Mário Costa, o engenheiro que quer salvar o Rio Almonda (c/video)

“Vamos Salvar o Rio Almonda” é uma página de facebook com 3881 gostos. Foi criada por Mário Costa, 45 anos, um engenheiro eletromecânico regressado a Torres Novas e que nos últimos seis meses tem desenvolvido uma intensa atividade de sensibilização ambiental e denúncia. Já sofreu ameaças e houve quem o quisesse afastar ao som de tiros. A sua persistência valeu-lhe agora uma Menção Honrosa pela Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente. Mas os prémios pouco lhe interessam. “Aparece de tudo no rio, até vibradores”, lamenta.

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Apesar de muitas empresas não cumprirem com a legislação ambiental, Mário Costa sublinha que os próprios produtores junto não tomam precauções

É a história do retornado que encontra uma casa devassada. “Durante 20 anos não houve política ambiental em Torres Novas” começa de imediato Mário Costa, ainda sem qualquer pergunta lançada. Segue-se o relato do fatídico dia, aquele que foi “a maior vergonha da minha vida”, quando levou as filhas até ao rio Almonda, no intuito de aí tomarem um banho. “Estava num estado deplorável”, recorda, tendo aí iniciado a sua militância pela salvaguarda deste recurso natural.

Primeiro tentou perceber qual era a fonte da poluição. Em pouco tempo compreendeu que as causas eram muitas e que as próprias autoridades as desconheciam ou cooperavam com elas por omissão. “Para todos era normal”, referiu ao mediotejo.net.

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Tentou inicialmente as simples denúncias, depois começaram as reclamações a todos os organismos nacionais que pudessem de alguma forte estar ligados a uma solução contra o crime ambiental. Depressa percebeu que os serviços de proteção da natureza da GNR carecem de meios para a abrangência da área em que estão inseridos e que todo o sistema está impregnado de uma complexa burocracia que muitas vezes limita o avançar dos processos. “O difícil é provar as descargas” ilegais de resíduos industriais, esclarece. “É quase missão impossível provar que as descargas são poluentes”

“O rio já estava tão degradado que já todas as empresas descarregavam”, refere, sublinhando a falta de sensibilização ambiental que abrange tanto empresários quanto os pequenos proprietários que vivem junto ao rio e que usam água contaminada para regar as suas hortas. Produtos esses que depois seguem para o mercado de consumo.

Mário Costa conseguiu reunir um conjunto de voluntários e fazer ações de vigilância constantes, apanhando assim os prevaricadores. Várias descargas ilegais foram provadas e denunciadas e o rio começou rapidamente a regenerar-se.

No espaço de meio ano desapareceu o lixo e a espuma branca em vários pontos do Almonda. Já é possível pescar e tomar um banho no Verão, mas ainda há muito a ser feito. As empresas foram sendo consecutivamente multadas e tem-se procurado chegar junto dos proprietários ribeirinhos para que não reguem as plantações com água poluída. Todos os dias Mário Costa faz cerca de 40 quilómetros entre Torres Novas e a Golegã, vigiando e denunciando possíveis focos de poluição. Criticado por uns, aplaudido por outros, tem neste projeto um sentido de missão.

A Menção Honrosa da Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente foi, por isso, uma surpresa. “É uma boa chapada para os que não acreditavam e criticavam e para as associações ambientais”, comenta, sublinhando que “quando se quer pode, lutando dentro da legalidade”.

Deixar de deitar lixo para o rio que a Natureza trata do resto

Em outubro, uma assembleia municipal extraordinária em Torres Novas quis debater as questões ambientais. “Fiquei contente porque todos disseram o que se defendia na página do facebook”, refere Mário Costa. No entanto “não houve consenso” quanto ao que se deveria fazer concretamente e “só foram aprovadas as linhas gerais”. “Vai ficar tudo na mesma”, lamenta o ativista.

Mas o que se deveria então fazer? Mário Costa apresenta propostas práticas e objetivas:

  • uma grande campanha de sensibilização direta a nível da sociedade civil e das empresas (plenários, panfletos, dar a conhecer a legislação da lei da água, da limpeza das margens, etc);
  • criação de uma equipa de vigilância ativa de manutenção municipal;
  • criar-se na Câmara Municipal um corpo técnico com formação ambiental física e química;
  • reforçar o contingente da PSP e da GNR, a curto prazo, para um levantamento de todas as situações;
  • promoção de eventos de ação direta de limpeza do rio, como passeios pedestres ou descidas de canoa;
  • a médio prazo, com o rio já limpo, criarem-se espaços de lazer que estimulem o convívio entre gerações;
  • as autarquias, as associações e os agricultores coordenarem as zonas ribeirinhas durante os períodos de rega, de forma a fazer uma gestão das captações.

“A Associação Portuguesa do Ambiente vai notificar todos os proprietários junto ao rio para que façam a devida limpeza”, refere ainda Mário Costa, com multas que vão desde os 200 euros, para pessoas singulares, a 200 mil euros, para pessoas coletivas. “Só paro quando o rio estiver em plenas condições de utilização e que não prejudique a saúde dos demais”, promete Mário Costa.

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Ao longo do rio Almonda, em Torres Novas, são visíveis os sinais da poluição e o mau cheiro

Até porque alguns dados que apresenta são preocupantes. O ativista recolheu os números do Instituto Português de Oncologia e fez pessoalmente um rastreio a todas as pessoas que morreram de cancro e que viviam junto ao rio Almonda nos últimos 20 anos.

Concluiu assim que houve um aumento de 383% dos casos de cancro nesta zona. “A causa está à vista”, frisa. Com o apoio de técnicos especializados em diferentes áreas, este movimento local.já conseguiu que fossem feitas análises às colheitas das produções junto ao rio. Os dados “preocupantes” foram enviados à Direção Geral de Saúde,  mas ainda não há resposta.

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Mário Costa defende que a Natureza tem uma grande capacidade de regeneração, “basta que deixem de deitar para lá porcaria”. “Não são precisos milhões” de euros, como defendem certos políticos.

Para 2016, Costa deseja que as empresas torrejanas apostem ainda mais na sustentabilidade ambiental das suas produções e anuncia o objetivo de recolher 7500 assinaturas para pedir a alteração da legislação de denúncia ambiental na Assembleia da República.

O objetivo é que baste a denúncia com testemunhas para que seja suficiente fazer uma acusação por descarga ilegal no rio, ultrapassando assim todo o imbróglio burocrático atual. “O que reivindico é que não devemos ser nós a fazer o trabalho das autoridades”.

Uma paragem no Boquilobo com uma denúncia ao cair da noite

Da Reserva Natural do Boquilobo a Azinhaga, o mediotejo.net percorreu com Mário Costa alguns dos locais onde a poluição do rio Almonda ainda é visível e onde já se notam mudanças na tonalidade da água e na envolvência. “Não sou pró-ambientalista nem tenho filiação partidária. Este é um direito que nos assiste”, defende.

À entrada do Boquilobo encontramos membros da direção do Parque Natural. Mário Costa abranda a carrinha, troca algumas palavras. A conversa, inicialmente cordial, rapidamente se exalta. São, afinal, diferentes perspetivas quanto ao que é ou deveria ser o traçado do rio Almonda e os investimentos que o Governo tem realizado para defender a zona protegida. O trabalho ambiental de Mário Costa é elogiado, mas criticadas muitas das suas causas. O engenheiro despede-se e segue viagem, comentando alguns dos problemas que tem tido com a Reserva Natural do Boquilobo.

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Ao cair da noite fomos avisados de uma descarga ilegal de resíduos na Meia Via. Acabou por se verificar tratar-se de um acidente

Na Azinhaga, terra de Saramago, constatamos o trabalho já realizado pelo município da Golegã para limpeza das margens e sua recuperação. Homens e crianças pescam junto no rio, uma das maiores vitórias de Mário Costa. Os cheiros a detritos desapareceram e as águas começam a ser repovoadas de peixes. Alguns populares cumprimentam-no, saúdam-lhe o trabalho “difícil, mas necessário”.

De regresso, já pelas 17h, o telemóvel toca. É alguém a fazer uma denúncia: houve uma descarga ilegal na Meia Via, em Torres Novas. Acorremos ao local a grande velocidade, por atalhos e carreiros mal definidos. Com o selo do “Vamos salvar o Rio Almonda” na carrinha, Mário Costa tem livre trânsito para apanhar os prevaricadores.

Chegados ao local a noite já cai. Cheira a lixo e nota-se a espuma branca no afluente. Do prevaricador já não há sinal. Mário Costa tenta ligar para a GNR mas o telefone não dá sinal. De novo na carrinha acorremos ao posto, no centro de Torres Novas. Aí somos informados que a área já não pertence à GNR e que teremos que nos dirigir à PSP.

É esta a burocracia que Mário Costa quer contrariar!

A descarga de lamas seria posteriormente identificada como da responsabilidade da empresa de compostagem Componatura. Conforme Mário Costa refere na sua página de facebook “assim contactada a gerência da Componatura no dia seguinte foi justificado que não foi uma descarga deliberada mas sim um acidente devido ao rebentamento de um coletor interno, ao qual tivemos acesso e comprovámos.

Uma máquina em manobras provocou o derrame ao qual prontamente tentaram, tanto quanto possível, conter os resíduos com hidro aspiradores e jopper´s que, em parte, acabaram por ser derramados pelo circuito pluvial para uma vala concebida para o efeito que “tinha acabado de ser limpa”.

O tempo não pára e o trabalho nunca acaba para este engenheiro apostado em “Salvar o rio Almonda”.

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