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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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“Molheira”, por Armando Fernandes

Há tempos no decurso de um jantar formal quanto baste, por isso mesmo um tanto descontraído, as pessoas desconhecidas conhecidas no momento, após se sentarem para iniciarem a refeição apresentaram-se e há sempre alguém a iniciar a conversação, desta feita, uma senhora entendeu ser tema interessante fazerem-se considerações acerca das peças e utilidades colocadas em cima da mesa.

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Confesso à puridade não estar entusiasmado ante a real possibilidade de ser chamado a terreiro, assim aconteceu por causa de uma senhora muito unhas compridas esmaltadas a azul-cobalto, ainda mais nas exclamações e interrogações acerca do aperaltamento da mesa incluindo vidros, metais, faianças e toalhame. Apesar do incessante bater de línguas nos dentes, as palavras não encalhavam no fluir da conversa até à chegada da molheira.

O prato principal, um assado no forno de carne de cordeiro, era acoitado por uma molheira de estanho, bem areada, a qual continha o molho a acentuar a sapidez da carne, isto se os convivas a quisessem amaciar.

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A senhora cacarejava contra a molheira de estanho por ser desse metal, defendia deverem ser as molheiras de louça. Agreste, perguntei: as molheiras devem ser de porcelana ou faiança? De um ou dois bicos? O pé de direito ou alongado assumindo o formato de tabuleiro? As interrogações causaram surpresa e caretas, o volume do espanto aumentou ao acrescentar que o estanho era empregue na construção de artefactos para a cozinha e restantes funções nos lares e adjacências das residências das pessoas dotadas de cabedais pois o metal não era barato. Pense-se nos gomis, nas bacias, nas canecas, nos púcaros, nos pratos e tutti-quanti. Por último acrescentei o esplendor das baixelas de prata, incluindo as molheiras no mesmo metal precioso.

As interrogações receberam divagações como resposta, as molheiras de porcelana e faiança tão bem representadas na cerâmica portuguesa, de dois bicos, que para muitas pessoas as mesmas devem fazer-se acompanhar por uma colher destinada a espalhar o molho sobre peixes e mariscos que o requeiram já não suscitaram interesse, mexericos inseridos nas revistas rosa choque e rosa desmaiado impuseram-se de modo a ser colocado na prateleira dos emudecidos, o que me proporcionou desafogo observador. Se fosse uma audição eleitoral, seguramente, a unanimidade no chumbo estava garantida.

O justamente medalhado tinto Coudel-Mor, da Adega Cooperativa do Cartaxo proporcionou-me grato prazer palatal, assim como a colheita tardia Bridão, da mesma Adega.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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