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“Moderar versus radicalizar”, por Helena Pinto

Todos sabemos que André Ventura vem do PSD e foi apoiado por Pedro Passos Coelho nas eleições autárquicas como candidato à Câmara Municipal de Loures. E não foi uma candidatura inocente, foi uma espécie de teste onde ficou bem claro o rumo que queria seguir. Ensaiou aí as suas frases bombásticas plenas de xenofobia, racismo e apelo ao ódio.

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Saiu do PSD e criou um partido que veio ocupar um espaço que estava vazio na sociedade portuguesa. Não quero fazer uma análise sociológica sobre o aparecimento deste partido (há quem o esteja a fazer) e nem sequer analisar as tropelias que fez no seu processo de legalização. Também não vou ignorar que a votação no CHEGA vai para além do esvaziamento do CDS. E muito menos ignoro que a sua demagogia se baseia, algumas vezes, em problemas sentidos pelas pessoas.

Ser demagogo, fazer discurso rasteiro baseado em frases tonitruantes, é muito fácil. É bom para preguiçosos porque nunca se justifica o que se diz. Quem, pelo contrário, quer desmontar esta demagogia tem muito trabalho e precisa de tempo para explicar o contexto, as razões, os números. Explorar sentimentos primários que levam ao ódio e à violência não é novo, é até bastante velho, a receita é conhecida.

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Repare-se, por exemplo, como está sempre pronta a sair uma acusação contra os “pretos”, os “criminosos que são soltos”, os “ciganos”, ou propostas como a “castração química e física” como medida penal, “arranque dos ovários” como castigo por ter abortado, “prisão perpétua” e até “pena de morte” (!), etc., e é tão difícil ouvir uma explicação sobre quem financia o CHEGA, sobre a actividade extra-parlamentar do seu líder a “aconselhar” empresas como se pode “evitar” os impostos, as sucessivas faltas ao trabalho parlamentar, as contradições constantes (programa político propõe o fim do Serviço Nacional de Saúde com privatização total dos cuidados de saúde), entre muitos exemplos que têm vindo a público.

É por tudo isto que é tão importante não ceder um milímetro à demagogia e ao populismo, não facilitar em nada. Não se deve dar a importância que não têm e muito menos estender a passadeira para a ribalta. Um populista sem ribalta falece.

Por isso é tão grave aquilo que o PSD fez com o Governo dos Açores. Rui Rio pode dar as voltas que quiser mas não consegue justificar a legitimidade de abrir a porta à normalização de um partido como o CHEGA. Aceita-o como parceiro, legitima-o. E não se venha com o “acordo regional”, pois toda a gente já percebeu que é bem mais do isso.

Aliás, Rui Rio sujeita-se à humilhação de gozarem com ele, quando dizem que o PSD é que se deve radicalizar…

Felizmente levantam-se vozes na direita contra esta atitude e ainda bem, saúdo quem tem princípios e os defende.

O caminho aberto pelo PSD é perigosíssimo para a Democracia, que é o valor supremo que aqui está em causa.

Seja a nível nacional, regional ou local quem transigir e facilitar com o pior que existe hoje na política será com certeza responsabilizado.

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Helena Pinto
Helena Pinto, vive na Meia Via, concelho de Torres Novas. Tem 58 anos e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda de 2005 a 2015. É atualmente Vereadora na Câmara de Torres Novas. Escreve no mediotejo.net às quartas-feiras.

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