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Domingo, Julho 25, 2021

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Médio Tejo | Peregrinar pelos caminhos de Santiago com paragem em Fátima

Ramiro Vélez, 42 anos, e Klarita Begolli, 33 anos, percorreram em agosto de 2016 o Caminho Central Português. Ele partiu de Lisboa, ela decidiu fazer o trajeto inverso, desde Compostela. Cruzaram-se em Tomar e conheceram-se na nossa entrevista.

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Santiago-de-Compostela

O primeiro guia do peregrino, o Códice Calixtino, surgiu no século XII e apelidava o Caminho de Santiago de “Caminho das Estrelas”, por estar diretamente sob a Via Láctea. Hoje, são diversas as rotas históricas seguidas pelos mais de duzentos mil peregrinos que, todos os anos, rumam a Santiago de Compostela a pé, de bicicleta, a cavalo ou cadeira de rodas. A peregrinação ao túmulo de Santiago Maior foi classificada como Património da Humanidade em 1993.

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As setas amarelas indicam o Caminho de Santiago e cruzam-se com as azuis nos Caminhos de Fátima

O Caminho Central Português é o mais percorrido no território nacional e a segunda rota mais utilizada na Europa. As setas amarelas podem ser encontradas ao longo dos cerca de 600 quilómetros que ligam a Sé de Lisboa à Catedral de Santiago – e entre eles estão os mais de 40 quilómetros localizados no Médio Tejo, nos concelhos de Vila Nova da Barquinha, Tomar e Ferreira do Zêzere. Quem decide complementar a peregrinação jacobeia com uma passagem no Santuário de Fátima faz um desvio em Santarém, segue as setas azuis dos Caminhos de Fátima pelos concelhos de Alcanena e Ourém e regressa ao percurso original em Ansião.

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As viagens de Ramiro e Klarita começaram no dia em que o espanhol trancou a porta de casa em Olite (Navarra) e a italiana se despediu da família em Vicenza, mas esta história tem início muito antes, no século I d.C., quando o Apóstolo Santiago Maior foi preso e decapitado na Palestina depois de pregar pelo mundo. O corpo terá sido roubado pelos discípulos e sepultado em segredo num bosque chamado Libredón, na Galiza. Cerca de oito séculos mais tarde, o local do sepulcro foi revelado a um eremita, que terá sido guiado por uma chuva de estrelas. Logo se mandou erigir uma capela no monte que ficou conhecido por “Campus Stellae” (campo de estrelas).

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Klarita Begolli e Ramiro Vélez, dois peregrinos que se encontraram no Médio Tejo

Voltando ao presente, a mochila quer-se leve e lá dentro transporta-se o essencial. Junto da credencial leva-se a fé, o interesse cultural ou a adrenalina. Quando nos encontramos ao final de um dia quente de agosto, as mochilas de Ramiro e Klarita estavam arrumadas nos respetivos quartos do Hostel 2300 Thomar, um dos poucos alojamentos no Médio Tejo referenciados em guias e páginas da internet sobre o Caminho de Santiago.

As alternativas seriam a Casa do Patriarca, na Atalaia, ou os quartéis dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova da Barquinha e Tomar. O quartel de Ferreira do Zêzere fica distante e Hugo Azevedo, presidente da União de Freguesias de Areias e Pias, a única atravessada pelo Caminho no concelho, já na altura pressionava o executivo camarário para a construção do primeiro albergue oficial na região.

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O Caminho Central Português passa junto do Hostel 2300 Thomar, na Rua Serpa Pinto

Somos recebidos com algum cansaço e o típico brilho nos olhos de quem se encontra a meio de uma aventura. Ramiro trabalha para o Governo de Navarra num centro de investigação ligado à vitivinicultura e a curiosidade gerada pelos peregrinos com quem se cruza regularmente levou-o a trocar umas férias nas Canárias pelo Caminho de Santiago.

No ano passado partiu de casa decidido a regressar no final da etapa, caso não gostasse. Só parou no Cabo Finisterra, considerado em tempos idos o “Fim da Terra”. Em março do ano passado decidiu percorrer o Caminho Central Português para descobrir o que une e diferencia os países ibéricos.

As motivações de Klarita são diferentes. Um mês antes decidiu mudar de vida e despediu-se do emprego na área do marketing que tinha numa multinacional. Quis testar os limites do medo, “o maior obstáculo que temos na vida”, e uma semana depois estava no aeroporto de Santiago de Compostela. Percorreu o Caminho de Finisterra – Múxia, regressou a Santiago pelo Caminho Inglês e decidiu continuar até Lisboa. Diz que não escolheu o Caminho, mas sim o Caminho que a escolheu a ela. O facto de ter tido um namorado português que a fez apaixonar pelo Fado e a vontade de sentir a “energia e paz de espírito únicas” do Santuário de Fátima contribuíram para a decisão.

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Os peregrinos entram no Médio Tejo pelos campos agrícolas de Vila Nova da Barquinha

Os dois têm alternado a caminhada com transportes públicos e nenhum percorreu as duas etapas do Guia da Associación Galega Amigos do Camiño de Santiago que abrangem o Médio Tejo. O peregrino é recebido nos campos agrícolas de Vila Nova da Barquinha, no Pedregoso, e passa junto da Igreja Matriz da Atalaia, Monumento Nacional, pouco antes de se embrenhar na paisagem florestal.

O limite territorial do concelho de Tomar é transposto na freguesia da Asseiceira e a entrada na cidade templária faz-se junto da capela de São Lourenço.

É inevitável a passagem pelo Convento de Cristo, Património da Humanidade, e a travessia das Pontes de Peniche e de Ceras. O casario rural de Portela de Vila Verde, Daporta e Venda dos Tremoços dá as boas vindas a Ferreira do Zêzere e a região despede-se perto da imponente Quinta do Tojal.

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Bom calçado de caminhada é fundamental

O facto de seguirem direções opostas torna a conversa aliciante. O que um conhece, o outro desconhece e as experiências de ambos, unidas, constroem o Caminho Central Português na totalidade. Partilham memórias recentes de “belas paisagens”, “boa comida” e “pessoas amáveis” que conheceram orientados pelas setas amarelas, nem sempre visíveis, que serão substituídas pela sinalética oficial nos concelhos de Vila Nova da Barquinha, Tomar e Ferreira do Zêzere este ano 2017.

O Turismo do Centro de Portugal e a Associação de Peregrinos Via Lusitana assinaram um protocolo de parceria no âmbito do Projeto de Sinalética e Promoção do Caminho de Santiago (Região Centro), em 2014,  e entregaram a proposta com a delimitação definitiva dos trajetos para aprovação dos municípios no final do ano transato.

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O Médio Tejo passará a ter sinalética oficial do Caminho de Santiago a partir de 2016

Ramiro e Klarita continuaram a seguir as setas encontradas em árvores, postes de eletricidade, pavimentos e muros numa experiência que disseram ser regeneradora. Concordam sobre a existência de “um antes e um depois” da peregrinação pelo Caminho das Estrelas e que na fase intermédia se constroem relações nas quais “se dá uma parte de si mesmo e se recebe muito em troca”.

Não percorremos o Caminho com eles, mas o breve encontro no Médio Tejo leva-nos a concordar. Bom Caminho!

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Quer conhecer melhor o Caminho de Santiago no Médio Tejo? Clique no mapa!

*Reportagem republicada a 20 de agosto de 2016

**Reportagem republicada a 18 de janeiro de 2017

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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