Mouriscas | Livro ‘Esparteiros: Arte de Entrelaçar’, registo de memórias e tradições

Apresentação do livro 'Esparteiros. Arte de Entrelaçar' na Sifameca, em Mouriscas. Créditos: CMA

O livro ‘Esparteiros: Arte de Entrelaçar’, foi apresentado nas instalações da Sifameca, em Mouriscas. Com textos de Sandra Uva Alexandre, fotos de João Jerónimo, ilustrações de Raul Bueno e design de Teresa Moreira, este livro tem edição da Câmara Municipal de Abrantes e produção da Palha de Abrantes – Associação de Desenvolvimento Cultural. É apoiado pela EDP no âmbito da edição bienal do Programa Tradições, que continua a apoiar as tradições mais genuínas da cultura popular Portuguesa e ao qual a Câmara de Abrantes candidatou e viu aprovado o projeto “Esparteiros: Artes de Entrelaçar”. 

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Em Mouriscas (Abrantes), existe desde tempos imemoriais uma importante atividade artesanal de trabalho em esparto e cairo, e desde meados do século XX, ligada à produção de seiras e capachos, usados então no processo tradicional de produção de azeite, que tende a extinguir-se devido ao reduzido número de artesãs que ainda a desenvolvem e à modernização dos lagares.

Os capachos e as seiras são utilizados para colocar a massa de azeitona que sai da mó. Depois de preenchidos são acumulados em camadas e depois colocados nas prensas, dos lagares de azeite tradicionais, que os apertam para tirar o sumo da azeitona. No que diz respeito às seiras, têm a forma de uma saca larga e circular, em que a parte superior constitui denominadas “abas”, que termina na boca da seira.

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Foi a história dos homens e mulheres que deram mãos a esta tradição que o Município de Abrantes quis contar. Em parceria com um conjunto de entidades locais, desenvolve o projeto ‘Esparteiro: Artes de Entrelaçar’, que obteve um financiamento no âmbito do Programa EDP Tradições, no decurso do ano 2019. Do projeto nasceu o livro ‘Esparteiros: Arte de Entrelaçar’ de Sandra Uva Alexandre, apresentado em Mouriscas na segunda-feira, 16 de dezembro.

Apresentação do livro ‘Esparteiros. Arte de Entrelaçar’ na Sifameca, em Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

Enquanto antropóloga ou investigadora, “ou quem trabalhe nesta área de investigação é algo muito marcante deixarmos o nosso contributo de alguma forma, para os vindouros. Para que tenham um registo de como se faz. Sabemos que corremos o risco destas tradições, destes saberes, se perderem no tempo porque é um arte dura, corta as mãos, faz os ‘pintasilgos’ e nem sempre estamos preparados para ceder essa parte de nós, da dor, para criar algo. Este livro responde a isso mesmo: deixar um registo” disse a autora Sandra Uva Alexandre ao mediotejo.net.

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Este livro, que contou com muitas colaborações, é um repositório para o futuro daquilo que é a arte do esparto, uma das marcas da freguesia de Mouriscas. Destaque para os valiosos testemunhos na primeira pessoa de homens e de mulheres de diferentes gerações que com as mãos vertem o saber fazer a arte de entrelaçar.

Para Sandra Uva Alexandre “falar com estas senhoras e este senhores é algo fabuloso, perceber que nos estão a dispor a sua história, a sua memória, que estão a partilhar este momento connosco, das lides difíceis e nós queremos responder nas duas vertentes; a profissional e a humana, da mesma maneira que fizeram ao longo da sua vida”.

Apresentação do livro ‘Esparteiros. Arte de Entrelaçar’ na Sifameca, em Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

“Esparteiros: Arte de entrelaçar” é um livro com muitas histórias. Vidas “muitas similares e muitas que fazem marco da evolução dos tempos, desde as pessoas que não tiveram oportunidade de aprender a ler ou a escrever, àquelas que já foram à escola e que rapidamente tiveram de sair, àquelas que tiveram de ajudar as famílias… é uma evolução histórica. Procurámos fazê-la desde a origem, no final do século XIX, mas temos noção que as pessoas com quem conseguimos falar e ter este registo, que não seja só documental, fazem-no desde o início do século XX e há toda uma grande evolução”.

A antropóloga começou no terreno em fevereiro de 2019 em passo “acelerado”, para falar com as pessoas criando laços de proximidade, de amizade para perceber uma arte que já foi a principal atividade económica de Mouriscas e que atualmente possui apenas uma única empresa a laborar, precisamente a Sifameca que acolheu esta apresentação e que acaba de completar 52 anos de existência desde a sua fundação em 1967.

O trabalho de pesquisa, investigação e escrita dos textos de Sandra Uva Alexandre é complementado com fotografias de João Jerónimo, ilustrações de Raul Bueno. Estas últimas por não ser simples, de fácil explicação. Para a própria Sandra compreender teve de aprender a arte de entrelaçar, conta. “Fazer um descritivo não é simples, e sendo a autora já estou a fazer uma interpretação sobre o que me estão a ensinar. Creio que a ilustração seja a melhor forma de passar às pessoas que estão a ler, é a forma mais simples de passar esta mensagem” diz.

Apresentação do livro ‘Esparteiros. Arte de Entrelaçar’ na Sifameca, em Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

A comunidade mourisquense sempre valorizou a produção de seiras e capachos, surgindo o termo ‘esparteiro’ até em múltiplas dimensões da sua toponímia. Apesar da aposta que em tempos se fez na diversificação da produção, com tapetes e carpetes em cairo, esta é uma atividade que tende a desaparecer. Antigamente era feito em esparto, uma espécie de junco com que se faziam os primeiros capachos. O mesmo material com que se faziam os seirões (ou alforges) dos burros. A partir daí veio o cario, depois veio o nylon. Mais tarde já se começou a usar a ráfia.

Em representação da fábrica de Mouriscas anfitriã, Abílio Ferro Faria lembrou que a Sifameca é “a herdeira das antigas espartarias que representam não só o nosso ADN mas o ADN de uma freguesia, que mantém até hoje mãos marcadas com cicatrizes de entrelaçar os fios de esparto, cairo e mais tarde nylon e a ráfia para o trabalho dos lagares”.

As seiras e capachos, uma autenticidade do património imaterial da freguesia de Mouriscas, mas também do Concelho de Abrantes que, para o Município, urge preservar e divulgar. O presidente da Câmara Municipal de Abrantes salientou que “manter as nossas raízes e a nossa identidade é uma das maiores causas”, acrescentando que “o futuro de Abrantes precisa das nossas origens”. Manuel Jorge Valamatos recuperou o lema do programa Tradições da EDP – “Todo o Futuro precisa de Origens” – para relembrar que a Tradição e a Inovação é o binómio que acompanha a história do nosso território.

Apresentação do livro ‘Esparteiros. Arte de Entrelaçar’ na Sifameca, em Mouriscas. Créditos: CMA

O livro tem edição da Câmara Municipal de Abrantes e produção da Palha de Abrantes – Associação de Desenvolvimento Cultural. “Este é um livro que fala de uma tradição e quando recebemos o desafio para esta parceria ficámos especialmente contentes porque viemos quase completar um trabalho que havíamos iniciado há muitos anos. Também para nós foi um fechar de um ciclo” disse Lurdes Martins, da associação Palha de Abrantes.

O Município de Abrantes candidatou-se ao Programa Tradições da EDP e em 2018 foi um dos nove municípios vencedores com o projeto “Esparteiros: Artes de Entrelaçar”. Um projeto para preservar a produção em esparto com um custo financeiro de 25 mil euros, sendo 19 mil financiamento da EDP.

O projeto centra-se em suporte escrito (livro) mas também em vídeo (documentário). Valorizando o saber das últimas artesãs, em articulação com o Grupo Etnográfico “Os Esparteiros”, com a EPDRA – Escola Profissional de Desenvolvimento Rural e com o CRIA – Centro de Recuperação e Integração de Abrantes, promove-se a formação ao nível das técnicas da produção tradicional em esparto. Como formadores, ainda que em matriz de experimentação, o projeto conta com as artífices da fábrica Sifameca para gerar novos artesãos.

Apresentação do livro ‘Esparteiros. Arte de Entrelaçar’ na Sifameca, em Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

Helena Gomes, em representação do Programa Tradições da EDP, deixou um apelo às artesãs presentes no evento, no sentido de reinventarem a obra. “Não se fiquem pelos capachos. Apelem aos jovens para continuarem a trabalhar no esparto”, disse ao salientar a importância de não deixar morrer a arte.

No afinal da apresentação, em jeito de prenda de Natal do Município, a todos os presentes foi oferecido um exemplar de ‘Esparteiros: Arte de Entrelaçar’. O livro encontra-se à venda com um preço de cinco euros.

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