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Mouriscas | A última azenha da ribeira de Rio Frio

A Rota Cultural e Etnográfica das Ribeiras da Arcês, Rio Frio e Rio Tejo do proponente António Louro, de Mouriscas, no concelho de Abrantes, venceu em 2017 o Orçamento Participativo Portugal. Na rota estão envolvidos os concelhos de Abrantes e também Sardoal e Mação. Mouriscas, em Abrantes, é uma terra circundada pelas duas ribeiras e pelo rio Tejo, a limitar a freguesia. Na ribeira de Rio Frio uma das azenhas ainda funciona. Augusto Timóteo de 87 anos nela mói cereais para fazer o pão. O próprio semeia o milho, colhe e faz a farinha.

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Iniciámos com sol o caminho até à ribeira de Rio Frio onde a azenha de Augusto Timóteo, natural de Lercas, Mouriscas, transforma o grão em farinha esmagando-o entre duas mós movidas pelas águas da ribeira. Uma opressão da qual resulta o pão amassado pela mulher de Augusto Timóteo. Afinal, a azenha trabalha para casa. “É para a gente!”, esclarece ao mediotejo.net.

Na zona, agora esverdeada por um tapete de plantas, de Murteira Norte, em Mouriscas, onde despontam troncos negros, alguns de pinheiro bravo muitos outros de eucalipto, como marcas do incêndio no verão passado, as chuvas que haviam caído no dia anterior deixaram no ar um cheiro a terra molhada, flores campestres e vegetação nascida na primavera.

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Caminhada e visita à azenha de Augusto Timóteo na ribeira do Rio Frio, em Mouriscas

Após atravessar a ponte de Vale do Rodrigo, o grupo de 38 pessoas, que o nosso jornal acompanhou numa manhã do final do mês de maio, numa iniciativa da ACROM – Associação Cultural das Rotas de Mouriscas, caminhou-se até Vale da Maceira, lugar conhecido por das Hortas, ainda que os eucaliptos as tenham substituído. Seguimos na direção de Lercas, casal mourisquense com poucos habitantes, alguns quilómetros depois passámos pela represa da Fonte da Cagaita até que chegámos à única azenha que ainda permite testemunhar a arte tradicional da moagem de grãos.

“A visita tinha de acontecer agora” explica António Louro. A moagem depende da água e lá para julho, antes até se o calor apertar, “a ribeira deixa de correr. Seca completamente”, tal como a da Arcês.

As chuvas, tal como espalharam à beira das veredas e pelos campos fora moitas e flores num colorido deslumbrante, deram um avanço ao milho que o ancião semeou sozinho no seu terreno ao longo da ribeira de Rio Frio. Que nos seus 87 anos, mesmo tendo diagnóstico de vida encurtada devido a um acidente com uma arma de fogo, ainda corre sem medos por cima da levada, desvia e envia água para a azenha, cava e semeia, desbrava e planta. Sempre trabalhou a terra, viveu toda a vida como agricultor, embora chegasse a “negociar madeira”.

Caminhada e visita à azenha de Augusto Timóteo na ribeira do Rio Frio, em Mouriscas

No verão, e porque os terrenos seus vizinhos estão ao abandono, ainda arrisca dormir no palheiro, feito pelo pai, pedra sobre pedra, guardado por cães com o intuito de afugentar os javalis que lhe destroem as culturas. O palheiro mereceu um arranjo recente de “dois mil euros” consumido que foi pelo fogo em agosto de 2017. Deu-lhe “pena” vê-lo a cair. Não quis um tostão de apoio mas ainda assim houve quem ajudasse oferecendo a telha.

Nos caminhos, outrora estradas de trânsito de gado e onde as rodas das juntas de bois mastigavam o chão rochoso, perduram os vincos desse passado apagado pelo abandono das gentes da agricultura e da terra. Agora o turismo pode ser o caminho para a sobrevivência de um Interior desertificado. E a importância do triunfo da Rota cultural e etnográfica das ribeiras da Arcês, Rio Frio e Rio Tejo “é enorme” considerou António Louro. “Tendo em conta o nosso contexto local tem um grande impacto em Mouriscas” terra que é circundada pelas duas ribeiras e pelo rio Tejo, a limitar a freguesia.

Trata-se de uma Grande Rota com cerca de 35 quilómetros por “zonas lindíssimas e remotas”. Nela trabalharam em limpezas e desbravaram trilhos etnográficos. “São cerca de 30 voluntários no terreno”, integrados primeiramente no grupo de Amigos da Ribeira da Arcês, e agora na ACROM. Gente empenhada em desenvolver a rota e a querer mostrar os lagares, as levadas e os açudes, contou António Louro.

O projeto, que prevê a criação de uma rota pedestre de cariz cultural e etnográfica em zonas de intensos vestígios de património antigo e outro mais recente, está em andamento.

Caminhada e visita à azenha de Augusto Timóteo na ribeira do Rio Frio, em Mouriscas

Esta GR (Grande Rota) possibilitará visitar ao longo do seu percurso, alguns pontos notáveis na Ribeira da Arcês, cerca de 15 lagares e azenhas, vários açudes, vários quilómetros de levadas, 4 grutas, 2 pontes romanas, 1 barragem, 1 praia fluvial, 1 calçada romana, vestígios de um antigo castelo, e inscrições antigas.

Vários destes locais são descritos em lendas que se encontram publicadas em livros (Lenda da Grade de Ouro ou Lenda da Lapa da Moura).

No Rio Tejo, o canal de Alfanzira do tempo dos Filipes, restos do que foi a Mata Real de Alfanzira, muitas oliveiras milenares incluindo a mais antiga de Portugal com 3 350 anos e muitas antigas pesqueiras. E na Ribeira de Rio Frio, vários açudes, quilómetros de levadas, uma anta, vestígios de extração mineira, uma grande charca e cerca de 10 lagares e azenhas, incluindo a única que está em funcionamento e pertence a Augusto Timóteo.

Caminhada e visita à azenha de Augusto Timóteo na ribeira do Rio Frio, em Mouriscas

Após descer um carreiro íngreme, por fim a vista alcança a ribeira de Rio Frio e a azenha, quadrada como deve ser, sem a forma redonda de moinho de vento, apesar da tarefa de moer cereal ser a mesma. Por isso, não há velas mas rodízios, e mós que dependem da água para, em rodopio, cumprirem a sua missão.

A azenha centenária, construída pelo pai de Augusto em 1916, calhou em herança aos cinco filhos: Vicente, Ramiro, Agostinho, Maria e Augusto. Dentro da azenha, junto das mós, o registo existe em cimento quando este substituiu o apoio do moinho até então em madeira, com a gravação das letras iniciais de cada um dos herdeiros.

Azenha de Augusto Timóteo na ribeira do Rio Frio, em Mouriscas

“Os meus irmãos não ligaram à azenha” explica Augusto, por isso o mais novo dos cinco abalado com a derrocada do telhado decidiu zelar pela herança do pai, que a fizera para “moer o pão da casa”. Embora não pretendesse ser moleiro, custava-lhe ver a azenha abandonada, em declínio, no terreno onde passara a infância. “O meu pai tinha por aqui fazendas, nós vivíamos da agricultura e na azenha moía-se a farinha para o pão e para os animais”, conta no mesmo momento que as mós esmagam  milho para alimentar os pintos.

Lamenta que, atualmente, a agricultura “não dê nada”. O milho que ali semeou diz ser também para sustento das cabras e “para não ver o terreno cheio de balsas”.

No trabalho de zelador, comprou umas “chapas com seis metros de largura” e arranjou o telhado da azenha. As mesmas que a salvaram de ser consumida pelas chamas no incêndio do verão passado. O telhado “estava tapado com lixo” das árvores que ardeu. O metal impediu a passagem do fogo para o interior.

Farinha de milho na azenha de Augusto Timóteo na ribeira do Rio Frio, em Mouriscas

Dias antes da nossa visita, Augusto Timóteo havia moído milho e trigo para a farinha de casa garantindo um pão muito macio, refere, convidando-nos a passar por sua casa para provar. A visita ficou promessa de outra ocasião.

No caso de Augusto, não é preciso ser moleiro para saber da arte: colocar o cereal na molenga, tabelar “com um pequeno ferro que levanta ou baixa a pedra para tornar a farinha mais macia ou mais áspera e a água, que sem ela não há moagem”, explica. Para recolher a farinha serve uma grande caixa de madeira trabalhada por outro mourisquense que sabia manejar plainas, lixas e outros utensílios de carpintaria. Ao lado uma pá igualmente de madeira para retirar a farinha.

A chuva que caiu este ano deixou a água na ribeira de Rio Frio até mais tarde, comparativamente à seca verificada no ano anterior. Preocupações que não assolavam as cabeças das gerações passadas. “Antigamente corria o ano todo. A água não secava na ribeira. Havia sempre aqui boa água” assegura. Culpa os amieiros e as acácias pela seca.

Azenha de Augusto Timóteo na ribeira do Rio Frio, em Mouriscas

Recorda que o pai “tinha muito cereal”, e numera: “trigo, centeio, aveia, milho, favas” e tudo o que fazia falta para alimentar a família. “Éramos sete pessoas a comer à mesa”, justifica. Se a azenha trabalhasse diariamente “dava dinheiro, mas não há!” quem tenha cereal para moer. Lembra-se de tempos em que “era tudo hortas” ribeira abaixo. Por esta altura conta serem muitas as pessoas a amanhar os terrenos, onde hoje reinam as estevas, os matagais e os eucaliptos. “Agora sou só eu, ninguém quer saber do campo”, afirma.

Augusto Timóteo têm três filhas, netos, bisnetos e dúvidas que a azenha e a arte de fazer farinha apegue algum dos herdeiros. “A malta agora quer é papo-secos!” afirma.

Augusto Timóteo em frente ao palheiro

Após deixar Augusto Timóteo, o grupo caminhou ainda até às ruínas daquele que foi um dia o lagar da Cascalhosa, na outra margem da ribeira de Rio Frio, já no concelho de Mação. O percurso levou os caminheiros até ao lugar de Casinhas onde, segundo o povo, estão as oliveiras mais antigas de Mouriscas, seguindo até às Caliças e de lá até ao ponto de partida. Uma caminhada de cerca de 10 quilómetros realizada em pouco mais de três horas.

O projeto vencedor do Orçamento Participativo Portugal de 2017 tem a duração de 12 meses e um investimento de 80 mil euros, que segundo António Louro vão financiar “alguns passadiços que atravessam as ribeiras, sinalética, medidas de segurança e a homologação dos percursos pedestres”.

Caminhada e visita à azenha de Augusto Timóteo na ribeira do Rio Frio, em Mouriscas. António Louro e Aristides Lopes da ACROM

*Publicada em junho de 2018/republicada a 31 de agosto de 2018

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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