“Meter a colher entre marido e mulher em tempo de isolamento social”, por Celeste Simão

Foto: DR

Vivemos tempos “estranhos”. Tempos difíceis que nos devem fazer refletir acerca de tudo o que se passa à nossa volta, nas nossas relações profissionais, nas nossas relações familiares, nas relações entre amigos, entre conhecidos, entre vizinhos. Na verdade, acerca da nossa atuação e interação em comunidade, agora mais restrita.

PUB

Reflexões essas que nos devem fazer pensar acerca do que tem sido a nossa atuação em comunidade e na forma como podemos alterar comportamentos se assim for essa a nossa vontade, a pertinência e a importância disso mesmo.

Quando pensamos na problemática da violência doméstica surge-nos de imediato o pensamento que ao longo do tempo temos tentado “desmontar” que “entre marido e mulher temos mesmo que meter a colher”. Agora mais do que nunca é pertinente e emergente disseminar esta mensagem.

PUB

Agora que atravessamos todos e todas uma fase de isolamento social, é urgente que se olhe o fenómeno da violência doméstica com um outro olhar, com “umas novas lentes”. Neste momento partimos de um contexto diferente, um contexto em que as pessoas se encontram confinadas a quatro paredes, em casa. Também para quem continua a exercer a sua atividade laboral é muito provável que o/a confidente não esteja por perto, o que dificulta uma chamada de atenção.

A mulher ou o homem, com maior incidência nas mulheres, não se desloca da forma habitual, o que não lhe permite com facilidade recorrer de forma presencial aos locais habituais para um pedido de ajuda. No entanto, não pode ser esta a razão para que essa ajuda não aconteça. Os números de telefone e os Técnicos de Apoio à Vítima continuam disponíveis, basta-lhes um “sinal” que pode ser um telefonema, uma mensagem, um “recado” passado por alguém da sua confiança.

PUB

Após uma análise às estatísticas da violência doméstica em Portugal e mais concretamente no nosso concelho, os pedidos de apoio/denúncias não “dispararam ainda” de forma abrupta. Também segundo alguns dados recolhidos junto de algumas entidades, os pedidos são até menores do que em períodos homólogos.

Mas não será este facto que nos deve deixar tranquilos, antes pelo contrário, porque vítima e agressor encontram-se a partilhar espaços comuns, não havendo espaço para a denúncia, para o pedido de ajuda e podendo mesmo levar a situações mais graves.

É preciso ver o fenómeno com “outras lentes” conforme já referi. “Lentes” que avaliem o contexto atual e nos projetem para soluções adaptadas à realidade atual.

Torna-se urgente uma discussão com os parceiros habituais, parceiros que atuam em rede, em verdadeiras redes de partilha, encontrando soluções complexas porque também este é um problema complexo. É hora de pensarmos que  “o todo é muito mais que a soma das partes”. E o todo diz respeito à partilha da informação, à partilha na reflexão, à partilha dos recursos e à partilha das soluções desenhadas no local numa perspetiva de uma verdadeira comunidade colaborativa.

A violência doméstica continua a ser um crime público independentemente do contexto onde  a mesma se desenrola, continuando por isso mesmo a ser da nossa responsabilidade denunciá-lo protegendo as vitimas.

Devem ser chamados outros parceiros que se encontrem no terreno, no desenvolvimento das medidas de combate à COVID-19 e que estando próximos das pessoas poderão trazer um enorme contributo na sinalização de casos que observarem ou suspeitarem. Serão estes que, no desenvolvimento da sua atividade, encontrarão indícios que será preciso averiguar.

Este período exige de nós uma maior responsabilidade, uma maior participação, na verdade, um apelo a uma maior cidadania ativa.

Vivemos um tempo que apesar de separados, temos que estar muito atentos ao que se passa na nossa comunidade, respeitando as orientações da Direção Geral da Saúde mas também estando muito atentas/os ao que se “passa na casa ao lado da nossa” com os nossos vizinhos, porque disso pode depender ganharmos esta “guerra da violência doméstica” e ajudarmos alguém próximo de nós e que pode estar a precisar de ajuda.

Assim fiquemos em casa enquanto for necessário e a Direção Geral da Saúde aconselhar, mas mantenhamos também a nossa atenção no que se passar mesmo ao nosso lado.

E se for necessário, não hesite. É um dever de todos nós. Cuidar dos nossos mas também da nossa comunidade.

*Celeste Simão é vereadora com o pelouro da Ação Social na Câmara Municipal de Abrantes

 

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here