“Mínimos, a ‘bananização’ do Mal”, por José Rafael Nascimento

“A história dos homens livres não é escrita por acaso, mas sim por escolha. A sua escolha.”
– Dwight D. Eisenhower

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Confinado em casa por imperativo pandémico, a sétima arte ganhou para mim aquilo que a vida social perdeu em tempo de lazer nos últimos meses. Foi a oportunidade de (re)ver obras cinematográficas consagradas, outras nem tanto mas de géneros apreciados e, como não podia deixar de ser, de explorar estéticas alternativas e conteúdos improváveis. Assim cheguei aos Mínimos (Minions) e à ascensão do Maldisposto Gru, o seu querido supervilão.

Os Mínimos são uma metáfora engraçada do servilismo sabujo, lacaio e sem graça, da vida real. Esses seres pequenos em estatura física e moral, básicos na cor, forma, linguagem e raciocínio, vivem para escolher e servir os piores vilões do planeta. Não sendo cegos, também não possuem todos o normal par de olhos, falando um estranho crioulo (minionês) composto por várias línguas – espanhol, inglês, francês, italiano, russo e coreano –, como se quisessem simultaneamente representar e ser aceites por todas as culturas. São eloquentes a dar música e é pouco o que pedem em troca, adorando receber bananas, apenas singelas e deliciosas bananas.

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Podia estar a falar de gente de carne e osso, tanto de mansos parasitas molengos como de jagunços durões e caceteiros. Sendo-lhes franqueadas as portas, buscam e encontram fraterno acolhimento em exclusivas e selectas cortes clepto-autocráticas de países, municípios, instituições ou empresas. Mas não, estou mesmo a falar dos Mínimos, essas simpáticas figurinhas que atraem multidões aos grandes e pequenos ecrãs, facturando muitos milhares de milhões em direitos cinematográficos e de merchandising.

“Não case com um homem que não olhe para si do modo como um Mínimo olha para uma banana.” – Autor desconhecido

A origem dos Mínimos é desconhecida, mas o seu imperativo evolucionário ao longo de mais de 60 milhões de anos parece ser semelhante ao parasitismo observado no mundo natural. O oportunismo e a subserviência, mais do que o Mal ou qualquer ideologia, parece ser aquilo que os motiva a procurar e servir um chefe mafioso, o seu fundamental propósito de vida. Infantilmente alegres, possessivamente egoístas, facilmente distraídos e geralmente ineptos, esta canalha endiabrada e trapalhona dá cabo, todavia, da carreira e da ambição de qualquer arquivilão.

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De facto, os serviços que estes capachinhos acéfalos e incompetentes prestam aos poderes mais sórdidos, é indigente, desprezível e ruinoso, comprometendo o sucesso dos amos que servem e conduzindo-os à desgraça. São pois, paradoxalmente, úteis e inúteis ao poder do amado boss, servindo-o mas destruindo-o. Quem não conhece o papel destrutivo dos yes men na vida real? Já dizia Walter Lippman que “quando todos ‘pensam’ o mesmo, ninguém está a pensar”. Mas o grande vilão não vive sem eles, possuindo até uma arma capaz de transformar inocentes seres humanos em ignóbeis Mínimos.

Ainda assim o cinema favorece-os, não só os elegendo improváveis protagonistas (tradicionalmente seriam escolhidos apenas os supervilões), como lhes atribuindo uma bonomia, um sentido de humor e uma criatividade que a famosa saga nega aos maus da fita. E quem são estes? Para além de Gru e Scarlet Overkill, são também os exemplares purpúreos, opacos, furtivos e trauliteiros que pululam entre os fofos e ternurentos Mínimos. A sua vileza explica-se pelo facto de terem tomado demasiado PX-41, tornando-se “ovelhas roxas” (cor oposta ao amarelo).

“Quem se vê como um Rei, precisa de ter servos e um exército à sua volta.” – Joni Mitchell

O PX-41 – um poderoso mutagénico que torna qualquer organismo vivo numa máquina de destruição peluda, irracional e implacável – é uma espécie de “elixir da brutalização”. Tratados com indignidade, rebaixamento e humilhação pelo supervilão, os pírulas roxos compensam o vexame que sofrem tratando mal os seus compinchas amarelos, a mando do amo abusador ou simplesmente por julgarem que lhe agradam, virando-se também contra ele.

Vítimas de uma espécie de Síndrome de Estocolmo, os “ovelhas roxas” encarregam-se com fiel voluntarismo do trabalho sujo, dissimulando-se tanto quanto podem no anonimato da multidão ou das redes sociais. A Internet é, aliás, o espaço predilecto dos Mínimos, os quais assumem frequentemente a forma de memes e gif’s, (há quem diga que também de trolls) servidos em pequenas e adoráveis doses de bites. Amarelos ou roxos, os Mínimos e os seus supervilões são hoje a mais original e humorística representação metafórica do Mal.

Maioritariamente aceites por quem não se apercebe da sua essência ou desvaloriza o seu desprezível papel, achando-lhes até muita graça, mas rejeitados por aqueles que compreendem a sua natureza e entendem que o comportamento deve ser guiado por princípios éticos e pela primazia da igualdade e do bem comum, os Mínimos conquistaram a simpatia popular fundamentalmente pelo absurdo e o sem-sentido. É simplesmente fixe gostar deles, como quem reconhece com naturalidade uma figura “familiar”.

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“Isto não me ocorre naturalmente, mas tentem ser gentis uns com os outros, este é um momento difícil para todos.” – Palavras de Gru, numa campanha de apoio dos Mínimos à OMS, no âmbito da luta contra a pandemia por COVID-19.

Este facto não surpreende. Os servos e os jagunços (tal como os seus amos e caciques) são criaturas tão antigas quanto a organização social baseada no poder clepto-autocrático, das primitivas estruturas patriarcais, familiares e tribais, aos modernos regimes autoritários e despóticos (alguns formalmente disfarçados de democráticos). Na sua ancestral sabedoria, diz o povo que “quem não tem padrinho, morre mouro”, reconhecendo que nestes regimes os valores ético-democráticos são geralmente subjugados pelo imperativo da sobrevivência.

Na Roma Antiga, eles formavam a guarda pretoriana ao serviço do Imperador, uma unidade de elite que inspirou (e continua a inspirar) outras semelhantes em todo o Mundo, incluindo as temíveis SS nazis. A sua péssima reputação deve-se às operações clandestinas e abusos do poder em que se envolviam, a mando do Imperador ou mesmo contra ele, chegando alguns a ocupar (ou vender) o trono imperial.

Para o historiador britânico Edward Gibbon, os guardas pretorianos “foram ensinados a observar os vícios dos seus senhores com um desdém comum e a evitar o temor reverencial em relação aos seus mestres, que só a distância e o mistério podem preservar”. O seu colega Guy De la Bédoyére, por sua vez, diz que “eles mostraram quão instável é a corda sobre a qual um governante autoritário se sustenta no poder. Ele precisa de apoio para lá ficar, mas a sua guarda tem que ser poderosa para lhe dar esse apoio. E o poder dela pode tornar-se a qualquer momento maior que o seu… acabando com ele”.

Os guardas pretorianos faziam tudo o que o Imperador lhes pedia ou ordenava, desde compor a cenografia imperial até agir como espiões e esquadrões da morte. Imagem de secção do Arco de Claudius, no Museu do Louvre (França).

Na era moderna e contemporânea, os jagunços ganharam importância ao influenciarem os processos eleitorais através da compra do voto. Na sua obra Banditismo e Política, José Manuel Sobral afirma que “a compra de votos é cousa vulgar. No Sábado, véspera da eleição, as notabilidades eleitorais ou os seus agentes, munidos com dinheiro, partem para as aldeias pobres e mais nomeadas pela sua miséria e ausência de ilustração e de escrúpulos a fim de transaccionarem a compra do voto por alguns mil réis”.

O autor acrescenta que “em situações limite, havia ainda o cacete de lódão, ou seja, o recurso à violência física através de bandos de caceteiros e brigões arregimentados por uma ou outra das facções rivais. Estes eram conhecidos por galopins, nome por que eram conhecidos os pequenos influentes eleitorais ou os lugares-tenentes e homens de mão (conhecidos no Brasil por jagunços ou capangas) dos graúdos. Nos primeiros tempos da Regeneração, existem mesmo fortes indícios de uma estreita relação entre alguns famosos bandoleiros e as redes de caciques locais”.

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Servos ou jagunços na vida real, os Mínimos ganharam na obra cinematográfica uma lavagem de imagem que, não branqueando a sua essência desprezível, certamente a amarelou – tingindo-a com a luminosa e divina cor da felicidade, optimismo, energia e criatividade – e nalguns casos arroxeou – cobrindo-a de egoísmo, cobardia, traição, moléstia e perigo. Ao fazer destes últimos os “maus da fita”, reforçou a falácia de que aqueles serão “os bons” quando, na verdade, qualquer crivo ético e democrático atribui pleno sentido à sua infinitésima denominação.

Fingir ou querer ignorar a realidade, favorecendo a progressão e a consolidação do Mal, é também comportar-se como os Mínimos. Uma sociedade decente e justa só existe com cidadãos que abrem bem os olhos, os ouvidos e a boca.

Não é comum gostar-se do Mal e dos indivíduos que o praticam, nem o cinema tem por hábito enaltecer, exaltar ou glorificar o Mal. Todavia, compreende-se que o género humorístico o explore com inteligente ironia, sendo certo que muitos espectadores mais facilmente distinguem e condenam a adulta vilania de Gru e Scarlet Overkill do que a infantil e caricatural sabujice de Kevin, Stuart, Bob e mais 896 obnóxias criaturas, encarada com muita condescendência e pouco sentido crítico.

Por muito divertidos que os Mínimos sejam, não se pode ignorar o abjecto e nefasto papel que desempenham ao serviço dos senhores seus amos. O seu ingénuo e amoral servilismo, servido com infantil e hilariante inocência estão, de facto, às ordens de projectos pessoais de poder assentes no condicionamento da liberdade, justiça e bem-estar da maioria. Rir é, sem dúvida, o melhor remédio, mas a toma destes pírulas amarelos não pode levar-nos à arendtiana banalização do Mal. Quando muito, concedamos-lhes o condão da bananização do Mal.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico. 

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