Médico de Família: o psicólogo, o padre, o advogado e o profissional de saúde refém das novas tecnologias (c/vídeo)

António Gomes Branco, 63 anos, pertence à primeira geração de profissionais de saúde formados numa área da medicina à época extremamente inovadora: o médico de clínica geral e familiar. Nos anos 80, a entrada na zona da atuação das antigas “Caixas” foi um processo desgastante e que exigiu uma longa aprendizagem da parte das equipas e dos utentes. Hoje, os médicos de família são muitas vezes os psicólogos, os padres, os advogados e os desmistificadores da complexa rede de áreas de saúde para os utentes. A 19 de maio celebra-se o Dia Mundial do Médico de Família. Um profissional imprescindível ao bom funcionamento do Sistema Nacional de Saúde.

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No Centro de Saúde de Santa Maria, em Tomar, reina a tranquilidade. A cor é o branco. Há uma certa paz e segurança no branco. Não percebemos bem porquê, será eventualmente a sensação de desinfeção. Estamos num local vocacionado para o tratamento de problemas de saúde. Normalmente não as doenças graves – essas estão reservadas aos hospitais – mas aquelas maleitas mais comuns, que podem aguardar alguns dias por atendimento. Hoje é o dia das grávidas. Mulheres de barriga já evidente aguardam na sala de espera. Uma criança com cerca de dois anos encontrou entretenimento nos botões da máquina automática dos snacks. Nós esperamos a nossa vez.

O Doutor António Gomes Branco passa e pergunta se tem hipótese de ir comer uma maçã antes da entrevista. Estamos perto do meio-dia e este médico de família, com uma longa e profícua carreira no setor, entrou cerca das 9 horas e continuará a atender pacientes quando sairmos, por volta das 13 horas. Todos os dias esta rotina, da segunda à sexta-feira, das 8/9 horas até às 20 horas. Num dos últimas dias, confessa-nos posteriormente, teve que ser ele a fechar a porta do Centro de Saúde, pois o guarda já tinha saído.

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Não se recorda porque escolheu a profissão de médico. Teria os seus 14/15 anos quando tomou essa decisão. “Achei que era uma profissão que me agradava (…) nessas idades os afetos são superiores à racionalidade”, comenta. Natural de Torres Novas, foi estudar para Lisboa.

foto mediotejo.net
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Perguntamos-lhe pelas médias de acesso ao curso, pela concorrência dos colegas. Nos anos 70 o concurso era um pouco diferente, tinham sempre que se realizar provas específicas de acesso, em algumas obtinha-se inclusive dispensa devido às notas. Um 15 ou 16 já era uma classificação extraordinária, onde hoje são os 19. O acesso à profissão mudou, constata, assim como os cursos de medicina. Estão mais práticos, mais homogéneos na formação do médico que, no sexto ano de curso, já tem só prática médica. No seu tempo era diferente, muita teoria, outras prioridades na formação.

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Perguntamos-lhe se a dado momento, no curso de medicina, não se perguntou se teria escolhido a profissão certa. “A sensação do «onde é que me vim meter!» é um sentimento mais recente”, confessa-nos. As evoluções tecnológicas velozes, instaladas nos centros de saúde sem estarem ainda operacionais e numa rapidez de atualização que os médicos não conseguem acompanhar é uma das suas maiores dores de cabeça. Os sistemas eletrónicos muitas vezes “vão abaixo” e hoje já nem existem as alternativas em papel. “A relação com as pessoas é importante em várias especialidades, em particular a do médico de família, que se perturba com a tirania da tecnologia”, desabafa. “Esta é das áreas em que o contato visual, o falar com as pessoas é importante para as coisas correrem bem”.

A guerra com a tecnologia veloz e pouca eficaz ao bom funcionamento do trabalho médico é a sua frustração. Por isso confessa que o sentimento de que poderia ter escolhido algo diferente é muito recente. No final dos anos 70, quando teve que esperar seis anos para concorrer a uma especialidade, estava mais interessado nas perspetivas da profissão. Envolveu-se então num grupo de curiosos (cerca de 40 pessoas) que começaram a investigar uma nova área da saúde, a da medicina geral e familiar, que já existia em países como o Reino Unido, Dinamarca, Holanda, Austrália ou Irlanda. “Nunca me vi a fazer só uma atividade”, admite, explicando que na altura sentia-se a falta de um profissional médico que se ocupasse dos serviços de saúde primários.

foto mediotejo.net
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O trabalho deste grupo, que ajudou a estruturar a especialidade, em conjugação com o sentimento geral da época que gerou o Sistema Nacional de Saúde, levou à criação em 1981 da primeira especialização em medicina geral e familiar. António concorreu a esta área, competindo à sua geração o trabalho inicial de reestruturação dos centros de saúde públicos, concentrando e alargando os diversos serviços de atendimento de proximidade que vinham do Estado Novo.

Foi um trabalho duro, admite. Hoje o jovem médico de família já entra na profissão a saber exatamente o que vai fazer e o que vai encontrar. Na sua época foi um processo de aprendizagem para equipas e utentes. A ideia de oferecer prendas aos médicos, muito presente nas zonas rurais, vem ainda dessa mentalidade mais antiga. O médico era alguém pago pelos seus serviços, não pelo Estado, e quem não tinha como pagar oferecia o que tinha. António ainda recebe estas prendas, por vezes azeite, houve alturas que lhe davam garrafas de whisky. Lembra que a oferta mais estranha que lhe fizeram foi uma galinha. Quis recusar, sabia que a senhora tinha grandes necessidades, mas a utente ficou num tal pranto que acabaria por aceitar.

Mas, afirma, hoje já não é assim tão comum os utentes darem oferendas. Os pacientes sabem que os médicos prestam um serviço e já são pagos por ele. Refere a dada altura que um jovem médico de família, no princípio da carreira, recebe cerca de 2700 euros. Não fala no seu ordenado, mas admite que está no topo da carreira.

Não é para menos! António Gomes Branco correu praticamente todos os cargos de chefia da região. Foi diretor do Centro Hospitalar do Médio Tejo, presidente da Associação Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, coordenador da subregião de saúde de Santarém e pertenceu ainda à direção da Associação dos Médicos de Família, instituição que teve um papel preponderante na estruturação desta área médica.

Pela sua experiência profissional, António tem um olhar muito assertivo e pragmático do estado dos serviços de saúde no país e, em particular, na região. Não tem problemas em dizer que o distrito de Santarém tem Hospitais e centros de saúde a mais. Há carências de médicos e serviços sim, mas tal deve-se sobretudo a uma má distribuição dos recursos e das estruturas que dão apoio à população. “Houve carências graves de planeamento em que algumas especialidades têm médicos a mais, outras a menos e estão mal distribuídos”, reflete. “O conceito de proximidade foi comandando pelos ciclos eleitorais, que criaram situações anómalas” de uma grande concentração ou de grande dispersão.

António Gomes Branco acredita que a resposta aos problemas na área da saúde está na racionalização tanto de estruturas quanto de recursos humanos. Pensar os equipamentos que existem e as respostas necessárias, onde são necessárias. Daqui por alguns anos, explica, haverá excesso de médicos e continuarão a fazer falta em certas zonas.

A este respeito perguntamos porque existe tanta carência de médicos no interior e se é verdadeira a ideia de que o profissional acaba por estagnar na carreira fora dos grandes centros. António admite que há alguma verdade neste raciocínio, mas que, na prática, a área da saúde familiar tem mais carências de profissionais nas cidades. O motivo principal do afastamento do interior deve-se à escassez do apoio à estrutura familiar, como creches e outros serviços que proporcionam melhores condições de vida.

Sobre a evolução da carreira, torna a frisar a problemática dos três hospitais do Médio Tejo. Hospitais pequenos têm equipas pequenas e, por tal, só podem fazer intervenções mais simples. Procedimentos complexos terão sempre que ir para um hospital com uma equipa grande. “Existem edifícios a mais”, torna a frisar, “ainda existe  uma irracionalidade na rede de hospitais”.

O Doutor António está a Unidade de Saúde Familiar de Santa Maria desde 2008. Salienta um bom ambiente criado entre colegas e que possibilita um bom serviço ao utente. Reconhece que o médico de família é muitas vezes um psicólogo, um padre, um advogado perante outras especialidades médicas e até um orientador para o utente mais confuso quanto às prioridades das suas múltiplas doenças e os medicamentos a tomar. O médico de família é uma ajuda “a organizar no labirinto da complexidade hospitalar”, constata. “Faz parte da nossa profissão”.

Refere que 85 a 90% das situações de doença são resolvidas no centro de saúde, sem necessidade de recorrer ao hospital. Quem sente que não pode esperar, não tem uma situação de médico de família mas de urgência hospitalar. António fala em “dispersão geracional”, onde, sobretudo os mais novos, lhe chegam com bastante informação mas muito desorganizada, proporcionada pelo acesso às novas tecnologias. Os mais velhos vêm muito em busca da linha do psicólogo, do padre, do apoio à complexidade da saúde. Mas são circunstâncias, salienta, que tocam todas as idades.

Ainda perguntamos se as pessoas sabem ao certo o que é um médico de família. O Doutor António diz que sim, que hoje já sabem. “O médico de família é um elemento de uma equipa”, que precisa de funcionar em harmonia.

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