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Memória | O exemplo que perdura de Eduardo Duarte Ferreira, 165 anos depois do seu nascimento

Eduardo Duarte Ferreira nasceu no Tramagal, no concelho de Abrantes, no dia 10 de fevereiro de 1856 e morreu já há mais de 70 anos, mas permanece bem viva na comunidade a memória deste homem visionário e com um raro espírito empreendedor, numa época em que a palavra ainda nem sequer entrara no nosso vocabulário.

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Foi apenas registado no dia seguinte mas para mais nada na vida se atrasou. Uma das características que lhe notavam era a de andar sempre muito depressa, vestindo o mesmo fato escuro, apoiado num guarda-chuva preto, de inverno ou de verão; a outra era a de ser um homem de poucas falas, mas muito claro sobre o que queria. A sua determinação marcou cada passo de um percurso ímpar no pobre e iletrado Ribatejo de então. Talvez tenha mesmo recebido uma graça especial por ter como madrinha de baptismo Nossa Senhora da Oliveira, orago da paróquia do Tramagal.

Passaporte de Eduardo Duarte Ferreira. Créditos: Espólio da família Duarte Ferreira/DR

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Para montar a sua primeira forja, em 1879, passou 36 dias a enganar o estômago com pão duro e uns queijos que levara de casa, e a dormir a um canto da Antiga Fundição do Ouro, no Porto, para aprender mais sobre o ofício. Quando voltou a casa, imundo e esfomeado, aos 22 anos, comprou uma caldeira velha, transformou-a em forno de fundição, fez um tosco ventilador centrífugo e reforçou o manejo existente com duas mulas. Por tentativa e erro foi conseguindo pequenas vitórias, breves minutos de glória que compensavam as horas exposto ao calor do ferro. O esforço era tal que os seus olhos inflamados já não suportavam sequer a luz do sol. Era habitual desfalecer de cansaço ou dormir os domingos inteiros, sem acordar sequer para comer.

Precisava de mais braços. Por isso, e apesar do dinheiro ser pouco, contratou Joaquim da Silva Pereira, para o ajudar a dar ao fole enquanto ele malhava o ferro. O carácter rudimentar da oficina não facilitava o trabalho de fundição e os tramagalenses gozavam com Duarte Ferreira:
– “Ó Eduardo, se conseguires fundir ferro ganhas um carneiro!”
Esse dia chegou, em 1882, quando fundiu cerca de 100 quilos de metal. Orgulhoso, foi reclamar o animal prometido e deu uma festa para todos.

Durante anos, ninguém acreditava nas capacidades daquele rapaz ou no potencial do que ele queria desenvolver, mas ele nunca desistiu. O seu pai, barqueiro no Tramagal, duvidava que o negócio pudesse vir a ter sucesso e dizia-lhe que “se isso fosse mel já os outros o tinham lambido…” Mas Eduardo convenceu-o a deixá-lo arriscar a sua sorte, pedindo um empréstimo de 50 escudos a um primo:
– “Sempre tenho ouvido dizer que quem vem adiante ganha qualquer coisa, e então os outros dizem: ‘Ganhou-o em bom tempo…’ Eu menos que ferreiro, se tiver saúde, não deixo de ser. Se puder ser mais alguma coisa, porque não tentar consegui-lo?”

Entre o dia em que o jovem Eduardo ergueu a sua forja, em 1879, e a data da extinção da Metalúrgica Duarte Ferreira, em 1995, passaram 116 anos. Muitos dos edifícios onde a marca da borboleta fez história, e onde chegaram a trabalhar 2 000 operários, ficaram vazios de gente, congelados em silêncio.Outros ganharam nova vida, albergando as empresas Frutrifer e Futrimetal, do Grupo Diorama, de Joaquim Dias Amaro – ele próprio um produto da formação de excelência fomentada na Metalúrgica, onde começou a trabalhar aos 14 anos, e que recentemente cedeu parte das instalações (os antigos escritórios) para albergar o Museu MDF. Outra parte das instalações está ocupada pela empresa gerida por Joaquim Cruz Martins,que continua a usar a sigla MDF, na área da fundição, e na antiga linha de montagem da Berliet, de onde saíram milhares de camiões para a linha da frente da guerra no Ultramar, constroem-se, desde os anos 80, camiões da Mitsubishi Fuso sob a gestão de Jorge Rosa, outro quadro formado na MDF, pertencendo hoje esta unidade industrial à empresa alemã Daimler.

A nova sede da fábrica Duarte Ferreira & Filhos à data da sua inauguração, em 1920. Neste edifício existe hoje o Museu MDF. Créditos: Espólio da família Duarte Ferreira/DR

Para lá da obra edificada, das máquinas agrícolas, lagares, noras, turbinas, peças de automóvel, navios e camiões que ali ganharam vida, ficará sobretudo o legado do fundador Duarte Ferreira. Foi um exemplo de solidariedade com os trabalhadores – criou um sistema pioneiro de Previdência no país e quis dar-lhes boas condições de vida, tradição que as gerações seguintes da família Duarte Ferreira mantiveram – e um sentido único de humildade, até ao fim.

É curioso constatar que os seus hábitos de homem simples não eram bem vistos pela sociedade da região, que o considerava um “bicho raro”. Comentavam não ser normal que continuasse a trabalhar e a “sujar a roupa”, como fazia, uma vez recebido o grau de Comendador e atingida uma determinada posição social. Mas o industrial considerava o trabalho gratificante. Para ele, nunca foi um sacrifício. A inovação, era, mais que um prazer, uma missão.

O Comendador Eduado Duarte Ferreira contempla o Tejo em Tramagal. Créditos: mediotejo.net

É tudo isso que, mais do que ver, se pode sentir ao visitar o Museu Metalúrgica Duarte Ferreira, eleito “Melhor Museu do Ano em 2018” pela Associação Portuguesa de Museus. “Eu vencerei a morte, se a minha obra não morrer”, disse à nora, Maria Basto, já bastante doente. Preservada a memória do voo triunfal da sua borboleta, está cumprido o seu desejo.

Partes deste texto foram escritos originalmente pela autora para o livro “Metalúrgica Duarte Ferreira 1879-1997 | Uma história em constante metamorfose”, uma edição da Câmara Municipal de Abrantes (2017), à venda no Museu MDF, no Tramagal, e na Biblioteca Municipal e no Welcome Center, em Abrantes. Patrícia Fonseca assinou também a biografia de Eduardo Duarte Ferreira (“Nas Asas de uma Borboleta”), publicada nos 150 anos do seu nascimento, em 2006.

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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