Sexta-feira, Fevereiro 26, 2021
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Manuela Azevedo assinala 105 anos e é convidada a visitar Constância em 2017

A jornalista e escritora Manuela Azevedo apagou hoje as velas dos seus 105 anos colocadas num bolo em forma de máquina de escrever e perante um coro, que incluiu a voz do presidente da República, com quem trabalhou. Convidada para estar em 2017 em Constância no dia de Camões, pelo presidente da Casa Memória de Camões, instituição que ajudou a fundar, Manuela Azevedo respondeu com um eloquente: “No que depender de mim…”

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O Sindicato dos Jornalistas (SJ) e o Museu Nacional da Imprensa decidiram homenagear a jornalista Manuela de Azevedo, a primeira mulher portuguesa a receber a carteira profissional de jornalista e fundadora da Casa Memória de Camões, em Constância, e que celebra neste dia 105 anos, (nasceu a 31 agosto de 1911).

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A jornalista Manuela Azevedo assinalou hoje 105 anos de vida. Convidada a estar em Constância em 2017 simplesmente respondeu: “No que depender de mim…” Foto: Presidência da República

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A cerimónia contou com a presença da aniversariante, que é também a sócia mais antiga do SJ, além do Presidente da República, de deputados e representantes de associações do setor. Também a Câmara Municipal de Constância se fez representar, pelo vereador Daniel Martins, e pelo presidente da direção da Associação Casa Memória de Camões, António Matias Coelho, que lhe endereçou o convite para estar presente em Constância por ocasião do próximo dia 10 de junho, Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas.

A resposta de Manuela de Azevedo “foi eloquente”, como contou Matias Coelho ao mediotejo.net. O atual presidente da direção da Casa Memória de Camões lembrou ainda “o acaso” que proporcionou à então jovem jornalista do DN conhecer a Vila cantada por Camões. “Foi algures nos anos 50 que a Casa do Ribatejo promoveu uma visita guiada às ruínas da casa onde a tradição oral assevera que terá habitado Camões, uma visita conduzida pelo médico Adriano Burguete, tendo o convite para acompanhar a visita caído em cima da secretária de Manuela Azevedo, em Lisboa. Ela não conhecia Constância, telefonou a perguntar onde era, e cá veio fazer a reportagem. De tal modo ficou encantada com a energia e a força que os populares lhe transmitiam sobre Camões e a sua presença em Constância que passou a visitar a vila com assiduidade e a querer aprofundar e divulgar a obra camoniana. Manteve a sua casa em Lisboa mas teve um quarto reservado na Quinta de Santa Bárbara durante muitos anos, depois de ter deixado a atividade jornalística”, contou.

No dia de hoje, o Museu Nacional da Imprensa aproveitou para apresentar uma galeria virtual com textos, fotografias, entrevistas em vídeo, um auto retrato e uma bibliografia da jornalista, que exerceu a profissão durante quase seis décadas, vivendo os mais relevantes períodos históricos do século XX.

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O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa associou-se ao aniversário e homenagem a Manuela de Azevedo. Foto: Presidência da República

Poesia, dramaturgia, ficção, ensaio e jornalismo foram alguns dos muitos ofícios de Manuela de Azevedo ao longo da vida, tendo editado o seu primeiro livro, “Claridade”, em 1935, com prefácio de Aquilino Ribeiro, sendo de destacar ainda o seu trabalho sobre a obra de Luís de Camões. Ela é uma das responsáveis pela construção da Casa Memória de Camões, em Constância, além de coordenadora da obra “A Camões”, uma coletânea de estudos comemorativa da abertura da Casa Memória de Camões de Constância.

Entre os episódios que hoje contou, em Lisboa, com uma invejável lucidez e descrições visuais, Manuel Azevedo recordou as viagens que fez com Marcelo Rebelo de Sousa quando os dois partilhavam o ofício de jornalismo: “Sempre nos demos muito bem e há uma ‘gaffe’ que eu cometi, numa viagem de avião para o Norte da Europa. Ele ia com o Adelino [Cardoso, do Diário Popular] e eu que não sabia do passado de ambos [tinham trabalhado juntos em Moçambique] e disse que os extremos se tocavam, porque o Adelino era da extrema-esquerda e o outro da direita… e eles não gostaram”.

“Estamos aqui não por fazer 105 anos, mas por ser a Manuela Azevedo”, garantiu Marcelo Rebelo de Sousa, na cerimónia organizada pelo Museu da Imprensa e Sindicato dos Jornalistas, até ser interrompido pela aniversariante para comentar que “é muito ano para uma pessoa só”.

“Não é não. É uma idade rara, mas muito boa”, retomou o Presidente da República, para acrescentar que o dia serviu para agradecer à jornalista e a condecorar com a Ordem da Instrução Pública, já que a centenária recebeu já outras condecorações pelo Mérito, Liberdade e Luta pela Liberdade, em 1995 e em 2014.

A condecoração foi acordada com o primeiro-ministro, António Costa, cuja mãe trabalhou com Manuela de Azevedo, e serviu para o único comentário de Marcelo não dedicado à homenageada. “Ele [António Costa] era para ter vindo cá, mas não pôde, porque o Presidente acaba por ter menos trabalho que o primeiro-ministro e o primeiro-ministro estava ocupado hoje de manhã.”

Já na viagem às suas memórias, Manuela de Azevedo relatou uma reportagem sobre barracas, “antes do 25 de Abril [de 1974]”, nas chamadas furnas de Monsanto, na zona de Lisboa. “E o que eram as furnas de Monsanto? Eram buracos nas rochas, com o chão cheio de poças de água e lama. E criancinhas, seminuas, descalças, brincavam ali enquanto um velho tuberculoso, que tinha acabado uma espécie de cama ou beliche na própria rocha, ia cuspindo a sua miséria para o chão”, relatou.

Manuela de Azevedo congratulou-se pelo alojamento posterior dessas 40 pessoas e aproveitou para dar a sua definição de jornalismo. “O jornalismo não é só aquele que diz que morreram tantas pessoas num desastre. O jornalismo é o defensor da objetividade, de focos, de problemas sociais”.

Já diante dos caçadores do cachalote da Madeira tinha dito que a “função do jornalista não é olhar às dificuldades, mas [que] o objetivo é informar”.

A carreira feita a escrever começou em 1935 com artigos censurados, quando a partir de Viseu escreveu sobre a eutanásia. Onze anos depois assinava a manchete do Diário de Lisboa – “Fui criada de Sua Majestade” – que incluía textos escritos quando se disfarçou de aspirante de criada e entrou na Quinta da Piedade (Sintra), onde a família do rei Humberto II, de Itália, morava desde a deposição.

Esses textos foram vendidos à imprensa estrangeira, o que lhe valeu “umas tantas libras” e a admiração de leitores por um pormenor: “Era não terem água corrente, com a água para os banhos a ir numa chaleira. Foi uma sensação em todo o mundo”, contou.

Ser mulher numa profissão de homens até foi “muito fácil”, garantiu Manuela Azevedo, que comentou como o “decano Norberto de Araújo, no Diário de Lisboa” a ‘baptizou’ de “lagartixa”, por “mexer em toda a parte à procura de assuntos”.

Revelando que “a vista lhe falhou”, Manuela de Azevedo diz que só lê atualmente os títulos, mas prepara ainda um novo livro. Porque as letras sempre foram, e sempre serão, a sua vida.

c/Lusa

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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