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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

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Montalvo, uma freguesia que quer crescer sem tirar os olhos da sua identidade (c/fotos)

Por Montalvo passa-se para fugir ao pórtico na A23, mas há uma vida maior que espreita para lá das curvas da movimentada Estrada Nacional 3. Nesta freguesia pertencente ao concelho de Constância, encontra-se “um bocadinho de tudo” e são cada vez mais os que a procuram para chamar de casa. Entre o fervilhar das máquinas de uma zona industrial lotada, a azáfama de um centro escolar repleto de crianças e a tranquilidade das ruas onde os momentos de confraternização aguçam o sentimento e a identidade de se ser montalvense, Ana Luísa Manique, presidente da Junta de Freguesia, vai sentindo o pulsar da terra que a viu nascer.

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Da conquista de mais de uma década de luta por uma extensão de saúde, embora com dificuldade na fixação de médicos, à mais-valia de uma junta de freguesia aberta, onde o instalado ATM é um dos pontos de grande afluência, no retrato de Montalvo vimos os olhos de uma terra postos num futuro que se espera passar pela expansão da Zona Industrial, pelo aumento da oferta de habitação e pela preservação da sua identidade.

Outrora anexada ao concelho de Abrantes, desde 13 de janeiro de 1898 que Montalvo é assumidamente uma terra filha do concelho de Constância. Com 12,81 km² de área territorial (a segunda maior freguesia do concelho), ainda hoje há quem faça “a caracterização que as pessoas antigamente faziam entre Montalvo e Montalvinho”.

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“Da fonte para norte é uma parte, para sul é outra. E depois temos o Cabeço, que agora com a divisão da A23 continua a ter ligação de caminho, mas fica ali um montinho no cimo de Montalvo, com três ou quatro casas”, explica-nos Ana Luísa Manique, presidente de Junta de Freguesia desde 2017.

Montalvense de gema, assume-se como “a menina da terra”, sentimento que é comum à generalidade do povo. “A nossa freguesia é de tal forma aguerrida às suas gentes e à sua história que muitas das vezes quando queremos falar de Santa Margarida nós não dizemos as pessoas de Santa Margarida, dizemos as pessoas do outro lado. De facto, [os montalvenses] agarram-se muito às suas raízes. E quando se fala, é mesmo ‘eu sou de Montalvo’ com orgulho”, expõe.

Numa palavra, define Montalvo como “casa”. Uma casa onde há “um bocadinho de tudo”. “Acho que é um sítio onde a qualidade de vida tem vindo a aumentar, não só pelas acessibilidades mas por tudo o que a freguesia oferece. Neste momento, temos um bocadinho de tudo – farmácia, supermercados, comércio local, desde pastelarias, cafés, restaurante”, enumera, sublinhando que as pessoas “não precisam de sair de Montalvo para adquirirem esses bens e serviços”.

ÁUDIO | Presidente da Junta de Montalvo fala sobre qualidade de vida na freguesia

Antes pelo contrário, a tendência tem sido a de entradas em Montalvo. Exemplo disso foi, durante a realização desta entrevista à autarca, o bater à porta da junta de um jovem adulto que se mudou recentemente para a freguesia, a solicitar esclarecimentos sobre assuntos relacionados com a mudança.

“A nossa freguesia, dentro do concelho, é aquela que tem vindo a ter muito mais habitantes e muito mais população. É, das três freguesias, aquela que tem vindo a crescer mais”, admite Ana Luísa Manique. Segundo os resultados preliminares dos Censos 2021, a freguesia de Montalvo tem cerca de 1242 habitantes (sensivelmente menos 33 do que em 2011, sendo a segunda freguesia do concelho de Constância com mais população, depois de Santa Margarida da Coutada).

A autarca admite uma tendência de procura pela terra para viver, cenário que se verifica pela procura de habitação. “A zona urbana de Montalvo já está completamente cheia e julgo que mais houvesse, mais pessoas iriam residir aqui. (…) A nível de habitação já feita ou que as pessoas procurem, já está muito escassa, realmente”, confessa.

“Sinto que existe muita gente jovem a ficar, a ter filhos e neste momento o nosso Centro Escolar, entre pré-escolar e 1.º ciclo, tem 80 e poucas crianças”, acrescenta.

ÁUDIO | Presidente da Junta de Montalvo fala sobre a habitação na freguesia

Uma procura que é consequência, em parte, do calor humano que recebe quem por Montalvo passa e, por outro lado, da dinâmica gerada pelo motor da Zona Industrial, atualmente lotada mas com uma expansão à vista.

“A nível de espaço, já foi debatido que nós gostaríamos realmente que houvesse uma continuidade mais próxima no sentido de onde ela está implementada. O que ficou falado é que vai haver num outro espaço, uma continuidade da Zona Industrial e mais espaço, e será uma mais-valia para o concelho”, adianta Ana Luísa Manique que se mostra favorável à vinda de novas empresas, mas “não poluidoras”, remata.

A intenção de expandir a Zona Industrial de Montalvo foi, entretanto, confirmada pelo presidente da Câmara Municipal de Constância, Sérgio Oliveira, a 29 de julho, referindo a aquisição de seis hectares por parte da autarquia para o efeito.

É também na Zona Industrial de Montalvo que se encontra o maior empregador do concelho: a Tupperware. “Tem sido, desde há muitos anos. Há mesmo muitas famílias – marido, esposa e filhos – a funcionarem todos dentro daquela empresa”, expressa a presidente de junta.

Da zona industrial, a caminho de casa, há uma paragem que se repete por muitos: a ida ao multibanco. É numa das paredes da junta que se localiza o único ATM de toda a freguesia. Uma luta do anterior executivo para que os habitantes não tivessem de se deslocar a Constância para simples operações como fazer pagamentos ou levantar dinheiro.

Mas se, por um lado, o ATM é motivo de maior movimento e vida na freguesia, por outro, é também um dos potenciadores daquela que é, aos dias de hoje, a principal preocupação sentida pela presidente de junta na freguesia que comanda: o piso da Rua Annes de Oliveira, a estrada que é o coração da localidade.

“Nos dias de hoje, aquilo que me preocupa é muito o piso desta rua principal em frente à junta. Temos cada vez mais trânsito a passar mesmo dentro de Montalvo, não só na parte de fora para fugir ao pórtico na A23. Como temos o serviço de caixa automática, há muita a gente a sair da zona industrial que antes de ir para a sua terra, passa aqui e vem ao nosso serviço e acaba por utilizar muito esta avenida. A Rua Annes de Oliveira tem sido um bocadinho fustigada nesse sentido de muito trânsito”, diz Ana Luísa Manique.

Outra das preocupações tem que ver com o cemitério, a ficar sem espaço. “O cemitério para nós é uma situação muito delicada e a que as pessoas são muito atentas. (…) Há já alguns anos que não é ampliado e neste momento temos um cemitério já com poucos lugares vagos”, constata.

Das preocupações para os pontos fortes da freguesia, a presidente da Junta de Freguesia de Montalvo destaca a existência de uma “junta aberta”. Isto é, aberta à população toda a semana, nos períodos da manhã e da tarde, graças à presença de uma administrativa. “A junta, desde que tem estado aberta, temos tido imensa gente a procurar-nos. Seja para declarações, licenças de canídeos, gatídeos. Mas muito a procura da nossa secretária, durante o dia, para até fazer o levantamento na caixa automática. Nós temos pessoas com muita dificuldade em saber mexer e têm confiança total nela e tem sido uma mais-valia a nossa junta aberta. (…) As pessoas recorrem muito à junta de freguesia”, conta.

A adesão tem também sido “muito boa” à mais recente conquista da freguesia, a Extensão de Saúde de Montalvo. Apesar dos atuais constrangimentos devido à falta de médicos – situação exposta já em sede de reunião de Câmara Municipal – Ana Luísa Manique não esconde o contentamento por aquele que é o resultado de uma luta dos montalvenses que já vem de há mais de uma década.

“Nós há 12 anos ainda fizemos algumas vigílias para conseguirmos que hoje o que está ali já tivesse sido feito há mais tempo. Na altura, queríamos muito que houvesse uma continuidade onde ele sempre existiu – na Casa do Povo de Montalvo. A direção de saúde [ARS] entendeu que não seria já mais ali, porque já não tinha as condições exigidas para os dias de hoje”, lembra.

“[A ARS] disse que se o senhor presidente da Câmara tivesse um sítio onde pudesse elaborar essas obras e depois fizesse a cedência à ARS, que estariam de acordo com essa situação e foi aí que foi tudo agarrado e não deixámos fugir essa ideia”, acrescenta.

Extensão de saúde abre em Montalvo (Constância) 12 anos depois de muitas reivindicações. Foto: Ana Rita Cristóvão | mediotejo.net

E se há coisa que o povo de Montalvo também não quer deixar fugir é a sua história. Da Igreja Matriz (século XVIII) ao Convento das Irmãs Clarissas (edifício centenário), passando pelas ruínas romanas da Cidade da Escora (onde há, inclusivamente, escavações internacionais, agora paradas), a riqueza patrimonial de Montalvo não esgota aqui, e a esperança para o futuro é colocada na requalificação da Quinta Dona Maria, cujo projeto de reabilitação está nas mãos de dois filhos da terra.

“Realmente, gostava muito que a Quinta Dona Maria fosse restaurada. Não perdendo a identidade, no sentido daquilo que existiu ali. (…) Era uma forma de mostrarmos quem fomos, quem somos, a identidade do povo de Montalvo. E era também uma forma de as pessoas aqui virem, porque não temos rios aqui ao pé, não tem esse poder atrativo, mas há também muita gente que procura a parte da história”, refere Ana Luísa Manique.

Uma história que se vai escrevendo também com a marca das associações e coletividades, como a Associação Filarmónica 24 de Janeiro (com a banda e uma escola de música), a Casa do Povo de Montalvo (com a promoção das escolinhas do futebol), Os Vikings, o Clube de Caçadores e o Carrapiteiro Bike Team, cada uma de áreas diferentes mas todas “importantes” e responsáveis por levar o nome da freguesia pela qual todos “passam para fugir à portagem” mais além.

Abrantina mas orgulhosa da sua costela maçaense, rumou a Lisboa com o objetivo de se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

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