Segunda-feira, Dezembro 6, 2021

“Mil-folhas”, por Armando Fernandes

Sim, aqueles bolos-cremosos, de várias e finas camadas de massa folhada com kirsch ou compota a entrarem e escorregarem entre os dedos da mão depositária da criação pasteleira. Sim, a criação denomina-se mil-folhas, sendo um exagero, é guloseima tentadora à qual é custoso resistir.

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O bolo é coberto com açúcar glace, ou fooudant e ainda glace royal.  Por norma os mil-folhas são bolos individuais, redondos, quando os pasteleiros enveredam por fazerem bolos maiores os mesmos apresentam-se rectangulares. Seja em que fórmula for este guloso bolo criado no século XIX passou a ser referência obrigatória não só no acompanhar chá e café, também na categoria de bolo finalizador de refeições, sem embargo de muito boa gente o preferir no coroamento de pequenos-almoços mais chegados aos brunchs, do que ao diminuto quebrar o jejum.

A técnica da massa folhada quanto mais fina melhor, também se usa no capítulo dos salgados especialmente a enquadrar massas de crustáceos e peixes. Os leitores do Médio Tejo façam o favor de tentarem mostrar o engenho pasteleiro fabricando mil-folhas, mesmo que nas primeiras tentativas os resultados não sejam muito satisfatórios só o facto de meterem a mão na massa e ingredientes adoçam os dedos de molde a vencerem a tentação levando-os à boca.

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Abundam estudos e radiografias sobre o prazer palatal, dá-se como adquirido que os alimentos ricos em calorias são os grandes responsáveis pela sedução prazenteira do comer e do beber. Pois bem, os mil-folhas repletos de creme causam prejuízos nas silhuetas e robustos lucros na degustação e aumento de peso.

Não vou escrever, hoje, sobre o conceito de que gordura é formusura, porém quando vejo e contemplo pessoas esquálidas, autênticas radiografias do corpo humano penso quão infelizes devem ser. Por experiência sei quanto custa respeitar dietas, fazer exercícios de manutenção, privar-me de iguarias por razões dietéticas.

Se algum nutricionista ler esta crónica faça o favor de desculpar, sim o peso excessivo é prejudicial, é mau, porém um mil-folhas de vez em quando não pode considerar-se um exagero. Os nutricionistas ganhavam se estudassem os provérbios referentes aos comeres e beberes, se “de lautas ceias, estão as sepulturas cheias”, “tudo o que é demais é moléstia”. Sendo assim e é, vou beber chá e comer um mil-folhas arranha-céus. Experimentem!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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