Médio Tejo | Região tem 7 Finalistas apurados para as 7 Maravilhas da Cultura Popular

O Médio Tejo assegurou uma forte representatividade nos finalistas regionais às 7 Maravilhas da Cultura Popular, sendo que a região apurou seis em sete tradições – Mação (com duas), Sardoal, Alcanena, Constância e Torres Novas, para a final regional do distrito de Santarém. Também a Sertã viu uma candidatura apurada para final regional em Castelo Branco. No último domingo do mês, dia 28 de junho são divulgados os números de telefone para poder concorrer e votar nos candidatos distritais. Saiba quais são as tradições da cultura popular apuradas para as eliminatórias regionais das 7 Maravilhas da Cultura Popular.

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Na região do Médio Tejo, o concelho de Mação vai apresentar-se na final distrital de Santarém com duas nomeações – o barco picareto e as velas de Cardigos -, Sardoal apurou-se com a tradição das capelas enfeitadas com tapetes de flores, ao passo que Constância vai mostrar a Festa em Honra de Nossa Senhora da Boa Viagem. Torres Novas apresenta-se na final regional com a Bênção do Gado de Riachos e Alcanena com as tradicionais mantas de Minde. Por fim, Coruche e a sua cestaria de junco completa o leque de finalistas regionais do distrito de Santarém candidatos à 7 Maravilhas da Cultura Popular.

No distrito de Castelo Branco, mas ligado à região do Médio Tejo, o município da Sertã viu ser apurado, na categoria de Música e Danças, o projeto “Cancioneiro Tradicional da Beira Baixa”, protagonizado pelo músico Miguel Calhaz, natural da Sertã.

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No dia 7 de junho foram dados a conhecer os 140 Finalistas Regionais da Cultura Popular, num programa em direto, na RTP1, resultados que derivaram da avaliação de um painel de especialistas e que teve ao seu cuidado a missão de selecionar 7 candidaturas por cada distrito. Seguem-se agora as eliminatórias regionais, as meias-finais e a grande final, onde serão eleitas as 7 Maravilhas da Cultura Popular.

A região do Médio Tejo teve 32 patrimónios nomeados e candidatos às 7 Maravilhas da Cultura Popular entre o total de 471 nomeados de norte a sul do país e das ilhas. Com usos, costumes e tradições candidatos a esta edição do concurso estiveram representados os concelhos de Abrantes, Alcanena, Constância, Entroncamento, Ferreira do Zêzere, Mação, Sardoal, Sertã, Tomar, Torres Novas e Vila de Rei. Nos concelhos limítrofes também Chamusca e Ponte de Sor apresentaram candidaturas.

Recorde-se que a eleição das 7 Maravilhas da Cultura Popular representa a nona edição do concurso realizado desde 2007. Já foram realizadas edições relacionadas com Património Histórico de Portugal e de Origem Portuguesa no Mundo, bem como Património Natural, Gastronomia, Praias, Aldeias, à Mesa e sobre os Doces típicos.

Calendário das próximas fases do concurso 7 Maravilhas Cultura Popular

Depois da Organização das 7 Maravilhas de Portugal® ter recebido 504 candidaturas ao seu concurso de 2020, dedicado à Cultura Popular, o Painel de Especialistas composto por 7 elementos de cada um dos 18 distritos e 2 regiões autónomas, elegeu 7 patrimónios de cada região, num total de 140 finalistas regionais, que participarão nas respetivas eliminatórias regionais, em antena a partir do dia 6 de julho na RTP1 e RTP Internacional.

Estas 20 finais regionais correspondem a 20 programas em direto, a transmitir no mês de julho, a partir dos municípios mais pequenos que estiverem a concurso, onde serão diretamente apurados os 20 vencedores, através do maior número de votos populares.

Segue-se um programa de repescagem, a realizar no dia 16 de agosto, onde o voto popular decidirá quais os 8 repescados, a partir dos 20 segundos classificados nas finais regionais. Estes 28 semi-finalistas serão distribuídos por critérios de proximidade geográfica, em duas semi-finais, que irão apurar os 14 finalistas, a realizar nos dias 23 e 30 de agosto.

A 5 de setembro será efetuada a Declaração Oficial das 7 Maravilhas da Cultura Popular® – SICAL, no prime-time da RTP. No último domingo do mês, dia 28 de junho, são divulgados os números de telefone para poder concorrer e votar nos candidatos distritais.

Os finalistas do distrito de Santarém, um a um

Benção do Gado, em Riachos (Torres Novas

Torres Novas – Festas e Feiras – Festa da Bênção do Gado – Riachos

A Festa da Bênção do Gado retoma uma tradição rural cuja origem se perde na memória dos tempos e revela a marca identificadora desta terra, das suas gentes e das suas raízes.

Em honra de S. Silvestre, patrono dos lavradores, dos campos e protetor dos animais, no início do século passado, a Festa ainda se realizava todos ou quase todos os anos, normalmente no mês de junho (algumas realizaram-se em maio, outras em julho), antes das colheitas de verão, tendo perdido a sua regularidade a partir da década de 30, passando a realizar-se apenas em anos de exceção, para celebrar momentos altos da terra ou quando se juntavam vontades à volta da entidade organizadora, a Sociedade dos Cingeleiros, organização de socorros mútuos dos lavradores e criadores de gado riachenses e, esta entendia ser oportuno a sua realização.

1905, 1908, 1909, 1923, 1925, 1926, 1927, 1928, 1929, 1930, 1931 e 1935 são datas que se conhecem.

Coincidindo com a inauguração da luz elétrica na então aldeia e com a inauguração da Casa do Povo (instituição) em 1937, realizou-se, sob um figurino renovado e abrangente, aquela que foi considerada a primeira Grande Festa da Bênção do Gado, voltando a repetir-se o sucesso só após 16 anos, em 1953. Depois, em 1966, 1973, 1985 e 1993.

Com a fundação da Bênção do Gado Associação Cultural, em janeiro de 2000, criou-se uma nova estrutura para a organização da Festa e foi-lhe dado um novo impulso, passando a Grande Festa a realizar-se de 4 em 4 anos. Sendo de realçar os resultados muito positivos na Festa de 2000. Êxito que veio a repetir-se nas edições de 2004, 2008 e 2012.

Um dos momentos mais importantes da Festa, desde a edição de 1966, é a procissão do Senhor Jesus dos Lavradores. Foi desde esse ano que a Festa da Bênção do Gado passou a integrar a Imagem do Senhor Jesus, que segundo a Lenda, terá sido encontrada na Idade Média por um grupo de lavradores riachenses que com a sua junta de bois lavrava a terra nos campos do Espargal, junto dos Casais de Riachos, por nessa altura não existir igreja em Riachos a imagem foi levada para Torres Novas, onde ainda hoje se encontra, na Igreja de Santiago, à guarda da Misericórdia de Torres Novas e que visita Riachos de 4 em 4 anos durante a Festa da Bênção do Gado fazendo se uma procissão com tractores de Torres Novas a Riachos e ficando a imagem em exposição para devoção.

Ruas engalanadas é também uma das marcas diferenciadoras do evento, que ganhou força a partir de 2012 onde foi feita uma aposta das pinturais murais por toda a vila com a etnografia da Vila.

Mas o momento mais alto da Festa é o grandioso Cortejo da Bênção do Gado. O Cortejo é a imagem de marca da Festa. Este cortejo acontecia para que os agricultores de Riachos pudessem benzer os seus animais e assim protegê-los de maleitas que os invalidasse para a época agrícola pondo em risco o sustento das famílias. Hoje em dia com menos agricultores e muito menos animais o cortejo é feito igualmente com passagem junto à igreja de Riachos onde o Pároco faz a bênção e junta-se ao cortejo, tractores máquinas agrícolas, associações e empresas da vila para que possam ser benzidos.

Tapetes de flores, Sardoal

Sardoal – Rituais e Costumes – Capelas enfeitadas com tapetes de flores

No decurso da Semana Santa, as Igrejas e Capelas da Vila de Sardoal abrem as portas para exibirem os artísticos Tapetes de Flores que lhes atapetam o chão, cuidadosamente elaborados por grupos de moradores que vivem perto, e que anualmente concebem e criam tapetes à base de pétalas de flores e de verduras naturais, com desenhos alusivos às temáticas religiosas cristãs da Semana Santa e da Paixão de Cristo.

As flores utilizadas na composição dos tapetes são, na sua larga maioria, espécies autóctones e plantas da época, designadamente giestas, glicínias, lilás, rosmaninho, alecrim e bucho, cravos, camélias, malmequeres, margaças, etc. As flores, além de comporem a moldura dos tapetes, provocam agradáveis aromas.

Os diversos grupos de moradores que habitam nas proximidades das Igrejas ou Capelas ou outros organismos específicos organizam-se na gestão das diferentes partes do processo da criação dos Tapetes de Flores, com muito tempo de antecedência, seja:

1) A conceção das temáticas e dos desenhos a desenvolver (sempre com motivos religiosos cristãos) – com cerca de um mês de antecedência;

2) A recolha de flores e verduras necessárias à criação do desenho desenvolvido, essencialmente no campo, com cerca de uma semana de antecedência;

3) A redução a pequenos fragmentos (depenicar) das flores e verduras, frequentemente realizada por mulheres e crianças – nos dias que antecedem;

4) A limpeza das Igrejas e das Capelas, e ornamentação dos altares das Igrejas e Capelas;

5) A conjugação das flores e a “composição” dos desenhos já previamente estruturados – no dia anterior (quarta-feira).

Neste sentido, cada um dos grupos desenvolveu uma forma própria na produção dos tapetes, seja na estruturação como na planificação dos desenhos (quer seja através de desenho direto no chão, da colocação em areia fina, ou de base de esferovite).

Reza a lenda que a tradição dos Tapetes de Flores em Sardoal teve início aquando da primeira visita da Rainha Santa Isabel à Vila, tendo os moradores elaborado tapetes em pétalas de flores por não possuírem tapeçarias ricas para a receber.

Sendo certo que, segundo notícias publicadas na Imprensa Regional, por volta do ano de 1890, refere-se o retomar da Tradição das Cerimónias Religiosas da Semana Santa em Sardoal, sendo salientado com particular destaque as Capelas enfeitadas com flores e verdura, que sob a orientação do Cónego Anacleto da Fonseca Morais, atingiram grande brilhantismo. Esta notícia confirma a antiguidade desta Tradição.

Trata-se de uma exposição de rara beleza visual bem como olfativa – a ingenuidade dos motivos ornamentais e a harmonia das cores e disposição das luzes, e que só pode ser contemplada nesta altura e nesta terra, fruto da inspiração, anualmente renovada, dos artistas anónimos que tecem com pétalas e folhas, muitas vezes separadas uma a uma, estas tapeçarias perfumadas, que julgamos originais do Sardoal, sinais de uma cultura popular sedimentada ao longo dos séculos, sempre renovada nos motivos e nas formas, mas sempre constante na sua religiosidade e no amor à sua Terra.

Velas de Cardigos (Mação)

Mação – Artesanato – Velas de Cardigos

É grande a tradição e vasta a história da fabricação de velas na Freguesia de Cardigos, a norte do Concelho de Mação. Atualmente ainda laboram três fábricas de velas em Cardigos. Umas mais modernizadas do que outras, mas ainda há quem fabrique velas de modo artesanal. Uma delas é a Fábrica de Velas Condestável.

Na Ladeira de São Bernardo, em Cardigos, António Silva, de 86 anos, produz há várias décadas velas artesanais, enviadas, em grande parte, para Fátima.

Esta Fábrica é antiga, mas ainda produz as velas artesanalmente, embora tenha acompanhado os tempos. António trata as tábuas de cera como se fossem da família.

São produzidos dois tipos de velas, as mais amareladas, que vão para Fátima e as brancas de primeira qualidade. Um dos segredos e brio de António é utilizar apenas boa matéria-prima sendo que foge à “moda” da parafina.

Cardigos sempre foi uma terra de fabrico de velas. Foi como aprendiz numa fábrica de velas que António lhe ganhou o gosto e apostou no seu próprio negócio.

Embora hoje tenha máquinas mais modernas ainda mantém em funcionamento a antiga, onde secam 16 velas de cada vez.

É no antigo lagar, que funciona de forma similar aos lagares antigos de azeite antigo é transformada a cera em bruto derrete-se a cera suja, para as ceiras de escorre novamente cera líquida para as travessas em que segue para a máquina que molda e dá forma à cera, com o tamanho e forma que se quer.

Um passado de história e glória cujo futuro se adivinha sorridente pois o neto de António acompanha o avô nos negócios sendo a terceira geração do negócio. Estudou e voltou às raízes, faz tudo com o avô, até estar na fábrica a produzir, procurando, ainda assim, tornar a Fábrica de Velas Condestável mais adaptada às novas tecnologias e com maior diversidade de produtos.

Um produto artesanal com futuro mas, sempre, baseado no saber-fazer antigo. Cardigos continua a ser uma referência na fabricação de velas.

Picareto, Mação

Mação – Artefactos – O Picareto

No concelho de Mação foram construídos os últimos Picaretos anunciando-se o seu fim com o de quem lhes dedicou mais de 6 décadas de vida. A história dos Picaretos é mais antiga, são 300 anos de uso deste barco, ou bote, para a pesca e para o transporte de pessoas no Tejo.

Manuel Fontes, o último Calafate de Ortiga – Mação deixou-nos os seus últimos trabalhos, dos mais de 300 que fabricou, tendo começado com 22 anos a trabalhar com a obra preta: trabalho de madeira que mexe com resina e alcatrão.

Os Picaretos, por terem a forma de uma picareta agrícola, têm 6 metros de comprimento e são um barco de aresta, com fundo chato podendo navegar com um palmo e água. São, assim, muito bem construídos em cerca de 20 dias com recurso a cerca de 100 tábuas, de 4 pinheiros. Depois de construída a estrutura coloca-se a “estopa” nas costuras do barco, entre as tábuas, com recurso a uma calafetadeira e um maço. O leito leva um revestimento de pano-cru e, por cima, uma camada de pez ficando como que encerado.

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O barco é parecido na sua divisão com o corpo humano, dividido em fundo, costado e leitos.

A tábua do centro, a espinha, é que manda em toda a obra, e as do lado são cortadas ao meio, para darem a curva, e depois leva travessas ou cavernas.

O costado é feito só de tábuas compridas, uma em cima que se chama de boca e outra ligada ao fundo que se chama aresta, tem um molde e é deitado um pouco para trás para fazer o esbarramento, como se diz, ou fica feio em jeito de uma arca e sem equilíbrio na água.

O Picareto tem dois leitos: o mais largo é o leito grande onde, em cima, se trabalham as redes e onde, por baixo, se dorme.

O leito pequeno, que é o da proa, onde se mete o serrão da “bucha” para comer e os sapatos, pois no barco é obrigatório andar descalço.

A espessura da madeira que reveste o barco é de vinte milímetros.

Todas as peças do barco picareto, interiores e exteriores, têm uma designação própria, como os trancanis da proa, o cágado do remo, a tábua das bufas, o buraco do trapeiro, o entre pares, a chumaceira, a draga, o vertedouro ou os fiéis, entre outras.

Os barcos Picaretos são parte da nossa identidade, a par do Rio Tejo, sendo considerados autênticas obras de arte por conjugarem a experiência dos pescadores com a criatividade dos seus construtores. A técnica da sua construção passou de geração em geração e assumem-se hoje como um dos maiores bens da nossa história, com a certeza do seu fim, com a extinção dos Calafates, que foram muitos.

Em Ortiga, no sul do Concelho de Mação, vai inaugurar em breve o Núcleo Museológico, que será um um Polo Museológico das artes da pesca tradicional no rio Tejo, onde o Picareto tem lugar de honra assumindo-se como peça principal. Por tudo isto, porque é uma criação maravilhosa que trazia auxílio aos pescadores e comida às mesas e porque ainda cruzam as águas do nosso Tejo, se apresenta esta candidatura do barco Picareto de Mação.

Foto: Arquivo / CM Constância

Constância – Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem – Procissões e Romarias

Trata-se de uma festividade cíclica que ocorre, em Constância, todos os anos na segunda-feira da Páscoa. É uma manifestação religiosa, bicentenária, ligada à tradição marítima da vila e à consequente devoção a Nossa Senhora da Boa Viagem que ao longo dos tempos se foi adaptando às mudanças do mundo e da vida, transportando consigo a essência de Constância e o espírito deste lugar de encontro do Zêzere com o Tejo.

Consiste na procissão em honra da Senhora da Boa Viagem, protetora dos marítimos, que desce da igreja matriz até aos rios onde a esperam, na atualidade, largas dezenas de embarcações engalanadas para a bênção dos barcos. Para além das embarcações locais e das localidades vizinhas, acorrem a Constância neste dia muitas outras provenientes de todo o vale do Tejo, de Abrantes até ao mar, representando as comunidades ribeirinhas do troço do grande rio em que os barcos de água acima, carregados de mercadorias, navegaram durante séculos. Muitas das tripulações vêm trajadas ao modo tradicional e característico dos seus lugares de origem, o que faz desta manifestação uma grande Festa do Tejo.

A bênção dos barcos ocorre em três locais sucessivos: a primeira no Zêzere e as duas seguintes no Tejo, seguindo a procissão pelas margens e deslocando-se as embarcações pelos rios, num cortejo de grande significado cultural e especial beleza estética. Há ainda uma derradeira bênção – a das viaturas – que acontece na Praça principal da vila antes de a procissão tomar o caminho de regresso à igreja matriz onde a imagem da Senhora da Boa Viagem permanecerá, no seu altar, até à segunda-feira da Páscoa do ano seguinte.

A procissão e a bênção dos barcos e das viaturas em Constância têm características eminentemente populares, resultantes da devoção e do costume que em cada ano se manifestam e se renovam. As pessoas enfeitam os barcos a seu gosto, com flores naturais e enfeites de papel. Em muitas embarcações transportam imagens da sua devoção. Grande parte dos participantes são homens e mulheres, de uma forma ou de outra ligados aos rios, que têm o hábito de vir a Constância em cada Páscoa para se reencontrarem e confraternizarem, transformando a vila, onde se encontram os rios, num lugar de encontro também de pessoas e de afetos.

Vinda, pelo menos, do século XVIII, a procissão de Nossa Senhora da Boa Viagem e a bênção de barcos transportam em si sinais e memórias do passado fluvial da vila, ao mesmo tempo que se souberam adaptar aos tempos e às novas realidades, sobrevivendo ao desaparecimento das condições em que surgiram e continuando a afirmar no presente as marcas identitárias de Constância, ponto de encontro, que sempre viveu dos rios e cujo futuro passará, em boa parte, por eles.

Na manufactura das verdadeiras Mantas de Minde respeitam-se os produtos e as técnicas herdados: 100% lã e 100% portuguesa, as receitas de tinturaria, os padrões originais e todo o processo da produção.
São estas as mantas a concurso – “as 7 maravilhas da Cultura popular”. Foto: Facebook/Mantas de Minde

Alcanena – Artefactos – A Manta de Minde®

O espaço natural é o suporte e, muitas vezes, a condição da acção humana. Minde é uma vila no extremo NW do distrito de Santarém. Na sua posição natural em relação às unidades de relevo que a enquadram, está uma grande parte da sua personalidade. Situa-se nas margens do polje, tendo à sua volta, os cumes aguçados (penas) da Costa de Minde e as lombas da Serra d’Aire, que lhe delimitam o horizonte. Esta realidade favorece o seu isolamento e ajuda a compreender o quanto foi difícil a adaptação do homem a estas terras da sede. O calcário domina a paisagem e a gente de Minde teimou em permanecer aí, mesmo quando à força de arrotear a terra, esta lhe continuava a aparecer nua e pobre; as esperanças assentavam numa tira de felgar e no polje inundável no Inverno.

Uma agricultura pobre associava-se à pastorícia. Os rebentos das plantas da garrigue e as ervas rasteiras, eram o pasto para cabras e ovelhas, gado miúdo e pouco exigente. Daqui se abriram novos rumos para a vida dos mindericos – as actividades ligadas às lãs. O Minderico cuidava do seu rebanho, tosquiava, lavava, cardava, fiava, tecia para si e para os seus. O mundo limitado em que vivia, desencadeou a vontade e a necessidade de cardar por conta de estranhos. Afastou-se, foi pelas aldeias das serras vizinhas; afastou-se cada vez mais e, começou a comprar lã nos sítios onde trabalhava. Trouxe-a para Minde, lavou-a, cardou-a, fiou-a e transformou-a em panos, buréis, estamenhas e mantas. Por todo o país foi vendendo o que as mulheres e a gente mais nova teciam em casa, trazendo de volta dinheiro, produtos de primeira necessidade e mais lã para lavar, cardar, fiar e tecer.

De uma maneira inteligente, os mindericos, nos seus negócios usavam uma variedade linguística própria (A Piação dos Charales do Ninhou), hoje, a Língua de Minde.

Deslocando-se, primeiro a pé ou utilizando montadas, depois em carrinhas de caixa aberta, os manteiros percorriam principalmente o sul do país, vendendo as suas mantas:

– “manta preta” – usa a lã nas suas cores naturais (castanha e branca). O pastor protegia-se com ela do frio e da chuva;

– “manta parda” – surge com cores vivas, em barras, nas pontas. Apesar da escassez e das limitações na utilização da água, nos anos 30 do séc. XX surgiu em Minde a 1ª tinturaria e com ela, estas novas possibilidades;

– “manta sombreada” – é toda com riscas de 6 tonalidades diferentes e progressivas de verde, castanho e laranja;

– “manta janota” – uns anos depois, aparece a janota, de cores fortes nas suas composições muito trabalhadas. Este processo implica uma grande destreza e coordenação de movimentos.

O apogeu no número de teares e na produção atingiu-se nos anos 50 do século XX, mas, nos anos setenta, os teares foram desaparecendo: uns foram abandonados, outros estragaram-se, outros foram desmanchados, muitos serviram de lenha, poucos se salvaram. Destes, aproveitaram-se algumas peças e outros apetrechos complementares para a montagem do atelier que o Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro dirige. Aqui alia-se a tradição e a memória com a contemporaneidade. Na manufactura das verdadeiras Mantas de Minde respeitam-se os produtos e as técnicas herdados: 100% lã e 100% portuguesa, as receitas de tinturaria, os padrões originais e todo o processo da produção. Trabalham aqui 3 tecelões jovens e as mantas são vendidas mediante parcerias estratégicas para o mercado interno e externo.

Numa natureza hostil, os mindericos jogaram com as circunstâncias locais, estabeleceram relações, substituíram forças. É, assim que, com o tempo, o território se precisa e a Manta de Minde aparece como uma medalha cunhada com a efígie deste povo.

Cestaria em junco de Coruche

Coruche – Artesanato – Cestaria em junco

No vale do Sorraia desde sempre abundaram as matérias-primas tradicionalmente associadas à milenar arte da cestaria.

Dos ramos novos dos salgueiros (plantas do género Salix, na família Salicaceae) que ladeiam o rio e as ribeiras suas afluentes obtém-se o vime que, depois de descascados e secos, são habilmente trabalhados pelas mãos experientes dos artesãos, herdeiros das técnicas ancestrais necessárias à sua cuidada preparação e ao posterior manuseamento para dar forma às peças.

Nas zonas húmidas e alagadas da lezíria e dos vales das charnecas circundantes encontramos também em abundância os juncos (Juncus L., pertencente à família das Juncaceae) utilizados para tecer cestos, esteiras e assentos de cadeiras e bancos. A sua produção não se limita ao restrito mercado regional uma vez que qualidade dos juncos locais é largamente reconhecida entre a generalidade dos artesãos e regista por isso mesmo uma enorme procura a nível nacional.

A cestaria poderá ser definida como a técnica de fabricação de cestos ou num sentido mais lato como um conjunto de objetos ou utensílios, obtidos através de fibras de origem vegetal. Envolve pois também a fabricação de esteiras assim como objetos de revestimento ou cobertura.

As técnicas de produção de cestos poderão ser identificadas por dois tipos principais: o tipo entrelaçado e o tipo espiral.

A exemplo das outras atividades hoje identificadas como artesanato tradicional, a cestaria começa como resposta às necessidades do quotidiano das comunidades, produzindo cestas para recolher, armazenar ou transportar produtos e pequenos objetos. As peças são criadas segundo a sua funcionalidade e variam não só no tamanho e na forma, mas também no que respeita às próprias técnicas de execução.

Em muitas circunstâncias esta atividade surgia também como um importante complemento para a economia familiar, compensando muitas vezes a falta de rendimentos entre trabalhos sazonais.

Em Coruche são comuns as raposas, pequenas cestas com padrões coloridos, utilizadas sobretudo pelos ranchos de trabalhadores rurais para o transporte dos alimentos e pertences pessoais nas longas caminhadas para o campo.

Os cestos e as cestas tinham várias utilizações, relacionadas sobretudo com as atividades agrícolas e domésticas próprias das comunidades e do território marcadamente rurais.

Entre os parcos tarecos das pequenas casas rurais encontramos também as cadeiras e os bancos – ou mochos – com os assentos cuidadosamente empalhados em junco.

Com a perda irreversível da condição utilitária para a grande maioria dos objetos, a arte da cestaria vai-se reinventando a cada dia que passa, enveredando sobretudo pelo registo decorativo e procurando os emergentes mercados turísticos.

Sertã é do Médio Tejo, mas concorre pelo distrito de Castelo Branco

Sertã concorre por Castelo Branco com o cancioneiro tradicional da Beira Baixa

Sertã, Castelo Branco – Músicas e Danças

O cancioneiro tradicional da Beira Baixa tem no concelho da Sertã um dos seus principais pontos de recolha e inspiração musical. Isso mesmo foi visível no trabalho de campo encetado pelo grande etnomusicólogo português Armando Leça no final da década de 1930, que registou algumas canções tradicionais originárias desta região.

Este prolífico espólio musical tem servido de filão, ao longo das últimas décadas, a vários grupos de música popular do concelho, desde o extinto Núcleo de Cantos Populares de Calvos e Outeiro até aos atuais ranchos folclóricos.

Todavia, tem sido o cantautor e contrabaixista Miguel Calhaz o principal responsável por manter vivo este cancioneiro da música tradicional portuguesa. Miguel Calhaz tem sabido construir, a partir de músicas antigas e de sonoridades distintas desta região, canções de grande qualidade e invocadoras deste cancioneiro. Refira-se que os seus inúmeros projetos musicais revelam também influências dos cantares populares e do folclore e procuram dar nova roupagem a muitas dessas músicas pertencentes ao cancioneiro tradicional. São disso exemplo as gravações que fez de músicas tradicionais, dando-lhes um toque de modernidade, como aconteceu com «A Moleirinha» (canção típica da região), «Maria da Conceição», «Senhora do Almortão», «Oh Bento Airoso» ou «São João».

Miguel Calhaz tem efetuado um intenso trabalho de recolha musical, permitindo assim recuperar e divulgar canções de outros tempos, num processo de preservação e respeito pela cultura de antanho.

Por exemplo, o projeto CONTЯA! – Contemporânea Tradição, de Miguel Calhaz, assenta a sua musicalidade na raiz tradicional da música portuguesa, navegando simultaneamente em universos musicais contemporâneos. Aqui e ali, laivos de antigas heranças musicais presentes no folclore português, entrelaçam-se com hipnóticas polirritmias e re-harmonizações.

Por seu lado, no projeto Trilhos, Miguel Calhaz, juntamente com outros músicos, desenvolve uma performance musical, onde o piano, o contrabaixo, as percussões e a guitarra portuguesa dialogam com a música tradicional, com o jazz e com a obra do guitarrista Carlos Paredes. Um projeto que procura dar novos caminhos à guitarra portuguesa.

O compositor e contrabaixista Miguel Calhaz integrou ainda outros projetos, como «Romance da Pastora» ou «Raiz».

O disco de estreia a solo de Miguel Calhaz, «Estas Palavras» recebeu várias críticas elogiosas. Por exemplo, Pedro Dias de Almeida, na revista Visão, escreveu: “Não há dúvida quanto à família musical de Miguel Calhaz (…) revelada no seu disco de estreia Estas Palavras: a música popular portuguesa no seu melhor. Com um toque de novidade no instrumento escolhido por este cantautor para o acompanhar em palco: o contrabaixo”.

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