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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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“Manuel Faria, atleta abrantino de excelência”, por José Martinho Gaspar

No último dia de cada ano, dia de S. Silvestre (Papa entre 31 de janeiro de 314 a 31 de dezembro de 335), vulgarizaram-se as provas de fundo de atletismo em várias cidades, um pouco por todo o mundo. São as famosas corridas de S. Silvestre. A mais célebre destas corridas é a de São Paulo, no Brasil, organizada ininterruptamente desde 1925 e que teve como primeiro atleta português a vencê-la o abrantino Manuel Faria.

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Manuel Faria nasceu na freguesia de S. Miguel do Rio Torto, concelho de Abrantes, a 12 de dezembro de 1930. Depois de ingressar no Sporting, o clube do seu coração, foi em 1950 Campeão Nacional de Juniores nos 5000m, feito que repetiu no ano seguinte, em que também ganhou a prova dos 1500m, em ambos os casos estabelecendo novos recordes nacionais da categoria. Entre 1950 e 1952, integrou as equipas do Sporting que tiveram uma série de sete vitórias consecutivas na Estafeta Cascais-Lisboa, feito que repetiria entre 1958 e 1960, totalizando assim seis participações vitoriosas, nesta popular corrida de estrada.

Depois de um início de carreira muito prometedor, Manuel Faria viria a confirmar-se como um atleta de elite, tornando-se no primeiro grande meio-fundista nacional, em grande parte graças ao trabalho feito em conjunto com o treinador Luís Aguiar, que estabeleceu contactos com técnicos alemães, implementando novas metodologias de treino.

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“Ainda tinha forças para mais uns 500 metros” – Manuel Faria, atleta do Sporting, 1930-2004, após ganhar a corrida de S. Silvestre, em 1956. Foto: DR

Em 1954, teve a sua primeira experiência na famosa corrida de São Silvestre de São Paulo, terminando no 40.º lugar, tendo contado mais tarde que tinha sido aconselhado pelo médico a não participar e que só não desistiu por vergonha e à custa de muito sofrimento, devido a umas estranhas dores que sentira nas pernas. Mas valeu pela experiência e Manuel Faria prometeu voltar.

De facto voltou, mas para ganhar, o que aconteceu pela primeira vez a 31 de dezembro de 1956, quando percorreu a distância em 28:58.09, um tempo recorde, naquele que foi considerado o maior feito até então realizado por um atleta português no estrangeiro. Um ano depois repetiu a proeza, desta vez derrotando o então campeão olímpico e recordista mundial dos 5000 e 10000m, o russo Vladimir Kutz, e foi elevado à condição de grande herói da comunidade portuguesa no Brasil. Nos dois anos que se seguiram, Manuel Faria voltou a marcar presença na São Silvestre de São Paulo, obtendo um 2.º e um 4.º lugar, que não beliscaram o seu enorme prestígio no Brasil.

Manuel Faria foi o primeiro português a triunfar na célebre corrida de São Silvestre, Foto: DR

Na pista, entre 1955 e 1958, foi Campeão de Portugal quatro vezes nos 5000m, três nos 10000m e uma nos 1500m, chegando a ser o recordista nacional de todas as distâncias, entre os 1500m os 10000m, incluindo os 3000m obstáculos. A sua carreira também ficou marcada, pelo facto histórico de ter sido o primeiro português a baixar dos 15 minutos nos 5000m, quando em 1954 percorreu a distância em 14:54.06, uma marca que viria a melhorar quatro vezes, até a fixar a em 14:18.04, em 1957.

A 15 de setembro de 1958, a Câmara Municipal de Abrantes concedeu-lhe a medalha de ouro da cidade. O Sporting atribuiu-lhe, em 1995, o Prémio Stromp na categoria Saudade.

Depois de deixar de competir, Manuel Faria integrou algumas equipas técnicas do Sporting, na qualidade de monitor. Faleceu a 7 de agosto de 2004, com 73 anos.

José Martinho Gaspar nasceu em Água das Casas (Abrantes), na década de 60 do século XX, e vive em Abrantes. É Professor de História e Mestre em História Contemporânea. Desenvolve a sua ação entre aulas, atividades associativas (Palha de Abrantes e CEHLA/Zahara, mas também CSCRD de Água das Casas), leitura e escrita, tanto de História como de ficção, sendo autor de vários artigos e livros. Apaixonado por desporto, já não vai em futebóis, mas continua a dar as suas voltas de bicicleta. Afinal, diz, "viver é como andar de bicicleta: não se pode deixar de pedalar e quando surge um cruzamento escolhe-se o nosso caminho".

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