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Sábado, Novembro 27, 2021

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“Marmitas e lancheiras”, por Armando Fernandes

Estamos prestes a festejar o 1º de Maio, dia do Trabalhador. Penso ser assisado recordar a efeméride a assinalar por todos os motivos e ainda porque o concelho de Abrantes e limítrofes são território onde a industrialização se manifestou intensamente desde os finais do século XIX até ao seu fenecimento já depois do 25 de Abril, cuja data foi lembrada na semana passada, e inúmeros militares sofreram ataques sentados nas famosas Berliet Tramagal, nas picadas das antigas colónias nas quais existiu a luta armada, no quadro da guerra colonial.

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Ora, os operários e ouros trabalhadores das grandes empresas da região tomavam a refeição principal (almoço) nos refeitórios ou cantinas das mesmas, os das médias e pequenas oficinas faziam-se acompanhar de marmitas e lancheiras nas quais traziam comeres arranjados pelas mulheres conforme o que tinham e podia o seu engenho na tentativa de proporcionarem bons sabores aos maridos, pais, tios, sobrinhos e demais parentela obreira naquelas unidades industriais. A História da indústria em Abrantes e redondezas, se um dia for construída, ficará diminuída caso ignore o quotidiano alimentar da classe trabalhadora que a fazia mover.

Inquieta-me a gorda possibilidade de a documentação alusiva às cantinas e refeitórios ter desaparecido por desinteresse e incúria analfabeta. Relativamente às fontes orais, as mesmas vão desaparecendo devido à nossa finitude e sempre que alguma seca o nosso património fica diminuído.

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O que seria a sua alimentação dos operários? Nas cantinas e refeitórios existiriam normas dietéticas adequadas às e as quantidades servidas seriam abundantes prestando-se atenção à sazonalidade, alem das ementas comemorativas e de regozijo. E os restantes?

Não andarei longe da verdade se no tocante a tubérculos e vegetais a primazia recaía em batatas, couves, favas, feijões, grão-de-bico, fruta da época, no respeitante a carnes a primazia centrava-se no toucinho (as pessoas trocavam presuntos por mantas de tal gordura), aves de criação e alguma caça se na família existissem caçadores, coelhos e lebres para a família, as perdizes serviam a amparo noutros locais.

As mudanças ocorridas após o 25 de Abril alteraram a sociedade incluindo os consumos, no entanto, recordar tais tempos no caso em apreço não é saudosismo lamechas, é lembrar aos mais novos quão difícil era conseguir-se sustento, sendo as marmitas e as lancheiras símbolo sombrio de refeições curtas, monótonas, centradas na sopa (caldo de couves, feijões e batatas), no «comer» principal – batatas, couves e feijões –, às vezes maçarão ou arroz, para beber água das fontes e fontenários, vinho zurrapa caseira e uma cerveja quando alguém fazia anos.

Nos dias de festa lambiscos (poucos), doces de ovos e açúcar amarelo (mascavado) e mel. O leite, a canja e um pedaço de carne de vaca só para os doentes. Tempos de penúria generalizada, tempos de «come e cala», tempos de epidemias do corpo e da ânima. Para que conste!

Moscatel – TEJO

Festejar com um licoroso ambarino de estirpe ribatejana afigura-se-me boa ideia. Por isso mesmo, após a prova sensorial assim farei no primeiro dia do mês de maio comemorando a efeméride trágica para os dois denodados trabalhadores duplamente explorados, pois além de trabalharem para lá do admissível carregavam o ferrete de emigrantes.

Trata-se de um vinho licoroso feito de uvas moscatel graúdo da chancela TEJO, da respeitada Casa Paciência de Alpiarça, pleno de aromas inebriantes cítricos, a colocar dilemas ao palato – bebo um cálice ou bebo dois? –: guloso esquece a graduação de 17,5 º, bebe mais porque acompanha gracilmente frutos secos desde os figos às amêndoas passando pelas nozes e pinhões, queijos, conservas e fumados de peixe e carne.

O palato transgride gostosamente o seu proprietário não vai conduzir, a festa pelos direitos de quem trabalha ou trabalhou justifica-o plenamente. Este licoroso foi produzido em 2018 e estagiou em barricas de carvalho.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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