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Quarta-feira, Junho 16, 2021

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“Marie Colvin, repórter de guerra, assassinada na Síria por contar a verdade”, por Carla Baptista

Perto da vista, perto do coração – jornalismo por dentro
Os textos desta secção têm um propósito: contar histórias sobre jornalismo. Os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.

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Quais são as melhores qualidades de uma repórter de guerra? Marie Colvin morreu em 2012, com 56 anos, em Baba Amr, um subúrbio da cidade síria de Homs, soterrada na casa que foi destruída num ataque de artilharia ordenado pelo presidente Bashar-al-Assad.

Costumava dizer que não sabia ler mapas nem trabalhar com telefones satélites e talvez tenha, nesses últimos momentos, chamado o fotógrafo Remi Ochlik, 28 anos, para a ajudar. Os dois tiveram morte imediata.

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O fotógrafo Paul Conroy, que trabalhava com Colvin para o jornal inglês Sunday Times, estava a 3 metros de distância e sobreviveu para contar a história. Foi resgatado por voluntários rebeldes sírios e evacuado para o Líbano, depois Londres, onde os médicos retiraram bocados de carne apodrecida na perna atingida pelos estilhaços.

Conroy deu uma entrevista à BBC onde relatou os detalhes daquele dia trágico. A sua memória tem a mesma precisão dos morteiros disparados contra Marie Colvin, denunciada pelo sinal emitido pelo telefone satélite. Foram disparados 3 morteiros, uma parede desabou, a casa encheu-se de pó de cimento, Colvin gritou que estava surda. Ela já era cega do olho esquerdo, perdido no rebentamento de uma granada no Sri Lanka, em 2001. O quarto tiro matou a dupla de jornalistas. Havia mais jornalistas na casa que funcionava como media center e câmaras ligadas. Ouvimos os gritos de Conroy: “Fui atingido! Preciso de um torniquete! Vou esvair-me em sangue…”

Em 2016, a juíza Amy Jackson, do tribunal de Washington, acusou o regime sírio de assassínio e condenou-o a pagar uma indemnização de milhões de dólares à família de Colvin. A juíza emitiu uma sentença histórica: “Marie Colvin foi um alvo deliberado devido à sua profissão. O assassinato de jornalistas que corajosamente relatam de zonas em guerra é um crime odioso, que nos priva de um conhecimento fundamental”.

Que saber vital é esse que as reportagens de Marie Colvin davam ao mundo? No último trabalho enviado para o Sunday Times e para o Channel 4 News, poucas horas antes de morrer, mostrou as imagens de um edifício que servia de refúgio improvisado a mais de 300 refugiados, a maioria mulheres e crianças que tinham ficado sem teto após duas semanas de bombardeamentos. Chamou-lhe ironicamente “a cave das viúvas”, numa alusão a declarações de Assad, onde este dizia que a cidade se tinha transformado num “covil de terroristas”. Os maridos tinham morrido na guerra ou com tiros disparados por snipers contra qualquer civil que tentasse sair para ir buscar comida. Fátima, 19 anos, mãe há uma semana de um bebé nascido no abrigo, estava tão traumatizada que perdeu o leite e falou num sussurro: “Só tenho água e açúcar para alimentar o bebé. Porque nos abandonaram?”

Não era a primeira vez que Colvin relatava os efeitos de bombas sírias sobre civis indefesos. A sua primeira grande reportagem, que a fez entrar para o Olimpo dos correspondentes de guerra internacionais, foi em abril de 1987, no campo de refugiados palestinianos Buri al Barajneh, no sul do Líbano, cercado pela milícia xiita Amal, apoiada pelo regime do presidente Hafez al-Assad. Marie Colvin e o fotógrafo Tom Stoddart tinham conseguido entrar, pagando a um comandante Amal para que suspendesse brevemente o tiroteio.

Marie Colvin em reportagem em Jenin, na Cisjordânia. Créditos: DR

Uma mulher jovem, Haji Achmed Ali, não teve a mesma sorte e foi atingida quando tentava reentrar no campo com mantimentos. Gravemente ferida, ficou estendida no chão, a poucos metros da entrada. Ninguém se atrevia a ir buscá-la, até que duas mulheres correram, a agarraram e a puxaram durante vários metros, sob fogo. Colvin assistiu à agonia dela e à sua morte. A história foi manchete do Sunday Times no dia 5 de abril de 1987. O pai Assad leu o jornal inglês, sentiu a pressão internacional e, dois dias depois, autorizou a entrada de um comboio humanitário da Cruz Vermelha, que salvou in extremis 47 pessoas gravemente feridas.

Em 2012, o filho Assad ofereceu um carro de luxo ao comandante que matou Colvin e disse numa entrevista a um canal de televisão que ela cavou a sua sepultura quando entrou ilegalmente na Síria.

Marie Colvin construiu a maior parte da sua carreira num mundo onde o jornalismo tinha lugar sentado à mesa dos poderosos. Jornalistas locais, stringers, fixers e tradutores sempre foram mortos sem piedade em dezenas de conflitos sangrentos. Mas os jornalistas trabalhando para grandes media internacionais estavam relativamente protegidos.

Foi com essa convicção que, em 1999, ela fugiu do hotel Mhakota cercado pelas milícias indonésias na sequência do referendo sobre a independência de Timor-Leste. Os funcionários internacionais foram evacuados para a Austrália e apenas um pequeno grupo se refugiou no pavilhão da Unamet, a força da ONU enviada para garantir a segurança mas que, face à escalada de violência, ordenou a retirada. Marie Colvin ficou, com cerca de 40 militares, alguns diplomatas, 2 jornalistas holandesas, 4 jornalistas portugueses e quase mil timorenses aterrorizados.

A jornalista britânica recusou abandonar Timor quando as milícias indonésias espalhavam o terror em Díli. Créditos: DR

O presidente indonésio, Bacharuddin Jusuf Habibie, leu as reportagens que escreveu para o Sunday Times, falando na roupa de bebé pendurada no arame farpado que rodeava o compound e no choro das “pequeninas” mulheres timorenses, e mandou o exército travar as milícias.

Graças a uma intensa campanha diplomática e cívica, a ONU reverteu a decisão e enviou uma força internacional de paz. Timor-Leste é hoje um país independente que escapou ao trauma de chorar mais mortos daqueles dias a ferro e fogo. Marie Colvin orgulhava-se do seu papel em Timor-Leste: “Senti-me bem por salvar vidas. É raro ver o jornalismo provocar um efeito tão imediato na história”.

O mundo em que jornalistas salvavam vidas com a denúncia de crimes e abusos já não existe. Hoje os tiranos, como o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, ficam impunes perante a execução de jornalistas como Jamal Khashoggi, 59 anos, saudita com nacionalidade norte-americana, colaborador do Washington Post desde 2017, quando foi proibido de escrever e forçado ao exílio na Turquia.

Em 2018, entrou no consulado do seu país em Istambul porque queria casar-se com Hatice Cengiz, uma académica turca. Um esquadrão da morte drogou-o, depois executou a ordem final, que talvez tenha sido proferida com a mesma voz de falsete da rainha de copas: “Cortem-lhe a cabeça!”.

Em 2021, líderes nacionalistas, como o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, mandam aviões lançar mísseis sobre a torre Jala, na Faixa de Gaza, que sedeava os escritórios da televisão Al-Jazeera e da agência de notícias Associated Press. O prédio de 12 andares desabou como um castelo de cartas, talvez porque os militares israelitas não estavam a gostar dos relatos que reconheciam o sofrimento de centenas de vítimas civis palestinianas nos bombardeamentos dos últimos 6 dias.

Poucos dias depois, outro tirano, o presidente bielorusso Alexandr Lukashensko, desviou um avião comercial da Ryanair, que fazia a ligação entre Atenas e Vilnius, e prendeu em Minsk o jornalista Roman Protasevich, 26 anos, fundador do canal Nexta, muito popular na plataforma digital Telegram, um dos mais críticos opositores do regime da Bielorrússia.

Repórteres como Marie Colvin partilham uma característica preciosa: colocam as perguntas certas. Em 2006, impacientou-se num clube inglês ao ouvir um conferencista divagar sobre a morte da jornalista russa Anna Politkovskaya, morta no seu apartamento em Moscovo depois de anos de perseguição pelas suas investigações sobre os abusos de direitos humanos cometidos pelas autoridades russas nas guerras da Chechenia. Politkovskaya era correspondente do diário independente Novaya Gazeta e já antes fora ameaçada, presa, exilada e envenenada. Colvin levantou-se e perguntou: “Quem matou Anna? Responder a essa pergunta é a melhor coisa que podemos fazer enquanto jornalistas”.

Lindsey Hilsum, repórter de guerra e autora de uma biografia de Marie Colvin, imortalizou a sua vida seguindo o método dos bons biógrafos: uma mistura de empatia compassiva, crueldade e ternura. Apesar de se terem cruzado em vários cenários de conflito, desde a guerra da Eritreia em 1998, não eram amigas e Colvin nunca lhe contou que tinha sido diagnosticada em 2004 com stress pós traumático. Foi o seu último namorado, Richard Flaye, quem fez a revelação: “Por vezes, quando a acariciava, sentia pedacinhos de estilhaços acumulados ao longo de anos a saírem das entranhas do seu corpo e a perfurarem a pele.”

Docente no Departamento de Ciências da Comunicação da NOVA FCSH, investigadora do ICNOVA na área da história dos media e jornalista freelancer, escreve todos os meses no mediotejo.net sobre jornalismo. Porque os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.

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