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“#metoo”, por Vânia Grácio

Bom, correndo o risco de voltar a levar pancada virtual por falar em temas fraturantes da nossa sociedade, não posso ficar indiferente ao assunto do momento. A minha tristeza é sobretudo pelo “estado da nação” e pelo facto do sexismo estar tão vincado. Sinceramente, eu acreditava (ingenuamente) que estávamos a mudar de mentalidade, mas não. Parece que os homens continuam a nascer com direitos adquiridos, e as mulheres continuam a ter de lutar pelos seus. Com isto não pretendo tomar posições extremadas, nem isto é uma luta feminista, mas é uma luta pela igualdade entre homens e mulheres, e sobretudo uma luta pela tolerância e pelo respeito pelos outros.

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Bem, mas o assunto de hoje é o programa Pró e Contras da RTP1 e a questão se se deve ou não obrigar as crianças e dar um beijinho aos avós. O choque está na referência aos avós.

Quero acreditar que se o professor Daniel Cardoso tivesse apenas referido que é importante educarmos as crianças desde cedo, de que o seu corpo é seu e que não devem fazer algo com que não se sintam confortáveis, ninguém teria ido à procura de aspetos da vida privada do docente, para o atacar.

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Permitam-me que coloque a hipótese de a afirmação ter sido: “não se deve obrigar as crianças a beijar terceiros, se elas não quiserem”. O que achariam disto? Claro que as crianças devem ser incentivadas a cumprimentar os outros, mas não devem ser obrigadas a um contacto físico, se assim não o desejarem. Seja o avô, a avó ou qualquer outra pessoa. Mas então o cumprimento e a manifestação de afeto só se faz se se der um beijinho? Há tantas, mas tantas maneiras de manifestar afecto.

É falta de educação não querer dar um beijo a alguém? E que significado tem receber um beijo dado de “má vontade”? Julgo que o professor Daniel Cardoso, o psiquiatra Coimbra de Matos e tantos outros especialistas têm toda a razão. Das primeiras coisas que se aprende numa formação de prevenção/ intervenção em abuso sexual é isto mesmo. O respeito pela autodeterminação do outro, o ensinar as crianças a dizer não, quando querem dizer não. Ensinar as crianças e protegerem-se.

E claro que não tem mal dizer às crianças para darem um beijinho aos avós, a questão é a mensagem que estamos a passar quando as obrigamos a fazerem-no quando não querem. Ou seja, desde que alguém com mais poder que eu (neste caso os pais) disser que eu tenho de fazer algo que eu não quero, então é porque tenho de o fazer. Podem pensar que não, mas isto fica lá. E por isso, será aplicado em tudo na vida e daí resultam as relações abusivas e os maus tratos.

Acredito que conseguiremos mudar mentalidades, sem chocar e sem radicalismos. Devagar havemos de lá chegar, mas para isso precisamos que todos e todas estejam disponíveis sequer para ouvir uma opinião contrária à sua, com respeito, e tentar perceber o que o outro quer dizer. Pode, claro, manifestar a sua oposição ao que foi dito, não concordar, mas pelo menos deve ter espírito aberto para tentar enquadrar. É isto que significa viver em democracia.

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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