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Médio Tejo | Verão sem espetáculos deixa artistas no limite da sustentabilidade

Cancelados ou adiados os espetáculos, o facto é que, para já, este vai ser um verão muito parco em eventos no Médio Tejo (e no país). O mundo artístico está em pânico e há quem preveja que não vão ser permitidos grandes ajuntamentos até ao final de 2020. A situação deixa artistas e empresas de audiovisual no limite da sustentabilidade e as respostas do Governo têm sido escassas para o setor. Afinal, este vive exatamente da multidão, da proximidade, do calor humano.

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Três associações ligadas ao mundo do entretenimento apontaram esta semana para um “cenário dramático” no setor dos eventos, espetáculos e festivais, cancelados ou adiados devido à pandemia de Covid-19, além de alguns artistas e agentes de espetáculos com quem falámos.

Num comunicado conjunto, a Associação Portuguesa de Festivais de Música (Aporfest) indica que todos os festivais e festividades foram cancelados ou adiados desde 4 de março; a Associação Portuguesa das Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos (APECATE) contabiliza mais de 300 milhões de euros de cancelamentos e dá conta de empresas totalmente fechadas até setembro; e a Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos (APEFE) destaca os mais de 100 mil postos de trabalho afetados e os mais de 25 mil espetáculos e festivais com entradas pagas cancelados ou adiados, apenas no período de 8 de março a 31 de maio.

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“Todos juntos na solução da crise” é o lema do apelo lançado pelas três associações, alertando que promotores e organizadores de eventos, artistas, técnicos e profissionais de espetáculos e eventos, empresas de audiovisuais e salas de espetáculos “viram a sua única fonte de receita suspensa”, sem data de fim.

“Os nossos setores estiveram sempre na primeira linha para ajudar a sociedade em momentos de crise, organizando e participando em eventos de angariação de fundos pro bono, em situações difíceis”, recordando, para justificar o pedido de ajuda.

As associações avançam com algumas medidas concretas: inclusão dos sócios-gerentes no apoio lay-off, manutenção dos orçamentos dos setores públicos para os eventos e a cultura, e injeção de dinheiro nas empresas do setor, “que foram as primeiras a fechar a atividade e serão, muito provavelmente, das últimas a retomar a mesma”.

Além disso, antecipam, “os eventos adiados têm custos duplicados e uma incerteza no que toca à sua realização, sendo que a confiança e o poder de compra do público estão comprometidos”.

Foto: Pixabay

Para já, avança a Lusa, a Assembleia da República aprovou na quarta-feira, 8 de abril, duas propostas incluídas num projecto de lei do Bloco de Esquerda (BE) que prevêem o pagamento, por entidades públicas, de espectáculos cancelados como se se tivessem realizado.

Numa maratona legislativa, o projecto de lei do BE foi aprovado, com os votos a favor de PS, BE, PCP, PAN e da deputada não-inscrita Joacine Katar Moreira, mas a aprovação só foi feita em relação a duas alterações de um artigo do decreto-lei de 26 de Março, que regula os espectáculos cancelados ou adiados, sendo o resto do projecto de lei rejeitado.

Em concreto, as duas alterações dizem respeito ao artigo 11.º, que visa os “espectáculos promovidos por entidades públicas”, explicitando que essas mesmas entidades devem garantir “o pagamento de todos os valores devidos, em razão da actividade que venha a ser cancelada, a todas as pessoas, singulares ou colectivas, incluindo autores, artistas, trabalhadores e prestadores de serviços, pelo montante total contratado ou previsto, como se a actividade fosse realizada na data prevista para o efeito”.

“Nos casos de adiamentos e reagendamentos, a realização dos pagamentos nas datas previstas antes do cancelamento ou adiamento e, o mais tardar, na data que se encontrava inicialmente agendada, num mínimo de 50% do valor acordado, sem prejuízo de negociação com vista à recalendarização da actividade”, acrescenta o documento, que estabelece que os contratos devem ser finalizados mesmo quando a programação foi apenas anunciada.

O outro ponto aprovado do projecto de lei do BE abrange os “intermediários”, definindo que sempre que os pagamentos forem feitos a “agentes, produtores e companhias de espectáculo ou a quaisquer outros intermediários, devem estes, no prazo de dez dias úteis, após receberem o pagamento da entidade pública contratante, utilizar um valor não inferior a 80% dos montantes recebidos para efectuar o pagamento proporcional e equitativo aos trabalhadores envolvidos, designadamente autores, artistas outros profissionais e empresas que tenham sido contratados para o espectáculo em questão, sem prejuízo da cobrança proporcional de comissões que lhes sejam devidas”.<

Os demais artigos do projecto de lei foram chumbados, com os votos contra de PS, PSD e Chega e as abstenções de CDS e Iniciativa Liberal. O PCP anunciou que iria apresentar uma declaração de voto.

Agentes culturais da região antevêem ano negro
Das festas religiosas à programação mais associada ao verão, boa parte das atividades culturais dos municípios do Médio Tejo já foram canceladas ou adiadas. A par da agenda pública há também os concertos que se centravam nos bares, também cancelados com o estado de emergência. Num cenário de incerteza, os artistas locais têm a vida suspensa e contas que não sabem como irão pagar.

“Foi desastroso” o impacto da pandemia na agenda da banda Fun2Rock, admitiu um dos elementos ao mediotejo.net, Fernando Espanhol. “Nós deixámos de trabalhar completamente”. O número de espetáculos cancelados é de difícil contabilização, referiu, uma vez que no verão costumam atuar quase todos os dias. Neste momento, adiantou, teve espetáculos adiados de maio para outubro e toda a situação é, no geral, de extrema incerteza.

Os Fun2Rock vivem da música e viram os seus espetáculos serem todos cancelados

“Temos o nosso futuro penhorado”, confessou, e “não sei se não vou ter que arranjar outra profissão para fazer face à despesa”, uma vez que vive exclusivamente da música. Por tal, argumenta que o melhor apoio que poderia ser dado aos artistas neste momento era não serem cobradas, em definitivo, determinadas despesas, como a habitação, a água ou a luz.

“O Governo esquece-se que o país vive muito da cultura e apoio à cultura não existe”, comentou Fernando Espanhol.

Também Bruno Gomes, acordeonista e professor de acordeão de Ferreira do Zêzere, viu a sua agenda de espetáculos subitamente cancelada. “Tudo aquilo que eu tinha foi cancelado ou adiado”, afirmou ao nosso jornal, acrescentando que neste momento “todas as organizações têm algum receio em marcar uma nova data porque não sabem o que vai acontecer”.

Esta inquietação estende-se a outras áreas, adiantou, mesmo as que vivem de voluntariado. Estando ligado a um rancho, Bruno Gomes apercebeu-se que há atualmente o receio dos grupos se reencontrarem após este período de isolamento e haver transmissão do vírus, colocando assim em causa a própria agenda remanescente. “Vamos ter um ano extremamente difícil”, constatou o artista.

“Daquilo que eu vejo há muita coisa a ser adiada para setembro, outubro. O problema é que depois vai haver muita coisa para tão poucos dias”, refletiu.

Bruno Gomes, acordeonista

Sendo também autarca, Bruno Gomes considera que deve haver da parte dos municípios algum “bom senso” no que toca à questão cultural. “Tudo aquilo que foi adiado deveria ser feito, mais cedo ou mais tarde”, propõe, uma opção que daria alguma segurança aos artistas. Outra sugestão que deixa é apostar-se num programa cultural online. “Isto só funciona melhor em municípios maiores”, reconheceu, mas seria uma alternativa.

Dora Conde, do grupo de teatro “Apolo”, já teve espetáculos cancelados e aguarda agora uma decisão sobre a participações da equipa de atores do concelho de Ourém em recriações de época em Leiria, que ainda não foram oficialmente canceladas. Sendo um grupo amador não está dependente financeiramente da realização dos espetáculos, mas se o dinheiro não vier vai colocar em causa outros projetos da equipa.

“Estamos com obras, com remodelação de palco, camarins, plateia. Tivemos que fazer uma pausa”, admitiu a responsável. Quanto ao resto do ano, ainda é difícil para este grupo de teatro definir uma agenda, dado ser uma situação toda ela inesperada. “Ainda não sabemos como vai ser o segundo semestre”.

Alguns elementos da equipa da empresa Cor do Som. Foto arquivo: mediotejo.net

Ricardo Casimiro, da produtora de espetáculos “Cor do Som”, teme neste momento que todo o cenário de paralisação cultural, nomeadamente a proibição de ajuntamento de um elevado número de pessoas, perdure até ao fim do ano. Os seus receios e os do seu setor podem ser encontrados na página “Movimento Cancelado“, onde são apresentados alguns dos números em causa, nomeadamente um prejuízo estimado de 300 milhões de euros na produção de espectáculos e audiovisuais com a pandemia. O responsável aponta ainda para um impacto direto em 2500 postos de trabalho.

“Neste momento estamos com trabalho zero”, adiantou ao mediotejo.net, esclarecendo que a sua empresa trabalha sobretudo com aluguer de equipamentos de espetáculo, os quais requerem avultados investimentos anuais. “Vamos ficar com dificuldades em fazer face aos compromissos que temos. Não vamos conseguir faturar, não vamos conseguir pagar”, constatou.

Não há eventos até agosto, em setembro há alguns reagendamentos, mas tudo é muito incerto. Ricardo Casimiro apela assim por “medidas concretas e abrangentes” para o setor cultural e de produção de espetáculos, a fim de que também este sobreviva à pandemia.

c/LUSA

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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