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Terça-feira, Outubro 19, 2021

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“Morrer em Agosto”, por Adelino Correia-Pires

A morte é uma chatice. A gente inspira, suspira e de repente apaga-se. Umas vezes nem damos por ela. Doutras, pressentimos e sentimos por tempo de mais.

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Não sei qual a melhor altura para morrer, mas algumas há em que não dá muito jeito. Agosto é uma delas. Quase não se dá por isso. Um ou outro familiar, um ou outro amigo mais próximo, e para além do padre, da funerária e do médico legista, pouca mais gente se apercebe.

Até o funeral é mais triste e, para além do morto que não pode faltar, falta sempre imensa gente. Principalmente aquela que vai pôr a conversa em dia nos casamentos e funerais. Com o óbito dos primeiros, já só o faz nos segundos.

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E assim, quem parte, parte praticamente sozinho, sem dar nas vistas, e só se dá por ele ou pela sua falta, quando, regressados de férias, não o encontramos nos lugares do costume.

Se a morte é ausência e saudade, Agosto é altura de as matar e não de as deixar a quem fica.

Mas, a vida é assim mesmo e, no final do mês, com o regresso ao trabalho, à escola ou à empresa, todos nós, os que por cá continuarmos, daremos então pela falta de alguém que resolveu partir em silêncio e em segredo, para não incomodar, nem nos interromper as férias de Verão.

E então, com o atraso justificado, lá daremos as mais sentidas condolências, aliviados por nos terem poupado ao cemitério e ao velório.

A morte é sempre uma chatice, mas morrer em Agosto é, por vezes, também um alívio. Afinal de contas, são os paradoxos da vida…

Crónica escrita em agosto de 2014, infelizmente, sempre actual.

Nasceu em Portalegre, em 1956, em dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Mais monge que missionário, é alfarrabista no centro histórico de Torres Novas. Vai escrevinhando por aí, nomeadamente no blogue "o tom da escrita" e é seu o livro “Crónicas Com Preguiça”. E continua a pensar que “não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer...”

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