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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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Médio Tejo | Vozes de Ourém e VN Barquinha à solta nos Caminhos da Pedra

Um ponto diferenciador nos programas do projeto Caminhos são os momentos em que os habitantes locais se transformam em artistas. No caso dos Caminhos da Pedra deste ano, o projeto de comunidade chama-se “Voz à Solta” e encurtou a distância entre Ourém e Vila Nova da Barquinha. Acompanhámos o primeiro ensaio conjunto dos cerca de 70 elementos com o diretor artístico Rui Sousa, que apresentam o espetáculo “Marcha das Almas” nos respetivos concelhos este sábado e domingo, dias 20 e 21.

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Os Caminhos da Pedra deste fim-de-semana representam o encerramento da programação global dos Caminhos de 2018. Os artistas começaram a percorrer a região no passado dia 12 e só terminam no próximo domingo, dia 21. Aos ligados à música, circo contemporâneo, teatro e dança juntam-se agora os do projeto de comunidade “Voz à Solta”, que envolve habitantes dos concelhos de Ourém e Vila Nova da Barquinha.

Ensaio do projeto “Vozes à Solta”. Foto: mediotejo.net

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Os ensaios começaram por ser locais e, na passada quinta-feira, dia 11, o grupo reuniu-se pela primeira vez no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha. À espera deles estava o diretor artístico do projeto, Rui Souza, preparado para continuar a dar forma ao espetáculo “Marcha das Almas”, que é apresentado na Praça Luís Kondor (Fátima, Ourém), este sábado, e no Largo 1º de Dezembro (Vila Nova da Barquinha) no domingo.

Antes de descobrirmos estas vozes que vão andar à solta na região durante este fim-de-semana, conversámos com o jovem de 28 anos ligado às áreas da experimentação vocal, música e teatro e foca o seu trabalho nas questões política e social, abordando-as “de forma mais filosófica”. Um cunho artístico presente no espetáculo em que as ruas dos dois concelhos são invadidas a partir das 18h00 por músicas tradicionais e temas da sua autoria.

Até chegar às ruas do Médio Tejo, Rui Souza começou por trilhar as que davam para a igreja nos tempos da infância, onde a mãe o obrigava a ir à missa. Aquele caminho acabou por definir muitos dos que se seguiram pois foi no templo religioso que descobriu o órgão de tubos, com o qual mantém forte ligação nos dias de hoje. Começou por aprender a tocar o instrumento com professores particulares e seguiu-se a formação superior em piano.

Rui Souza durante o ensaio. Foto: mediotejo.net

Dos ensinamentos académicos, partiu para “linguagens mais alternativas”, refere, associadas a sintetizadores, eletrónica e sintetização vocal. Continuou a trilhar a cultura cruzando-se com projetos de experimentação vocal, teatro e música que, atualmente, passam pela Associação Outra Voz e o Teatro da Didascália. O percurso trouxe-lhe, igualmente, o trabalho desenvolvido com a comunidade, ao qual dá continuidade com o projeto “Voz à Solta”.

À voz, que encara como elemento primordial e “veículo de união”, juntou o “amor” que diz estar presente neste tipo de projetos. Acrescentou a marcha “como princípio comum” das questões políticas e sociais e não esqueceu a vertente religiosa, na qual as procissões desempenham “um papel muito forte”. O resultado é uma “Marcha das Almas” em que se caminha para dar voz às ideias num momento em que “se celebra ou enterra alguma coisa”.

Ensaio do projeto “Vozes à Solta”. Foto: mediotejo.net

O processo criativo não foi feito de forma isolada. Rui Souza destaca que o sentido só ficou definido depois de ouvida a comunidade e que o espetáculo traduz a vontade do todo.

Em suma, não se vão ouvir vozes isoladas, mas uma “voz interior, que é essa força de toda a gente que concorda com isto que está a acontecer”. Voz conjugada com o movimento do corpo, influenciando-se mutuamente ao longo dos metros percorridos com o objetivo de “dizer qual é nosso tamanho na terra” – referência ao tema “Quando eu for grande (carta aos meus netos) -, de José Mário Branco.

Questionado sobre o andamento do trabalho desenvolvido com os artistas amadores dos dois concelhos, Rui Souza, responde que “está a ser muito bom”. O maior desafio deste tipo de projetos, refere, é a necessidade de gerir “os egos” e a “concentração” num grupo tão numeroso de modo a conseguir “por toda a gente em uníssono e a amarem-se”.

Uma vez atingido o equilíbrio, diz que a recompensa surge com um espetáculo em que “as pessoas dão tudo e é um absurdo de bom”.

Uma vez conhecido o diretor artístico, seguimos para o ensaio, que mostra um pouco do espetáculo “Marcha das Almas” e o ambiente de procissão está sempre presente, fazendo lembrar as colchas nas varandas e as velas antigamente protegidas do vento pelo papel que tantas vezes chegava queimado ao fim do trajeto.

Uma manifestação de fé quando cantam “derrama, Senhor, derrama o seu amor”, acompanhada pelo “Alerta” político e social quando as vozes cantam “quando eu for grande, quero ser uma pedra no asfalto, o que estou lá a fazer só se nota quando eu falto”.

Tema “Alerta”, no ensaio do projeto “Vozes à Solta”

O grupo é composto por cerca de 70 vozes individuais e de elementos de entidades de ambos os concelhos. No caso de Vila Nova da Barquinha, participam o Grupo de Cantares do Grupo de União e Recreio e a Universidade Sénior da FOS – Formação Ocupacional de Seniores e, no caso de Ourém, o Rancho Folclórico “Os Moleiros da Ribeira”, a AMBO – Academia de Música Banda de Ourém, e o Grupo de Cantares Populares das Fontaínhas.

Começaram a reunir-se nos ensaios abertos nos dois concelhos, individualmente, no passado mês de setembro e mantiveram-se a bom ritmo até ao primeiro ensaio conjunto no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha.

A recebê-los estava Marina Honório, a vereadora da Cultura do concelho anfitrião, que partilhou tratar-se de um projeto desafiante e envolvente, no qual se denota que “as pessoas estão a gostar bastante e a tomar o projeto como seu”.

Ensaio do projeto “Vozes à Solta”. Foto: mediotejo.net

Enquanto as vozes ecoavam no auditório, a vereadora acrescentou que também é marcante pois “fica nas pessoas, fica com a comunidade, marcado na alma de cada um dos participantes e, certamente, quando for apresentado no dia 21 irá marcar todo o público”.

A estreia está agendada para o dia anterior [sábado] em Ourém, que neste ensaio conjunto, tal como nos ensaios abertos neste concelho, esteve representado institucionalmente por Ana Saraiva.

Apesar de estar nas cadeiras da plateia, não é como público que a encontramos. A chefe de gabinete da Divisão de Ação Cultural do município ouriense começou a acompanhar os ensaios como espectadora e a vontade de se juntar às “Vozes à Solta” fez com que hoje faça parte do grupo.

Uma experiência que diz estar a “adorar” e caracteriza como “muito gratificante a título profissional e pessoal”, enquadrada num projeto “verdadeiramente de comunidade”.

À semelhança de Marina Honório, destaca o envolvimento dos que se juntaram para soltar a voz na “Marcha das Almas”, a par da singularidade do repertório “que tem muito de cancioneiro popular e no qual as pessoas também se reveem”.

Outro ponto que Ana Saraiva destaca é a heterogeneidade dos elementos do grupo que, diz, “entraram neste processo desde o início e há aqui muita cooperação”, concluindo que “criou-se uma equipa”.

Marisa Silva com a mãe e a vizinha no final do ensaio. Foto: mediotejo.net

Também no grupo, encontramos a barquinhense Marisa Silva que teve conhecimento do projeto depois do primeiro ensaio aberto. Decidiu juntar-se pelo “gosto” pelo canto e aceitou o convite porque gosta de “experiências novas”.

Com ela trouxe a mãe e a vizinha, Ana Lourenço e Anabela Cunha, e encara o primeiro ensaio conjunto como “o culminar daquilo que temos ensaiado”, acrescentando que as três estão “a gostar bastante” de fazer parte de algo “diferente”.

A particularidade de se tratarem de vozes da terra é considerada muito positiva pela educadora de infância, gerando oportunidade a pessoas que “gostam de participar nas artes e na diversidade de atividades que poderíamos ter e nem sempre participam porque têm vergonha ou não sabem como o devem fazer”.

Igualmente importante no tipo de projetos como aquele em que agora participa é o contacto com habitantes de outros locais, considerado “uma mais valia para nós e para o concelho, por isso deve continuar”.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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