“Milagres em saldo”, por Aurélio Lopes

A impressão imediata que o fenómeno das novas seitas religiosas nos transmite, é que o campo teológico, durante séculos monopolizado pela Igreja, vem estando, cada vez mais, sujeito a um regime de concorrência que, embora possa chocar piedosas consciências não pode, na verdade, ser ignorado.

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A dinâmica das, assim denominadas, “novas seitas” é um factor que tanto a Igreja Católica como até algumas igrejas reformistas instaladas entre nós, fariam bem em não menosprezar e perspectivar até (porque não) a sua vinda como um desafio. Algo que, eventualmente, pudessem capitalizar a seu favor como um estímulo susceptível de revitalizar as suas comunidades de base (e de topo) hoje em dia mais ou menos amorfas e acomodadas.

É esta uma problematica que, de vez em quando, parece cair no esquecimento público, para irromper depois, bruscamente, quando mediática ou directamente nos entra, literalmente, pela porta dentro.

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Noutras vezes cruzamo-nos, na rua, com manifestações desse tipo. Por exemplo, quando aproximando-nos do carro deparamos, preso ao vidro, não com mais uma famigerada multa de estacionamento, mas com um simpático folheto convidando todos os interessados para uma grandiosa ”Campanha de Curas Divinas e Milagres”, marcada para um determinado dia, entre as 12 horas e as 17 horas, no Teatro Municipal de um determinado burgo.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a duração do acontecimento: convenhamos que, nos tempos que correm, cinco horas de “curas divinas e milagres”, é obra!!

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Mas o que me intrigou, sobremaneira, foram as referências a “curas divinas e milagres” como se de algo diferente se tratasse. E eu a pensar que as “curas divinas” eram “milagres”!

Mas, modéstia à parte, depressa me apercebi da subtileza que o marketing publicitário (ditado, provavelmente, por inspiração divina), aqui envolvia: na verdade as curas divinas são milagres, mas os milagres não são, necessariamente, curas divinas!

É, afinal, uma mera questão de âmbito: é que a “cura divina” envolve apenas a área específica da saúde, enquanto os milagres podem incluir aspectos tão díspares como ganhar no Totoloto, fazer regressar ao seio familiar o “galo de raça” do marido, ficar apurado para o “reality show” do momento ou até ser eleito presidente da Sociedade Recreativa local!

Fácil, não é?! A não ser, é claro, que tudo aquilo não passe de uma questão de semântica. Nesse caso as “curas divinas” constituiriam intervenções da própria divindade. Existiriam, então “curas divinas” e “curas não divinas”, estas últimas que poderíamos denominar de…. digamos,…. curas de inspiração divina!

Todas elas, obviamente, constituiriam do ponto de vista técnico, milagres. Só que uns, directos e genuínos, à boa maneira antiga. Os outros, indirectos, por delegação, e sujeitos com certeza ao necessário “despacho superior”.

É claro que tal hipótese acarreta um problema complementar: se as tais “curas divinas” são na verdade prodígios executados sem intermediários, directamente da divindade para o paciente, então isso exige a presença, mesmo que em espírito, da referida divindade. Ora com o crescente proliferar de milagres (sob a forma de “campanhas” ou não), que a concorrência cultual exige, será que existe divindade que chegue para tanto?

Bem sei que Deus está em toda a parte, mas também,… não exageremos!

Aliás, se pensarmos um pouco, (esta coisa de pensar é, decididamente, um mau hábito) a mesma acarreta, ainda, um outro problema. É que sendo esta uma iniciativa com local e hora marcada, como é que a organização pode garantir a disponibilidade divina para essa hora e local em particular!? Será que existe um qualquer acordo prévio com a mesma? Será que a escolha do tempo e do espaço foi ela própria de inspiração divina?

Agora, do que eu gostei mesmo, foi da expressão “entrada livre”!

Vivemos numa sociedade em que tudo se paga, desde a água que se bebe ao direito a evacuá-la! Em que se paga para trabalhar, se paga por trabalhar e até se paga por não trabalhar! Em que grande parte da massa cinzenta se dedica a idealizar necessidades sociais que, acto contínuo, se tornam hábito e exigem um acrescer de encargos económicos, daí advindo recursos vários para o mundo empresarial, que vão depois financiar novas ideias, novas necessidades, num perpétuo ciclo vicioso.

E dizer que nesta mesma sociedade os “milagres” são ainda grátis! É de facto uma completa subversão da lógica consumista! É algo que conforta os corações e aquieta as consciências!

Até porque o referido folheto/convite vem ilustrado com uma foto de um simpático “bispo”, pelos vistos a estrela da companhia. Um rapaz novo, de olhar sereno, transmitindo confiança a rodos e proporcionando, com certeza, à mais ingénua donzela ou respeitável senhora, o poder entregar-se confiantemente nas suas mãos!

Nas suas não, nas de Deus!

Confesso que apesar de tudo fui ainda percorrido pela dúvida (ah, a dúvida!) de que tudo se tratasse de um equívoco e que apenas as entradas fossem grátis. De facto, em rigor, não é dito em lado nenhum que os milagres são grátis. Ou será que uma entrada dá direito a um milagre de bónus, cogitei?!

Mas, mesmo que o não seja, é certo e sabido que o preço será baixo, reflecti! Uma pechincha, com certeza, ou não estivéssemos em época de “campanha”!

É um facto que o dito papelinho não vem assinado. O que levanta, uma vez mais, algumas interrogações. Será que a organização da dita “campanha” é composta, exclusivamente, pelo dito “bispo”? Será que a sua relação com o divino é assim uma espécie de “face to face”?! Constituirá o mesmo como que um “free lance” do sobrenatural?!

Será uma organização clandestina, procurando fugir às impiedosas perseguições eclesiásticas? Uma sociedade secreta; uma espécie de Rosa-Cruz em versão yuppie?

Ou, pelo contrário, a não revelação da entidade organizadora constitui pura e simplesmente uma genuína demonstração de modéstia que a nossa deturpada e materialista consciência contemporânea não deixa perceber?

São interrogações que ficam, num tempo que passa. Que, acredito, atormentam muitos espíritos de que constituo, aqui e agora, apenas o catalisador da sua compreensível ansiedade. À espera de novos dados que as clarifiquem ou, em alternativa, de um lampejo de inspiração divina que, num ápice, lance finalmente a luz da verdade sobre toda esta enigmática e complexa problemática.

É certo que muitas destas questões teriam sido facilmente esclarecidas com a simples presença na solicitada sessão no dia e hora requeridos. Confesso que estive tentado a participar. Uma “cura divina” é algo que dá sempre jeito e uns milagritos mesmo que modestos (nesta situação de crise) vinham mesmo a calhar.

Mas, pensando melhor, conclui que perderia assim o móbil perfeito e a oportunidade única para estas sublimes reflexões filosóficas que convosco aqui partilho: milagre de discernimento e composição literária só comparável, afinal, à “campanha de milagres” que lhe serve de  inspiração!

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