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Domingo, Julho 25, 2021

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Maria Lamas, a escritora-jornalista, que lutava pelos direitos das mulheres

A escritora Maria Lamas, “figura impoluta e intelectual atípica”, assistiu a capítulos determinantes da História portuguesa, nasceu durante o período da Monarquia, viveu a Primeira República, resistiu ao Estado Novo e morreu depois da Revolução de Abril.

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Maria Lamas foi além do papel de testemunha, marcando o início do século XX em Portugal, devido ao trabalho como escritora, jornalista e tradutora mas, sobretudo, pela atividade política a favor das causas feministas, numa “reivindicação intelectual”, que “não era só o direito a voto, não era só direito de autor”.

“Ela lutava pelo direito de igualdade das mulheres. Ela entra nesta luta através do jornalismo. E sempre através dos livros e da leitura”, disse Maria Antónia Fiadeiro, jornalista e biógrafa de Maria Lamas, que a relembra como “uma figura impoluta e intelectual atípica, de uma grande honestidade”.

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Maria Lamas nasceu em Torres Novas, em 1893 e, aos 17 anos, casou-se pelo civil – o primeiro na cidade -, com o tenente Ribeiro da Fonseca, acompanhando o marido, colocado em Angola. Regressou a Portugal dois anos mais tarde, acabando por se divorciar em 1919, ficando com as duas filhas a seu cargo. Voltou a casar-se em 1920, com o jornalista monárquico Alfredo da Cunha Lamas, com quem teve a terceira filha, Maria Cândida.

Começou a escrever desde cedo, publicando poesias, romances e contos infantis e, como jornalista, passou pelas redações da Agência Americana de Notícias, A Capital, Civilização e O Século.

Foi n’O Século que Maria Lamas se destacou pelo trabalho desenvolvido no semanário feminino Modas & Bordados, uma revista popular, que chegava a todas as casas portuguesas, e a que a escritora acrescentou conteúdo intelectual.

“Era uma revista popular, com modas, com bordados, com amostras de ‘tricot’, de ‘croché’. Ela manteve isto tudo, nunca desprezou o trabalho de casa das mulheres, mas acrescentou-lhes todas as outras coisas que faltavam. É nisto que ela sobressai”, disse Maria Antónia Fiadeiro.

Entre muitos dos pseudónimos que Maria Lamas usou, um deles terá marcado as mulheres portuguesas do início do século XX: a Tia Filomena, responsável pelas respostas do correio sentimental do Modas & Bordados.

“Qualquer problema que as mulheres tivessem – e tinham muitos – dirigiam-se por carta à revista e ela respondia. E as mulheres ficavam orientadas. Nestes anos era uma ousadia escrever para uma revista e fazer determinadas perguntas que não eram habituais nestes correios. Ela acrescenta-lhe tudo o que faz parte da vida das mulheres, tudo o que as mulheres querem saber, o que elas perguntam da vida sociedade, política, a sua orientação profissional”, acrescentou a biógrafa.

Em 1930 organizou a exposição “Mulheres Portuguesas”, da obra feminina antiga e moderna, de carácter literário, artístico e científico, que ocupou 11 salas d’O Século, marcando a trajetória feminista da escritora.

“Uma das narrativas do feminismo português é a reivindicação intelectual e esta exposição, entre outras, é uma prova disso. Há permanentemente uma reivindicação intelectual. Não era só o direito a voto, não era só direito de autor. Era dar visibilidade ao trabalho das mulheres, de norte a sul”, contextualiza Maria Antónia Fiadeiro.

Apesar da luta política pelas causas das mulheres, Maria Lamas “nunca se declara feminista, era uma feminista tácita”, disse Fiadeiro.

Em 1947, seguiu-se outra exposição sobre livros escritos por mulheres, que lhe custou a direção do M o Modas & Bordados, lançando-a no projeto do livro “As Mulheres do meu país”, uma peregrinação de dois anos para documentar a condição de vida das mulheres portuguesas.

Participou nos Congressos Mundiais da Paz, presidiu o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e fez parte da direção do Movimento de Unidade Democrática.

Teve um papel ativo na candidatura de Norton de Matos à Presidência da República, em 1949, e fez parte da direção do Movimento de Unidade Democrática, que combateu a ditadura.

Foi presa pela PIDE três vezes, entre 1949 e 1962, acabando por se exilar em Paris até 1969.

“Eu conheci-a nessa época, conversámos, ia ao café. Eu também estive exilada em França. Ela vivia num quarto onde cabia a cama e o guarda-fato e uma mesinha. Ali viveu anos”, disse Fiadeiro sobre o Hôtel Saint-Michel, no Quartier Latin, em Paris.

Depois do regresso a Portugal, inscreveu-se no Partido Comunista Português e voltou à Moda & Bordados, como diretora honorária. Recebeu a Ordem da Liberdade, das mãos do Presidente Ramalho Eanes, e a medalha Eugénie Cotton, pela Federação Democrática Internacional das Mulheres.

Morreu a 06 de dezembro de 1983, com 90 anos, marcados pela “honorabilidade, pela honestidade, pela sinceridade, pela tenacidade” disse Fiadeiro.

O 33.º aniversário da morte da escritora será celebrado em Torres Novas, com a estreia, em Portugal, da peça de teatro “Maria Lamas, Sempre mais Alto”, do grupo Pó da Terra, que já apresentou o espetáculo em Berlim.

A família da escritora quer reeditar a obra de Maria Lamas e publicar outros volumes que não chegaram a ser editados.

“São três volumes que ela própria definiu como ‘O Despertar’, ‘O Caminho’ e ‘A Luta’. Como ela não pôde publicar, dado a repressão política e social, estou a usar todo o material que tenho para reconstituir, à minha maneira, estes volumes”, disse José Pereira Bastos, neto de Maria Lamas.

Pereira Bastos lamentou que, de momento, não se encontrem à venda títulos de Maria Lamas, referindo que “foram guilhotinados mais de mil exemplares de luxo de ‘As Mulheres do Meu País’, quando a Caminho mudou de mãos”.

Além de “As Mulheres do Meu País”, Maria Lamas escreveu “A Mulher no Mundo” e “O Mundo dos Deuses e dos Heróis”, investigação sobre as mitologias grega e romana, além de obras de poesia, ficção e de literatura infantil, como “A Montanha Maravilhosa”, “Brincos de Cereja” e “A Ilha Verde”, entre outros títulos.

Obra inédita de Maria Lamas a publicar a título póstumo encontra-se desaparecida

Escritos da jornalista e ativista política Maria Lamas, que deviam ter sido publicados trinta anos após a sua morte, encontram-se desaparecidos, revelou o neto da escritora, no dia em que se assinala o 33.º aniversário do seu falecimento.

“Está escrito em carta da minha avó à filha mais nova que as obras devem ser publicadas trinta anos após a sua morte e a filha, em carta do mesmo dia de 02 de fevereiro de 1982, confirma o depósito com ata notarial e testemunhas deste material na Biblioteca Nacional”, disse à agência Lusa José Pereira Bastos, neto de Maria Lamas, que tem dedicado os últimos três anos ao estudo do espólio da escritora.

Passados trinta e três anos da morte de Maria Lamas, que faleceu a 06 de dezembro de 1893, José Pereira Bastos disse acreditar existir obra inédita de Maria Lamas por publicar, em paradeiro incerto.

“Na Biblioteca Nacional, por mais pesquisas que profissionais da casa tenham feito, ninguém encontra nada. Estive três anos a investigar isto na Biblioteca Nacional, na Torre do Tombo, no Museu Ferreira de Castro, a pedir cartas à família que ainda as tenha”, disse Pereira Bastos em entrevista à agência Lusa.

O neto da escritora tem tentado juntar várias pistas que o levem ao paradeiro dos documentos e desenvolveu uma teoria relacionada com uma alegada relação amorosa que Maria Lamas terá tido com o escritor José Maria Ferreira de Castro, no início dos anos de 1930.

“Eu sugiro que existe uma espécie de diário íntimo”, referiu Pereira Bastos, focado na relação entre os dois escritores, garantindo que “há muitas cartas em que é evidente que houve um ‘affair’ muito forte desde que morreu Diana de Lis [primeira mulher de Ferreira de Castro], em 1930. As cartas da minha avó de 30 a 36 desapareceram”.

O neto da escritora acredita que, no espólio desaparecido, estão “cartas de amor entre 30 e 36”, altura em que Ferreira Castro casa com Elena Muriel, uma pintora espanhola a residir no Estoril.

“A minha avó desistiu da relação amorosa com ele por uma razão que é óbvia, ou seja, ela era casada pela igreja com um senhor que era monárquico, de extrema-direita, e que não lhe dava o divórcio que ela desejava”, explicou.

Pereira Bastos acrescentou que a alegada mudança de local dos documentos pode ter sido levada a cabo por Ferreira de Castro, numa tentativa de salvaguardar a família, alargando o período de espera para cinquenta anos, ao invés de trinta.

“Tenho uma tese sobre isso: esse material está no Museu Ferreira de Castro em Sintra e quem o tirou não foi a família de Maria Lamas, mas o próprio Ferreira de Castro”, atirou, acrescentando que “ele criou um intervalo de cinquenta anos para defender a filha emocionalmente, porque a relação deles não era pública”.

Pereira Bastos garante existir no Museu de Ferreira Castro “uma caixa encarnada” com uma declaração do escritor solicitando que a esta seja aberta cinquenta anos após a sua morte.

Ferreira de Castro morreu em 1974, sendo que o 50.º aniversário do seu falecimento será assinalado em 2024, altura em que Pereira Bastos espera “ainda cá estar para abrir essa caixa”.

Maria Antónia Fiadeiro, jornalista e autora de uma biografia de Maria Lamas, confirma a existência de referências a uma obra inédita a ser publicada a título póstumo.

“Se existe esse volume? Eu acho que sim, que existe. Ela faz referência”, disse a jornalista.

Maria Antónia Fiadeiro desconhece se a relação entre Maria Lamas e Ferreira de Castro foi de cariz amoroso, referindo que os escritores “tiveram uma amizade especial”.

“Os termos e as palavras eram amorosos, mas não correspondia à noção que nós temos hoje do amor. Ela era muito amorosa, carinhosa e as cartas estão cheias disso, mas não quer dizer que fossem cartas íntimas ou que isso refletisse alguma relação maior. Eram amizades profundas, ela estava sempre à disposição para ajudar os outros, os amigos e as amigas”, explicou a jornalista.

A biógrafa da escritora levanta outra hipótese, referindo que os textos desaparecidos podem ser o último fascículo de uma revista intitulada “Quatro Estações”.

“Ela sai da ‘Modas [& Bordados’] e fala muito nesse projeto que é o livro da mulher. Eu venho a constatar que o livro da mulher é uma revista que tem dados autobiográficos, que se chama ‘As Quatro Estações’, de que só saem três volumes, o quarto não foi autorizado e onde ela tem relatos autobiográficos que não eram usuais à época”, referiu.

Relativamente à localização dos documentos, Maria Antónia Fiadeiro desconhece mais detalhes, referindo que, “sem escritos, não vamos lá”.

Maria Lamas nasceu a 06 de outubro de 1893, em Torres Novas, e morreu aos 90 anos, em dezembro de 1983, tendo casado duas vezes.

Maria Lamas ficou conhecida pelo seu trabalho como escritora, jornalista e tradutora, tal como pela atividade política a favor das causas feministas.

Agência de Notícias de Portugal

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