Quarta-feira, Março 3, 2021
- Publicidade -

Mouriscas | Almoço de solidariedade junta amantes do rio em defesa de Arlindo Marques

Em dia de tempestade anunciada e ventania certa, até São Pedro ajudou que não chovesse durante o almoço solidário realizado este sábado 10 de março, na unidade de turismo sustentável ‘Colinas do Tejo’ em Mouriscas, no concelho de Abrantes. Cerca de 30 pessoas juntaram-se para almoçar com Arlindo Consolado Marques, “por um Tejo vivo, navegável e fonte de vida”, fazendo da luta pelo Tejo, “uma oportunidade de estreitar laços de solidariedade”.

- Publicidade -

Uma ação cuja receita líquida resultante do almoço reverteu para a defesa em tribunal do ‘guardião do Tejo’ com um processo por ‘difamação’ movido pela produtora de pasta de eucalipto branqueado, Celtejo – Empresa de Celulose do Tejo, SA, situada em Vila Velha de Rodão. A empresa pede uma indemnização de 250 mil euros.

João Gouveia, proprietário da unidade de turismo sustentável ‘Colinas do Tejo’, sita em Cascalhos, Mouriscas “sempre quis que fizéssemos um almoço para me ajudar e para ajudar o Tejo” que, este sábado 10 de março, corria cheio “para as sabogas é o indicado” observa Arlindo Consolado Marques. Conta que acabara de chegar da Barragem de Belver onde notou “muito branco em cima. Alguma coisa vai diferente da água barrenta. Vi abaixo, quando se faz a curva para Alvega talvez um metro de espuma” denuncia.

- Publicidade -

Aliás, denunciar a poluição no rio Tejo tem sido a sua missão nos últimos três anos. Mas a luta não é só dele, é de todos os que querem salvar o rio. “Vamos ter de continuar na nossa luta. Eu sozinho não sou nada. Já alguém disse ‘se não fosse o Arlindo…’ Não! O Arlindo foi ao terreno porque tem disponibilidade para isso mas se não fossem vocês todos não conseguiria chegar a lado nenhum” reforçou o ambientalista.

Porventura, sem o apoio da comunidade já teria desistido. “Tive alguns motivos para isso” referindo-se ao episódio de agressão ligado à Fabrióleo cujo processo decorre em Tribunal. Arlindo admite que no dia que recebeu a carta dando conta do processo instaurado pela Celtejo “não me apeteceu comer e a minha tensão arterial subiu para 20/12”. Admitiu também serem difíceis os dias em que está sozinho, longe de quem o apoia, nomeadamente no dia em que tiver de se sentar no banco dos réus.

Mas o ambientalista não desanima. “ Quando vou para perto do Tejo isto passa tudo. Vamos aguentar! E esta água que está a correr hoje é muito boa. A rede em defesa do Tejo vai continuar. Nós vamos todos continuar” acreditando que um dia “vamos ver o Tejo limpo”, disse.

Este almoço de solidariedade “demonstra que as pessoas querem um rio limpo. Estão aqui para me ajudarem no processo movido pela Celtejo”. Será necessário “gastar algum dinheiro com as custas do tribunal e com o advogado”. Arlindo Consolado Marques acredita que muitas mais pessoas gostariam de estar presentes, referindo os 21 mil seguidores que tem na rede social Facebook.

Contudo, “a vida nem sempre possibilita” consente, agradecendo aos presentes que estão “na luta contra os poluidores no Tejo”.

Paulo Constantino, Francisco Sampedro e Arlindo Consolado Marques

E foi precisamente para ajudar financeiramente Arlindo Marques no processo instaurado pela Celtejo-Empresa de Celulose do Tejo, SA, do Grupo ALTRI que decorre a campanha coletiva de angariação de fundos “Somos Todos Arlindo Marques”, que angariou até ao momento cerca de 14 mil euros.

A campanha de crowndfunding promovida pelo movimento proTEJO, do qual Arlindo Marques é secretário da mesa do conselho deliberativo, decorre até dia 16 de março com o propósito de angariar 21885 euros.

Paulo Constantino, porta-voz da proTEJO, também esteve presente no almoço solidário nas ‘Colinas do Tejo’. “Com a ajuda de todos achamos que é possível alcançar o nosso objetivo até 16 de março”, disse ao mediotejo.net.

Deu conta da adesão de muitas pessoas à campanha e de “muitas outras que contribuíram fora do crowndfundig, donativos que serão igualmente incluídos”.

Para Paulo Constantino o importante nesta ação “não era conseguir grandes valores mas que as pessoas participassem”.

“Esta ação contra o Arlindo Consolado Marques é uma ação contra todos os cidadãos de Portugal e Espanha que defendem o rio Tejo e contra todos os defensores do ambiente, consistindo num ato de intimidação que tenta condicionar o direito constitucional que todos os cidadãos têm de expressar livremente a sua opinião e o dever constitucional que todos os cidadãos têm de defender o ambiente” pode ler-se na página do crowndfunding.

Almoço solidário nas ‘Colinas do Tejo’

Por seu lado, João Gouveia explica a razão da ação: “Tomámos a iniciativa do almoço em defesa do Tejo e num momento crítico em que Arlindo Consolado Marques, porta-voz da população, está a ser vilmente perseguido por uma unidade industrial tentando de alguma forma impedir a liberdade de expressão do Arlindo, perante algo que é uma evidência, todos temos olhos e todos nós que fazemos do Tejo a nossa fonte de recursos sabemos quão de longe vem esta poluição do Tejo. Sabemos qual a responsabilidade da indústria de celulose nesta poluição e sabemos que é urgente pará-la”.

Arlindo Marques e os pescadores que “foram quem mais sofreu com isto, mas todos nós estamos a sofrer consequências”, o almoço “é uma maneira de dizermos que estamos com o Arlindo, que não nos calamos, que o Tejo não é propriedade privada de ninguém, é um recurso natural que a todos pertence e se queremos desenvolvimento económico temos de garantir que esse Tejo recuperará a qualidade”, defende.

 

João Gouveia agradeceu ao ambientalista “que não se ficou pela interpretação do mundo mas pegou numa câmara e de forma simples, clara e direta fez das novas tecnologias não um fim em si mesmo, mas um meio para que a verdade viesse ao de cima. Este é um homem inteligente: mais ação e menos paleio”.

Para o promotor da iniciativa, torna-se necessário que as empresas que despejam os seus efluentes no Tejo “o façam ao nível do que podem tratar e do que o Tejo pode receber. Esta luta não é contra ninguém, é pelo Tejo” sublinha, falando da “da ditadura da ameaça de usar a justiça para perseguir quem diz a verdade”.

Francisco Sampedro, Arlindo Marques, João Gouveia e Paulo Constantino

O almoço também serviu para reiterar que “se não fosse o Arlindo e todos os amigos que são pela causa do Tejo, se calhar as instâncias governamentais não teriam agido como agiram. É para isso que as pessoas pagam impostos, esperamos do Estado e dos organismos governamentais que cumpram o papel que lhes compete”, sustentou.

João Gouveia está certo que “em todos os quadrantes políticos e ideológicos deste País há um traço comum que é a constatação que o Tejo é vida e com o Tejo em perigo a vida fica em risco”.

Entre as cerca de 30 pessoas presentes no almoço solidário esteve Mário Rodrigues, natural de Mouriscas e ex-deputado municipal do Entroncamento. Foi nessa qualidade que, durante os seus anos de mandato, apresentou cinco moções relacionadas com Tejo.

“Os meus tios eram pescadores semi-profissionais, por conta deles, desde muito jovens”, contou ao mediotejo.net. A menos de 100 metros das ‘Colinas do tejo’ “há uma pesqueira onde apanhei muito sável e muita saboga. Sou um amante do Tejo de muito tenra idade. Sofro com o Tejo e tem sido um martírio ver a poluição no rio”.

O grande objetivo do almoço solidário nas ‘Colinas do Tejo’ passa pelo “ grande apoio, solidariedade sem limites ao Arlindo Consolado Marques sem o qual certamente os problemas do Tejo não estariam na ribalta, em termos do Governo da República” crendo existir “um meio ministro do Ambiente quando coloca a fábrica a 50%, e este mês só a 30%. É inaceitável!”, considera.

Paulo Constantino, Mário Rodrigues, Armindo Silveira e Francisco Sampedro

Para Mário Rodrigues o Tejo enferma devido “a três problemas: a poluição que tem de ser evitada; a sua ligação/conexão” e a este propósito refere “o açude insuflável de Abrantes e o muro da Pegop que impedem a passagem para montante dos peixes de arribação” diz, acrescentando que “os peixes estavam habituados a desovar na chamada cascalheira de Alvega”.

Por último refere “o caudal ecológico do rio que não está normalizado. Com o caudal baixo as ovas do peixe ficam ao sol e morrem”.

Igualmente marcaram presença no almoço solidário Armindo Silveira, vereador do BE na CM Abrantes, e também ativista da proTEJO, e o pescador Francisco Sampedro.

Abrantes | Almoço solidário, nas Colinas do Tejo, em Mouriscas, a favor de Arlindo Consolado Marques e em defesa de um rio Tejo limpo.

Publicado por mediotejo.net em Sábado, 10 de Março de 2018

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).