante de Jesus: a Deus o que é de Deus, a César o que é de César. E a Igreja teve que organizar a sua própria reforma, fazer a reinterpretação dos textos e adaptar a doutrina. Teve que aceitar a separação do poder de César e do poder de Deus e viver numa sociedade onde as leis e as normas e os processos de regulação da vida social eram estabelecidos autonomamente pelo Estado, as suas instâncias legislativas e judiciais, e só quem queria, e como queria, vivia a sua religião e seguia as orientações da Igreja. Em suma, na sequência de uma luta longa, difícil e com muitos sofrimentos e vítimas, construímos o Estado Laico, a separação do Poder do Estado e do Poder da Igreja, a liberdade de pensamento e de expressão religiosa.

É com base neste legado, nesta linguagem, neste pensamento livre, racional e argumentativo, nesta cultura e visão do mundo, neste modo de vida que demorou séculos a construír que eu quero conviver com todos e aceito e valorizo a diferença e a pluralidade e o debate racional. Aceitar a diferença e a pluralidade não quer dizer abdicar, desistir, deitar fora.

Vivemos hoje tempos difíceis, A Europa é confrontada com a sua própria crise, económica, financeira, política, mas também está a ser severamente confrontada nos seus fundamentos, nos seus valores, na sua cultura e no seu modo de vida. Confrontação civilizacional.

Eu não sou asiático, africano, árabe, muçulmano, católico, chinês.

Quero conviver com todos. Livremente e reconhecendo a liberdade de todos. E acreditando que a pluralidade e a diversidade enriquece a humanidade.

Mas acho inaceitável que queiram destruir a civilização, o modo de vida, a cultura, os valores que a história europeias construiram. E querem.

 

Ex-presidente da Câmara Municipal de Abrantes e ex-presidente da Assembleia Municipal de Abrantes, é o atual presidente da direção do Centro de Recuperação e Integração de Abrantes (CRIA).
Escreve no mediotejo.net às sextas-feiras

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